
Nascida em Brasília, mas criada em São Paulo, Bia Borinn há 25 anos carrega uma carreira que, agora, ganha contornos de missão pessoal e política: contar, a partir de um olhar latino-americano, as histórias de duas mulheres que, cada uma a seu modo, foram engolidas pelo sistema que as consagrou.
Em maio, Bia subiu ao palco de Los Angeles com o monólogo Marilyn Times, com texto de Sergio Roveri e direção da brasileira-mexicana Chica Barbosa. A peça, que integra a mostra de solos Made in Brazil, não pretende apenas replicar o estereótipo da loira fatal. Pelo contrário: a atriz encarna três vozes distintas — Norma Jeane, Marilyn Monroe e ela mesma, Bia — para investigar o que significa criar, sobreviver e ser vista longe de casa. "Marilyn deixa de ser apenas um símbolo passivo da cultura de celebridade e passa a surgir como uma figura em constante tentativa de fuga desse próprio sistema", explica a artista.
No mesmo mês, Bia assumiu outro ícone em uma residência artística inédita no restaurante Casa Ipanema, dentro do lendário Biltmore Hotel. Em Carmen Miranda: The queen of samba, espetáculo em formato de Teatro de Revista que já rodou o Brasil por mais de cinco anos e arrematou vários prêmios, a atriz narra a trajetória da artista desde sua chegada ao país ainda bebê até a meteórica ascensão em Hollywood. Com 22 números musicais, o projeto ainda inédito para o público americano ganhou nova vida em Los Angeles — cidade onde Carmen colocou as mãos na Calçada da Fama como a primeira artista latina a fazê-lo.
O fascínio por dois polos
O que une Marilyn e Carmen, afinal? A resposta está na própria trajetória de Bia Borinn, que desde que se mudou para os Estados Unidos, em 2017, após uma passagem por Nova York a partir de 2014, carrega consigo essa inquietação. "Elas são o maior mito feminino americano e a brasileira mais icônica que faleceram no mesmo dia com sete anos de diferença, mas com muitas similaridades", conta. "Ambas eram bem-sucedidas, lindas, talentosas, símbolos sexuais, e foram engolidas e destroçadas por Hollywood e pelo vazio dos sonhos não vividos. Ambas abortaram e não conseguiram ter filhos, fizeram cirurgias plásticas e tomavam muitos remédios", completa.
Essa dupla encenação, que a princípio poderia soar como um golpe de marketing, revela-se um ato de rigor artístico e de reposicionamento histórico. Em Marilyn Times, o que está em jogo é a releitura do mito por artistas latino-americanos que estão fora do sistema de poder que originalmente o produziu. Já Carmen Miranda, para Bia, merece ser resgatada para além do "chapéu de frutas". "Muitas vezes, a referência que eles têm da Carmen é algo superficial — 'a mulher do tutti-frutti hat?' — ou até dúvidas básicas como 'ela era brasileira?' Quando eu conto que ela foi a mulher mais bem paga dos Estados Unidos em 1945, a reação geralmente é de surpresa total, quase incredulidade", lamenta.
Latina e candanga
Nascida na capital federal, Bia mantém com a cidade uma relação afetiva e simbólica. "Ter nascido em Brasília tem um significado especial porque, apesar de não ter crescido lá, faz parte de um imaginário do que eram os meus pais naquela época", diz. "Meus filhos sempre falam: 'A mamãe nasceu na capital do Brasil'". Ela já atuou no CCBB e trabalhou como apresentadora na cidade, que visita sempre que pode.
Mas foi em Los Angeles que sua carreira no audiovisual americano decolou. Bia integrou o elenco de Tudo é justo (Disney+), série dirigida por Ryan Murphy, ao lado de Naomi Watts e Kim Kardashian, e também participou de I love LA (HBO Max).
Ainda assim, viver nos Estados Unidos em 2026, sob uma política anti-imigração cada vez mais agressiva, não é tarefa fácil. "A constituição americana está sendo rasgada diariamente", afirma Bia, que integra o Comitê da Primeira Emenda, liderado por Jane Fonda, e o coletivo Latinas Acting Up, fundado por Lisa Vidal e Diana Maria Riva. "Ainda em 2026, ou você é muito 'latina' ou 'pouco' latina. Porque quem escreve e produz em maioria ainda são homens, e usam a diversidade como 'cota' só porque fica feio não ter."
Mesmo com a agenda lotada e a carreira consolidada nos EUA, a atriz não esconde o desejo de voltar ao Brasil: "Sempre! Apenas esperando aquele convite irresistível (risos)".

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte