
Acompanhado do irmão, um homem acaba de completar algumas horas de surfe. Os dois se preparam para deixar a praia quando tem início uma confusão: duas pessoas lutam contra as ondas enquanto se afogam. Sem pensar muito, os irmãos mergulham na água em um movimento de salvamento. Conseguem retirar do mar as duas mulheres. Não recebem por isso nenhum agradecimento nem reconhecimento da multidão, muito menos das duas afogadas. De volta à casa, uma tragédia espera por um deles. A cena é narrada numa descrição vertiginosa e tensa, quase cinematográfica. E o detalhe do não reconhecimento endereçado aos irmãos é fundamental para compreender o personagem ao longo das pouco mais de 400 páginas do romance Caos Calmo, que o italiano Sandro Veronesi lança em Brasília, nesta quarta-feira, com direito a bate papo com os leitores e sessão de autógrafos na Embaixada da Itália.
Caos calmo foi lançado na Itália em 2005, ano em que ganhou o Prêmio Strega, virou filme com Nanni Moretti em 2008, chegou a ser publicado no Brasil pela Rocco e, agora, ganha nova edição da Autêntica. Na sequência, a editora lançará Terras raras, a continuação do romance do italiano que, no ano passado, seduziu os leitores com O Colibri e virou estrela da Flip ao ver o livro sobre o oftalmologista inabalável se tornar sucesso de vendas no Brasil.
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Caos calmo traz a história de Pietro Paladini, um executivo de sucesso que precisa lidar com o luto, mas acaba paralisado. Veronesi conta que, quando começou a escrever o livro, há 25 anos, não estava bem. Foi um período complicado, mas um "pequeno milagre" mudou tudo. "E comecei a escrever todos os dias com um entusiasmo pela escrita, mas também pela vida, que me levou até o fim dessa história que eu tinha em mente havia muito tempo", conta o escritor, em entrevista ao Correio. A cena de abertura, Veronesi explica, é baseada em um fato real e autobiográfico. A ideia original do romance nasceu de uma imagem também real, mas vinda da experiência de um amigo. "Era essa imagem de um homem que passa o dia inteiro na frente da escola da filha. Essa imagem veio de uma conversa que tive com um amigo, sobre outro amigo, que havia perdido a esposa tragicamente e que eu não via há um tempo", conta o autor.
E foi assim que a trajetória de Pietro Paladini tomou forma e ganhou um destino no mundo real muito distante daquele imaginado pelo escritor. Veronesi ficou surpreso quando se deu conta de como os leitores encaravam o personagem. "É uma grande mistificação. Tão grande que percebi, logo depois do enorme sucesso do livro: a maioria dos leitores passou a ver Pietro Paladini como um santo. E eu nunca quis retratar um santo. Ele é um homem que erra. Todos os dias recomeça exatamente no mesmo ponto. E vai se mistificando", explica.
De tão perplexo com a santificação de Paladini, Veronesi escreveu outro livro. Dez anos depois de Caos calmo, publicou Terras raras, que a Autêntica também incorpora no catálogo na sequência. "Escrevi a continuação porque queria dizer aos leitores: 'Obrigado pelo sucesso, mas Pietro Paladini tem um problema'", conta o escritor, que também comentou ao Correio, sobre a relação entre a sociedade contemporânea e a celebração de Paladini como um herói.
Entrevista // Sandro Veronesi
Essa é a história de um sujeito que, após a perda trágica da mulher, passa os dias em frente à escola da filha. Aparentemente, nada acontece, mas, literariamente, muitas coisas acontecem, inclusive a narrativa vertiginosa. Faz parte do seu projeto literário?
Eu não penso conscientemente em fazer isso. Isso é consequência da convenção narrativa que escolhi desde o início. Escolhi narrar em primeira pessoa, no tempo presente. E o presente é essencial, porque, quando falamos no presente, tudo pode acabar a qualquer momento. Se falamos no passado, sabemos que sobrevivemos para contar a história. Então, quando se escreve em primeira pessoa no presente, não se trata de algo que já passou. É algo que está acontecendo. Nesse caso, é natural criar uma conversa com o leitor, oferecer instrumentos para que ele se divirta um pouco. Porque estamos escrevendo coisas que podem ser importantes, mas nem sempre são importantes. Talvez, uma em cada dez, uma em cada vinte. As outras são coisas parecem importantes para o personagem, segundo sua sensibilidade, mas talvez não sejam. Então, é preciso instalar o leitor nessa fantasia, através da convenção, da linguagem, das imagens, de todo um universo que faça essa convenção funcionar. É preciso contar tudo. E, então, é necessário ser acolhedor com a leitura, gentil com o leitor.
Podemos dizer que o luto é um dos temas centrais desse romance?
Não. Não é o tema. Porque Pietro Paladini nem sequer começa a elaborar o luto. Ele fica parado ali. Não quero dar spoiler, mas é a filha quem pede a ele para se mover, porque aquilo não está certo. Ele está fazendo algo errado. Nem começou o trabalho do luto. Está aprisionado por algo muito sedutor, quase magnífico, de certo modo: ele percebe que, paralisado diante da escola, se torna o centro dos outros. Todos o procuram. Não para consolá-lo, mas para buscar força nele. Ele não tem nada a dar. Mas percebe que os outros tiram algo dele. Isso é confortável para ele. Ali, ele não sofre. Todos acreditam que ele sofre deliberadamente. E ele vai repetir todos os dias aquilo que lhe dá satisfação. O luto é outra coisa. E ele nem começou.
Mas, ao mesmo tempo, o livro é uma reflexão sobre o papel social e ritualístico do luto…
Ele não é apenas "o homem que perdeu a mulher". Todos ritualizam a estranheza do seu comportamento dentro da ritualidade normal do luto. Sobre esse tema, fui muito influenciado por um pequeno ensaio de Sigmund Freud chamado Transitoriedade. Tem apenas cinco páginas e é genial. Freud fala da dificuldade humana de se separar dos objetos amados como um mistério. Ele diz: é verdade que isso faz sofrer, mas também é verdade que investimos nesses objetos uma enorme quantidade de energia vital, que ele chama de libido. Quando perdemos esse objeto — seja uma pessoa ou uma coisa — recuperamos essa energia vital e podemos investi-la em outro lugar. Para Freud, o mistério é que os seres humanos não considerem isso naturalmente. Durante séculos, havia toda uma ritualidade do luto: vestir-se de preto, prender o cabelo, permanecer isolado. Se uma mulher não fazia isso, era rejeitada pela comunidade. Para ele, isso é uma forma de opressão. Porque o impulso natural seria recuperar essa força vital e utilizá-la em outros objetos. Esse tema é tão importante para mim que vou publicar uma coletânea de contos e novelas com esse título, e ela começará justamente com o ensaio de Freud. Continuo refletindo sobre o luto. Mas Pietro Paladini está muito distante dessa elaboração.
O que isso diz sobre a sociedade contemporânea? O fato de as pessoas terem transformado esse personagem em santo?
Não sei se, depois da crise da covid-19, isso ainda funcionaria da mesma forma. Algo mudou nesses dois anos, mas ainda não compreendi totalmente o quê. Naquela época, porém, um homem que parava a vida era visto como um herói. "Ele teve coragem de parar", diziam. Mas isso não significa nada. É um slogan publicitário. Muita gente inteligente admirava justamente aqueles que abandonavam o trabalho, os deveres sociais, e iam surfar em Portugal, por exemplo. Havia um mito da sabedoria daquele que não faz nada. Na minha opinião, isso era uma manipulação. Não porque as pessoas precisassem parar — eu compreendo perfeitamente a paralisia — mas porque essa paralisia passou a ser vendida como forma de libertação. E Pietro Paladini foi interpretado assim. Como alguém superior porque parou. Mas não é verdade.

Diversão e Arte
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