personalidade

Fabiana Mattedi representa o "molho baiano" na terra do Tio Sam

Natural da Bahia, Fabiana Mattedi leva a Nova York o incômodo e a potência do envelhecimento em monólogo autoral

Fabiana Mattedi, atriz baiana -  (crédito: Livia Sá)
Fabiana Mattedi, atriz baiana - (crédito: Livia Sá)

Há conversas no metrô que viram crônicas, que, quase sem querer, viram teatro. Foi assim com Notes on collagen: Notas sobre colágeno, o primeiro monólogo autoral da atriz baiana Fabiana Mattedi, que teve temporada de quatro apresentações em inglês no New York City Fringe Festival em abril.

No palco, uma mulher imigrante de meia-idade se vê diante de um espelho — e do espelho do mundo — para questionar as promessas de confiança e segurança que a sociedade ainda insiste em atrelar à juventude e à aparência. Com humor e delicadeza, a peça desmonta ilusões sem didatismo, como quem compartilha uma confidência entre amigas.

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"A ideia surgiu de forma muito espontânea. Eu escrevi um primeiro rascunho a partir de uma conversa que ouvi no subway. A escrita é minha forma mais imediata de expressão. Não foi um manifesto, nem uma tentativa de pregar ideias — foi uma exploração que começou de forma mais cômica e foi se aprofundando", conta Fabiana. 

Ainda que nascido de uma experiência íntima, o espetáculo rapidamente revelou seu caráter universal. Fabiana percebe que o debate sobre etarismo tem ocupado livros, filmes e diferentes meios — e seu monólogo, diz ela, "dialoga com algo maior, como se fizesse parte de uma corrente coletiva".

Essa consciência vem acompanhada, porém, de um peso criativo. "Existe uma grande responsabilidade em levar para a cena algo que foi concebido por mim. Depois que o trabalho ganha o mundo, não há como negar essa 'maternidade'. Ele carrega minhas inquietações, meus olhares, minhas perguntas", relata.

Mas também há alívio. "Quando colocamos algo em evidência, iluminado pela consciência, abrimos espaço para reflexão. E existe um certo alívio em perceber que não estamos sós — outras pessoas também vivem, viveram ou viverão questões semelhantes. Envelhecer é inevitável — para quem tem o privilégio de chegar até lá", completa Fabiana.

Perguntada se sente os efeitos do etarismo na própria pele e trajetória, Fabiana responde sem rodeios: venho sentindo em vários aspectos. No corpo, a mudança foi de paradigma. "Antes, era muito mais sobre estética; agora virou quase uma negociação diária com a funcionalidade. Minha lombar é tão temperamental quanto eu era na minha TPM", enumera.

Ela descreve um cuidado novo, mais atento e consciente. "É uma parceria. Preciso do meu corpo, e meu cuidado com ele agora vem de um lugar mais saudável", observa. Na carreira, a percepção é igualmente aguda. "Tenho a sensação, às vezes até meio cômica, de que pulei uma fase inteira — fui direto para os papéis de mãe sem ter passado muito pelos de filha", frisa. A saída, para ela, tem sido o humor e a curiosidade: "É sobre ir entendendo esses deslocamentos com certa leveza, tentando encontrar novas possibilidades dentro do que se apresenta".

Solo fértil

Natural da Bahia, Fabiana foi perguntada sobre o famoso "molho" que artistas como Wagner Moura — recentemente indicado a múltiplos prêmios por O agente secreto — têm levado ao mundo. "Esse 'molho' do baiano tem muito a ver com uma espontaneidade muito própria, quase impossível de fabricar. Nasce da vivência, da mistura cultural, da musicalidade e da forma leve de se relacionar com o mundo. Talvez seja o despojamento — essa liberdade de ser, de criar sem tanta rigidez — somado a uma alegria muito enraizada na cultura baiana", explica.

Segundo ela, essa energia encontra solo fértil em Nova York. "A recepção tem sido sempre muito favorável. NY vive da diversidade cultural. Já encenei uma obra da Clarice Lispector com o Group.BR (única companhia brasileira na cidade), e no ano passado tive o prazer de levar 'Vestido de noiva', do Nelson Rodrigues, ao circuito off-Broadway. Foi gratificante ver como o público acolhe algo tão brasileiro com tanto interesse", conta.

Ambição viva

Com passagens pelo Brasil, Austrália e Estados Unidos, Fabiana tem uma carreira consolidada, mas mantém a ambição viva. "Quero ainda desenvolver muitos textos que tenho guardados. Também desejo escrever um livro. E carrego um sonho constante de me dedicar ao audiovisual — cinema, filmes, imagens em movimento — uma arte pela qual tenho paixão antiga." Por ora, porém, a atenção está voltada para Notes on collagen. "Neste momento, estou muito focada em tentar aprofundar e explorar ao máximo tudo o que esse trabalho pode se tornar, entendendo suas camadas e seu momentum antes de partir para os próximos passos", conclui.

Com formação pela Universidade Federal da Bahia (primeira escola de teatro do Brasil) e pela Actors College for Theatre and Television (Sydney), Fabiana Mattedi atua desde 1999. Morando em NY desde 2017, integrou o elenco de produções como "Vestido de noiva" (off-Broadway), a série Sins of the South (Oxygen true crime) e foi indicada ao Brazilian International Press Awards por seu trabalho em Hora de Clarice.

 


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postado em 30/04/2026 09:21
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