Cinema

Inspirado no caso Ana Lìdia, filme Cerrado seco revive a história do crime

Inspirado no caso Ana Lídia, o filme Cerrado seco conta a história do assassinato de uma criança no qual o acobertamento resultou em impunidade por mais de três décadas

Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia -  (crédito: Isabele Luise)
Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia - (crédito: Isabele Luise)

Para quem era criança em Brasília nos anos 1970, o caso Ana Lídia pairava como um fantasma no cotidiano. Em setembro de 1973, a menina de 7 anos foi levada da porta da escola, estuprada e assassinada em uma sequência brutal de eventos que abalaram a cidade. Inaugurada 13 anos antes, a capital deixou de ostentar o mito de reduto pacato e seguro para chocar o país com um crime macabro. "Todo mundo que nasce aqui, pelo menos até minha geração, conhece essa história. É uma mistura de lenda urbana com mistério, com cold case, com fofocas. E é uma história que ninguém contou no cinema", diz o diretor Bruno Caldas, que decidiu transformar o caso em um roteiro de cinema e acaba de encerrar as filmagens em Brasília. 

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Ainda em fase de produção, Cerrado seco é um filme de ficção inspirado no caso Ana Lídia. Não é uma adaptação direta, nem um documentário, embora traga à tona todos os contornos que fizeram do crime um imbróglio envolvendo a ditadura militar, filhos de políticos famosos e a elite brasiliense. "É uma história que tem relevância para o Brasil e para a época, formou a identidade de Brasília", explica o diretor. Ele até tentou fazer uma adaptação do caso para o cinema, mas se deu conta da complexidade e escolheu outra estrutura. "É muito difícil contar essa história. É muito  macabra, é a morte de uma criança,  e, quando comecei a trabalhar no formato, identifiquei que um drama sobre um crime sem punição era um caminho mais seguro, que conseguiria atingir o público e não decepcionar", diz. 

O crime do assassinto de Ana Lídia nunca teve um desenvolvimento conclusivo. As investigações foram atropeladas por uma série de erros e interferências, a censura militar foi imposta ao caso e os suspeitos presos acabaram soltos. Entre eles estava o irmão da vítima, que havia sido visto levando a menina da escola. Foi exatamente ele que Caldas escolheu como maior personagem do filme, no qual Ana Lídia virou Lidiana, e o irmão é vivido em dois tempos por João e Rafael Vitti. "A partir disso, comecei a criar um novo universo para ter uma liberdade criativa frente aos fatos e ao mistério que ainda existe", conta Caldas.

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Dois tempos

Em cena, pai e filho vivem um único personagem. A história se passa em 1973 e nos dias atuais. No papel de irmão de Lidiana, Rafael Vitti atua na primeira fase e o pai, João, na segunda. "O filme busca abordar essa história de forma mais contundente", explica João Vitti. "O desfecho da nossa história é diferente do desfecho que nunca teve na história real, que foi silenciado, e o filme entra um pouco nesse sistema no qual quem detém o poder e influência consegue silenciar a realização da justiça."

O Centro-Oeste tem presença marcante em boa parte das cenas de Cerrado seco. Se os dois protagonistas são de fora, uma quantidade de peso no elenco tem raízes fincadas no teatro e no cinema produzidos no Distrito Federal. Adriano Siri, da Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo, e Rosanna Viegas, da Agremiação Teatral Amacaca (ATA), fazem os pais de Lidiana na primeira fase do longa, e Márcia Duarte Madu, também do ATA, vive a mãe na segunda fase. Tuanny Araújo vive uma delegada que investiga o caso décadas mais tarde.

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Siri conta que veio morar em Brasília em 1980, aos 11 anos. O crime havia ocorrido sete anos antes, mas ainda aparecia com frequência nas conversas. "Era uma história que eventualmente vinha. Infelizmente, virou um fantasma, uma história sem solução e tristíssima. Isso fez parte da minha adolescência. Talvez, seja a mais triste das histórias de Brasília, que era ainda uma cidade muito jovem", lembra o comediante. "As pessoas ficam falando que talvez o filme traga à tona os verdadeiros culpados, eu não acredito, é uma ficção, mas acho que o filme tem que deixar vivo que histórias tristes acontecem, que os culpados não são encontrados e que a gente tem que ser mais cuidadoso com todos e com tudo."

Márcia Duarte Madu tinha 13 anos quando Ana Lídia foi assassinada. Filha de um servidor público, a atriz morava na 316 Sul e se lembra de ter ficado tão impressionada com o crime que resolveu testar o que aconteceria caso se sentisse em perigo e gritasse naquela Brasília ainda pouco habitada e cheia de espaços vazios. "Na minha ingenuidade e inocência, resolvi ir para a entrada da quadra, certo dia, e fazer uma experiência para saber se eu estaria segura se pedisse socorro a alguém", conta. "E eu gritei, gritei, gritei na entrada da quadra e, lógico, ninguém ouviu. A sensação de distância era muito maior. Havia menos movimento, quase não passava carro. A comercial era pouco ocupada, com poucos serviços e pouco comércio. Tudo era muito menos habitado."

A lembrança muito vívida da tensão gerada pelo crime instigou Márcia quando recebeu o convite para integrar o elenco de Cerrado seco. "Eu interpreto a Dolores, mãe da Lidiana, 30 anos depois. É uma mulher mais velha, machucada pelo tempo e pelo trauma, pelas dores, adoecida e com fragilidades", conta. A atriz também aponta como a impunidade é um dos temas centrais de Cerrado seco. "O que está em foco é um sistema corrupto de proteção de poderes políticos e econômicos envolvendo, inclusive, a criminalidade em relação ao tráfico de drogas. O que se está denunciando é uma elite política social que, na verdade, era completamente deteriorada nos seus comportamentos, justamente porque era protegida e não tinha limites. Jovens sem limites, totalmente protegidos num sistema ditatorial em que eles podiam fazer o que eles quisessem", diz, já que o filme trata, também, do envolvimento no assassinato dos filhos de uma elite que nunca chegam a se tornar sequer suspeitos, muito menos réus em um julgamento. "É essa situação que está sendo sublinhada no filme. E eu acho que é esse o maior valor dele, porque foi uma época significativa na história do Brasil, em que a ditadura reprimiu e acobertou os protegidos e os poderosos", garante a atriz.

 


  • João e Rafael no filme Cerrado seco, inspirado no caso Ana Lídia
    João e Rafael no filme Cerrado seco, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Isabele Luise
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
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    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
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    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
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  • Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia
    Filme Cerrado seco, de Bruno Caldas, inspirado no caso Ana Lídia Foto: Luisa Sales
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postado em 31/05/2026 06:00
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