Literatura

Haroldo de Campos ganha antologia-celebração, que será lançada em Brasília

Oito poetas brasilienses integram coletânea de poemas em homenagem ao fundador da poesia concreta. Lançamento está marcado para sexta-feira (15/5), às 19h, na Bublioteca Demonstrativa

Foto: Território das Artes/Reprodução. Capa do livro Constelação Haroldo de Campos: antologia celebração; organização de Claudio Daniel. Rosto -  (crédito: Rosto)
Foto: Território das Artes/Reprodução. Capa do livro Constelação Haroldo de Campos: antologia celebração; organização de Claudio Daniel. Rosto - (crédito: Rosto)

Quando era estudante de letras da Universidade de Brasília, Francisco K enviou um trabalho acadêmico ao endereço dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, sem muitas expectativas de ser correspondido. Para a surpresa do jovem poeta, os dois consagrados autores não apenas deram retorno como autorizaram uma visita à casa deles, em São Paulo. Foi o começo de um vínculo que teve grande influência no projeto literário de Francisco. "Posso dizer que é a base da minha formação."

Assim como ele, muitos outros escritores estão situados em torno desses mesmos nomes que se tornaram referência da poesia brasileira. Por iniciativa de Claudio Daniel, 40 poetas foram selecionados para a Constelação Haroldo de Campos, antologia que será lançada em Brasília, nesta sexta-feira, às 19h, na Biblioteca Demonstrativa. Os textos reunidos são de autoria de nomes mais conhecidos, como Arnaldo Antunes, André Vallias e Horácio Costa, e de outros poetas.

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Na coletânea, estão os brasilienses Noélia Ribeiro, Jorge Amancio, Paulo Kauim, Francisco K, Luciana Barreto, Nara Fontes, Edelson Nagues e Isabel Corgosinho. Claudio Daniel ministrou, em 2025, curso on-line sobre a poesia de Haroldo. As oficinas revelaram alguns trabalhos presentes no livro.

Segundo o organizador, a iniciativa surgiu do desejo de prestar homenagem a uma personalidade "essencial da poesia brasileira do século 20", cuja atuação não se restringe à Poesia Concreta. "Haroldo de Campos nos legou também importante obra crítica, tradutória e ensaística", ressalta Claudio Daniel. Segundo ele, esse trabalho ainda carece de reconhecimento da crítica e dos poetas. "Há ali uma inovação radical, que abre muitos caminhos de experimentação", defende. 

Claudio cita a importância de Haroldo para a revalorização do barroco brasileiro, em especial da obra de Gregório de Matos, e pela redescoberta do poeta romântico maranhense Joaquim de Sousândrade. Além disso, a divulgação pioneira das vanguardas russas (ao lado do irmão, Augusto de Campos, e de Boris Schnaiderman) e as traduções que fez da Divina Comédia, de Dante, e do Fausto, de Goethe, estão entre os feitos que demonstram a amplitude do trabalho de Haroldo. 

A antologia-celebração coincide com os 70 anos do manifesto da poesia concreta, assinado pelos irmãos Campos e por Décio Pignatari, em 1956. "A Poesia Concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes", apresentam os poetas paulistas no documento.

Dois anos depois, o mesmo trio lançou outro manifesto, o Plano Piloto para a Poesia Concreta. Características como a visualidade do poema e o apelo à comunicação não verbal detalhados. "O poema concreto é um objeto em si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas", escreveram. Nesse contexto, pairavam ideias de desenvolvimentismo que resultaram na nova capital. "A Poesia Concreta é um tipo de modernismo. E Brasília é expressão de um projeto urbanístico ligado a isso", diz Francisco K.

Capital do concretismo

Para Claudio Daniel, é grande a afinidade da arquitetura de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa com a poesia concreta em razão da geometria inquietante e inovadora. "O experimentalismo poético dos irmãos Campos e de Décio Pignatari não foi um fato isolado, mas se insere num quadro cultural mais amplo", comenta. "Brasília foi construída durante o governo de Juscelino Kubitschek, que também impulsionou a industrialização do país e o fortalecimento do regime democrático. Acredito que Haroldo de Campos ficaria feliz em saber que um livro dedicado a ele foi lançado em Brasília", completa.

Os irmãos Campos colaboraram, por exemplo, para a revista brasiliense Bric a Brac, que circulou entre 1986 e 1991. "Nunca me senti isolado em Brasília, pois logo fiz amizade com o Gontijo, o Kac, o Turiba e o pessoal da revista Bric a Brac. Há muitas afinidades e muitas conversas interessantes", disse Augusto de Campos, em entrevista ao Correio, em 2010. 

A poesia concreta em Brasília, segundo a professora e poeta Luciana Barreto, "encampou, dialeticamente, as contradições do propalado Brasil desenvolvimentista, da propagandeada 'capital da esperança e de todos os brasileiros'". Integrante da coletânea, a autora avalia que os poetas de Brasília "ampliaram e singularizaram o rigor formalista concretista primeiro, conjugando referências artísticas diversas a acentos de crítica social e política".

"Acho que essa marca de ter uma forte presença da poesia concreta na cidade acabou não se realizando. Acho que agora é muito importante o papel catalisador e aglutinador do Cláudio Daniel, que conseguiu, por alguma razão especial, reunir várias pessoas de Brasília na coletânea", afirma o poeta Francisco K. "A gente aderiu ao projeto sem se tornar poeta concreto, que eu acho que é uma coisa que há muito tempo não existe mais. Existe o Augusto de Campos, que permanece nessa linha", completa.

O poeta brasiliense Jorge Amâncio reconhece elementos do estilo literário de Haroldo de Campos, como o uso de aliterações e de assonâncias, rimas internas, paronomásias, trocadilhos e metalinguagem, no próprio fazer poético." O que mais me chamou a atenção, no primeiro contato, foi a visualidade e a revolução do fazer poético na sonoridade da poesia concreta", explica Amâncio.

No sábado (16/5), haverá, como continuidade da proposta do livro, um debate acerca da poesia concreta, com Claudio Daniel, Ricardo Araújo, Francisco K e Reginaldo Gontijo, na Digitalina Arte e Cultura, Asa Norte, às 19h. "Acho que é um mote bom para trazer para os poetas, que são produtores de poesia e para os leitores de poesia, que é esse público assim tão fugidio e rarefeito, mas que ainda resiste", diz Francisco K.

Serviço:

Lançamento Constelação Haroldo de Campos, nesta sexta-feira (15/5), às 19h, na Biblioteca Demonstrativa (506/507 Sul). Entrada gratuita.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

 


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JP
postado em 12/05/2026 00:01 / atualizado em 12/05/2026 14:13
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