
Vitor Araújo, pianista e compositor recifense, levou o sotaque pernambucano para a música erudita internacional. Ao lado da Metropole Orkest, a mais importante orquestra sinfônica permanente dedicada a jazz, pop e world music da Europa, o brasileiro produziu o álbum audiovisual Toró, no Holland Festival em Amsterdã. Com esse feito, Araújo passou a fazer parte de um grupo seleto de artistas que colaborou com a orquestra. É um time que inclui Ella Fitzgerald, Brian Eno, Jacob Collier e o coletivo Snarky Puppy. Toró está disponível no YouTube e nas plataformas digitais.
Com recepção impecável na crítica internacional, Vitor Araújo se posiciona como um dos grandes nomes da música instrumental contemporânea. O pianista conversou com o Correio sobre a criação do projeto, as grandes emoções vividas antes da apresentação e o que deseja com o lançamento de Toró.
Entrevista // Vitor Araújo
Como foi produzir o álbum Toró com a Metropole Orkest?
O Toró foi um acontecimento incrível porque eu fui convidado para ser solista e compositor à frente da Metropole Orkest. É uma das orquestras sinfônicas mais importantes da Europa. Então, para mim, foi incrível e surpreendente. Porque, na carreira de pianista, você fica projetando que uma hora você vai tocar com a orquestra sinfônica da sua cidade, depois, com uma orquestra sinfônica importante do seu país e, eventualmente, de fora do Brasil. Mas o que aconteceu comigo foi o contrário. Minha primeira experiência tocando como solista de orquestra sinfônica já foi na Holanda, com uma das principais orquestras sinfônicas da Europa. Foi um nervosismo enorme, mas, ao mesmo tempo, foi incrível. Eu estava, logicamente, preocupado com as minhas músicas, como que os músicos gringos de formação clássica europeus iam lidar com elas e com os ritmos, que são muito específicos de Pernambuco. Eu levei comigo alguns percussionistas brasileiros para estarem com a orquestra sinfônica. E foi incrível porque a galera ficou superempolgada. Eles ficaram muito felizes de tocar com uma coisa que, para eles, é muito incomum, essa percussividade mais forte e com algumas coisas muito específicas que só existem lá em Pernambuco.
Você já tinha ideia de fazer um projeto audiovisual para acompanhar?
Quando a gente foi vendo o quão bonito estava ficando o projeto, veio essa vontade. Na verdade, uma tevê holandesa ia fazer a transmissão ao vivo e nos pediram permissão. Foi transmitido na tevê porque o Holland Festival é um grande acontecimento em Amsterdã, é um dos maiores festivais de lá. Como ia ter essa transmissão ao vivo, eu e minha equipe começamos a pensar em aproveitar e chamar uma equipe de direção para gravar. A gente fez uma filmagem bem voyeurística, que ficou incrível. Começamos a filmar as entranhas do palco para quem assiste ao Toró ter uma experiência muito diferente de quem assistiu ao vivo. Quem assistiu ao vivo, não tem como chegar naquelas minúcias. A gente posicionou umas câmeras em lugares muito estratégicos, que pegam os detalhes da execução e da performance de cada músico. E eu sou muito apaixonado por cinema, às vezes, acho que vejo mais filmes do que ouço música. Então, sempre que tenho a possibilidade de fazer algo com o cinema, eu gosto de fazer.
O que é mais importante manter das raízes de Pernambuco na sua música?
Eu moro há 13 anos em São Paulo e é engraçado porque as pessoas perguntam quanto tempo estou morando aqui, e a primeira coisa que a maioria fala é que não perdi nada do sotaque. Esse é um comentário muito comum. Eu acho que é um pouco isso na música também. A manutenção do sotaque, musicalmente falando, é muito importante para mim, porque não importa o quão longe você vá tocando. A música, felizmente, me levou a lugares que eu nunca imaginei. Não só o Toró ser gravado na Holanda, mas, ano passado, eu fiz concerto no Japão, nunca imaginei isso. Quanto mais longe a música leva, mais vem uma vontade de uma âncora ou de uma reminiscência forte musical do lugar de onde você veio, é algo que se torna latente. Quanto mais tempo eu passei longe do Brasil ou longe de Recife, mais forte me veio a vontade de musicalmente estar próximo daquilo que foi minha fonte primária, minha matéria-prima criativa. Eu acho que é um pouco essa função que a música pernambucana hoje tem no meu escopo de ideias e no meu escopo criativo. Paradoxalmente, ela é uma âncora que me faz poder voar mais alto.
A imprensa internacional te comparou com Heitor Villa-Lobos quanto à criatividade. Como você recebe esse tipo de comparação e como acha que o legado desses mestres da música instrumental brasileira influencia no seu trabalho atualmente?
Eu estou, logicamente, muito feliz, porque saíram críticas incríveis em todo lugar do mundo. Um dia desses, eu recebi um áudio de uma das músicas tocando numa rádio da República Tcheca. Eu fico lisonjeado, não fico envaidecido, porque é muito difícil para mim ficar envaidecido. Eu sempre recebo os elogios mais com timidez do que com qualquer outra coisa, mas estou muito feliz porque saíram matérias enormes nas maiores revistas da Inglaterra, da Itália, todas muito elogiosas ao disco. Sem dúvida, a minha reverência sempre é a esses grandes mestres da música instrumental brasileira, porque eu acho que eles fizeram uma coisa que é meio fundadora da arte e da cultura brasileira, que é a revolução de tecnologias criativas que são importadas. A gente não criou o piano, nem os instrumentos de corda de uma orquestra, os instrumentos de sopro ou os metais. No entanto, a gente os transformou em frevo. A gente não criou o violão de nylon, no entanto, transformou ele em samba e bossa nova. A gente não criou as câmeras de filmagem, mas as transformou em Cinema Novo. Eu acho que o poder que o artista brasileiro tem de transformar em brasileiro essas tecnologias inventivas é muito forte, portanto, sempre reverencio essa galera que transformou tudo em Brasil. Falo de Tia Amélia, de Chiquinha Gonzaga, de Heitor Villa-Lobos, que com certeza foi uma das pessoas que eu mais estudei na vida, sem falar em Naná Vasconcelos. O Naná Vasconcelos colocou um berimbau para ser instrumento solista de orquestra sinfônica. Isso é revolucionário. Essas grandes mentes brasileiras todas pavimentaram um caminho muito forte a ser seguido pelas pessoas que fazem música instrumental hoje no Brasil. E são várias que fazem com muita maestria e excelência. Sem dúvida, estou sempre tentando honrar o passo desses grandes artistas e dessas grandes artistas.
Você teve uma infecção no dedo na noite anterior da performance e precisou tocar com nove dedos. O que passou na sua cabeça nesse momento?
Isso foi bizarro. Na hora que estava acontecendo foi só o desespero, eu não consegui ter a ideia de que isso seria uma história engraçada para contar depois. Eu estava muito desesperado. O meu dedo anelar da mão direita começou a inchar na madrugada anterior ao concerto. E a gente tinha levado uma equipe grande que saiu do Brasil, além dos percussionistas que me acompanharam, veio uma equipe técnica junto comigo. E tinha uma orquestra sinfônica bizarra que já tocou com Ella Fitzgerald, com Brian Eno, com Jaco Pastorius, me esperando. Eu passei a madrugada olhando meu dedo ficar cada vez maior, e era uma dor que não dava para tocar no dedo. Eu passei o dia do concerto chorando, tinha pausas para chorar um pouco e tentar continuar com o meu dia. Fui ao hospital e não tinha solução para o dedo. Eles queriam cancelar o concerto. O festival ligou para uma junta de médicos e um deles disse que, pela velocidade da infecção, eles identificaram como uma infecção bacteriana que estava só no músculo e na carne, mas se ela chegasse ao osso, eu tinha risco de amputação de parte do dedo. Fiquei desesperado e não ia cancelar de jeito nenhum. Fiquei estudando as músicas no piano para tocar com nove dedos. Passei a tarde toda no piano redigitando todas elas e treinando exaustivamente para poder tocar com nove dedos em vez de 10. E fiz o concerto com nove dedos, cheio de analgésicos. Fiz o concerto meio dopado. Todo mundo que aparecia no camarim me dava um analgésico diferente. É um pouco história de time que ganha com um a menos, tipo o Botafogo quando foi campeão com um jogador a menos.
Agora com o trabalho disponível no YouTube para o mundo inteiro, qual é a sensação e o que você espera passar com o Toró?
Eu tenho dificuldade de saber qual tipo de sensação eu quero e imagino que as pessoas vão ter, mas se tem uma coisa que eu realmente defendo, de certa forma estético-politicamente com esse trabalho, é que ele joga na contramão da maioria das tendências atuais de pouca atenção, de pouca concentração, de músicas rápidas, neutras ou genéricas. Eu tenho uma posição estético-política com esse álbum, que precisa da sua atenção, que precisa que o ouvinte esteja junto com o artista ouvindo aquilo. As músicas têm em torno de 10 minutos, mas com arcos longos de raciocínio. Eu acho que, ao mesmo tempo que existe uma proliferação muito grande de uma tentativa de pegar você pelo rápido, pelo fácil, existe, na verdade, uma sede contrária das pessoas de querer ouvir os músicos tocando. Não querer ouvir só sons feitos de maneira genérica, mas querer ouvir aquele músico tocando, tirar um tempo para ouvir uma música, e não ser uma música que você ouve de passagem ou na correria. É uma maneira mais ritualística de você lidar com o material musical.

Diversão e Arte
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