
Ramones (1976), álbum homônimo da banda que inaugurou o punk rock de jaqueta de couro e jeans, completa 50 anos nesta quinta-feira (23/4). Nesse meio século, quatro rapazes do Queens, em Nova York, lançaram a pedra fundamental de uma centena de outras bandas ao redor do mundo. Mas a influência da simplicidade a favor do som e do visual permanece até os dias de hoje.
Foi na década de 1970 que Joey, Johnny, Tommy e Dee Dee, delinquentes de vinte e poucos anos, decidiram montar um grupo utilizando um antigo pseudônimo de Paul McCartney (Paul Ramón), que se tornaria o sobrenome dos quatro pelo resto da vida: Ramones.
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O som que emplacava sucessos na época era o rock progressivo e de arena, cheio de excessos (o Led Zeppelin chegou a ter o próprio avião de luxo para as turnês) e com investimentos milionários em artistas virtuosos que se tornavam cada vez mais distantes do público.
Para piorar, os Estados Unidos acabavam de sair humilhados da desastrosa Guerra do Vietnã e a cidade de Nova York afundava em uma crise econômica que transformou vários bairros, atualmente famosos, em vizinhanças violentas e com jeito de cenário pós-apocalíptico. Nada coincidentemente, foi ali também que surgiu o hip hop poucos anos depois.
Sem dominar os instrumentos, sem o visual da moda, sem otimismo da geração hippie e sem milhares de dólares na conta, os quatro decidiram misturar o pop dos anos 1950 e 1960 com urgência musical, simplicidade e referências que poderiam ser reconhecidas por qualquer jovem norte-americano da época. O plano era simples: rock n’ roll direto ao ponto. Sem firulas. Sem solos gigantescos. Do jeito que eles bem entendessem.
O emblemático grito de guerra “Hey, ho! Let’s, go!” aparece logo na primeira faixa do álbum, Blitzkrieg Bop, junto com uma guitarra totalmente distorcida e um andamento rápido demais para os padrões da época. A partir daí, nada mais seria o mesmo. Era o chamado para milhares de jovens ao redor do mundo pegar as guitarras, contar “um-dois-três-quatro” e berrar no microfone de qualquer jeito o que bem quisessem.
Para deixar ainda mais acessível, as músicas eram fáceis de tocar: quatro acordes, verso e refrão. Ou seja, qualquer um poderia ensaiar alguns dias em casa com amigos, subir num palco e fazer igual. Ou quase igual, afinal, eram os Ramones.
O rompimento do otimismo dos anos 1960 e do “All you need is love” dos Beatles já aparece no conteúdo das músicas: letras sobre cheirar cola, referências sobre a Segunda Guerra Mundial, tédio, comportamento anti social, prostituição masculina e problemas em família. O som era como se canções “bubble pop” dos Beach Boys e Buddy Holy fossem tocadas com o dobro de velocidade e distorções.
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O começo de tudo
O primeiro álbum dos Ramones tinha tudo para cair no esquecimento. Afinal, era uma banda que tocava no famoso bar “pé-sujo” de Nova Iorque, o CBGB’s, composta por músicos que nem de longe lembraram os galãs do Led Zeppelin ou os rebuscados grupos como Yes e Emerson, Lake and Palmer.
O vocalista, Joey, era alto e desengonçado no palco, se escondendo atrás dos óculos escuros e do cabelo no rosto. Tommy, o baterista, sofria de estresse a cada turnê (motivo que o levou a abandonar as baquetas alguns anos depois). E o guitarrista, Johnny, e o baixista, Dee Dee, eram trabalhadores da construção civil.
Quis o destino, que canções como Beat on the Brat, Chainsaw e Now I Wanna Sniff Some Glue fossem exatamente o que milhares de jovens ao redor do mundo estavam esperando. Em pouco tempo, diversos grupos inspirados nos Ramones surgiram: Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys, Buzzcocks, e por aí vai.
No Brasil, o impacto atingiu desde grupos de jovens da periferia da cidade de São Paulo, quanto filhos de diplomatas em Brasília. Foi assim que surgiram os Inocentes, Cólera, Ratos de Porão, Legião Urbana, Plebe Rude, entre outras bandas. Detalhe: com o Brasil ainda sob o peso da Ditadura Militar.
Passados 50 anos, o visual punk já virou moda mainstream, músicos rebeldes da época já se tornaram senhores conservadores e Blitzkrieg Bop já virou até jingle de propaganda de automóveis. O que não passou foi o espírito do “faça você mesmo” e a urgência em se expressar musicalmente, independente das condições materiais que aflingem o cotidiano.
Se atualmente adolescentes da periferia produzem sucessos do funk e do hip hop em casa utilizando as ferramentas disponíveis e longe dos estúdios milionários, contrariando todas as estatísticas e botando a boca no mundo, os Ramones fizeram algo muito parecido lá nos distantes anos 1970 e inspiraram muita gente. Muita gente mesmo.
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