Entrevista

Trama de autoficção conduz novo filme de Pedro Almodóvar, 'Natal amargo'

Em entrevista exclusiva, Leonardo Sbaraglia, ator de Natal amargo, de Pedro Almodóvar, fala sobre o filme que estreia na próxima semana

Qualquer cena de Natal amargo, prestes a estrear, vem credenciada pelo tempero do cineasta Pedro Almodóvar, competidor no último Festival de Cannes. Seja na dúvida do galã Bonifácio (Patrick Criado) em aparecer ereto (ou não) num comercial de cuecas, seja nas imprevistas reações de personagens que se sentem explorados ou, ainda, nas piadas em cima de temas sérios como a ansiedade.

Leia também: Ecos Ancestrais promove ciclo de oficinas gratuitas sobre maracatu

A embriaguez do público de Almodóvar deriva, ainda, do contato com personagens que levam a sério o ditado do "In vino veritas" (no [consumo de] vinho está a verdade"), e eles bebem. Enquanto, no filme, o mais famoso cineasta espanhol destaca dados da ascensão e queda vocal da célebre cantora Chavela Vargas; a intensidade dele, como criador, fala bem alto, na trama bifurcada que acompanha os destinos dos cineastas Raúl (Leonardo Sbaraglia, confira entrevista exclusiva) e Elsa (Bárbara Lennie), separados por duas décadas.

Em Labirinto de paixões (1982), a fotofobia era explorada, com efeitos do sol numa protagonista; agora, é a vez dos trovões atormentarem Elsa, às vias de um ataque de pânico. O processo, o entusiasmo e o desgosto de criadores com seus personagens atravessam a trama. A narrativa, entretanto, abraça, ainda, as reações e reclames dos fantoches de ambos cineastas da trama. São pessoas cujas vidas são apropriadas por eles. A narração do filme contempla traições, personagens subestimados, libertação social e tipos em período de luto.

Leia também: Yoshi and the Mysterious Book convida jogador a desacelerar e aprender

Em termos gráficos, junto dos elaborados figurinos e da cenografia, Natal amargo faz uso de elementos naturais, como cactos e dos zocos (pedras vulcânicas presentes no lindo cenário da ilha de Lanzarote) que protegem videiras. A beleza plástica traz harmonia para o enredo em que, assumidamente, Almodóvar adentrou o campo da autoficção. Entre mulheres emotivas, e maracutaias dos bastidores que examinam a construção de personagens, a partir da vida real, Almodóvar trata de ética e de ressentimentos, num filme que reproduz a voz murmurante dos anos em que esteve mais vívido no tratamento de temas sexuais.

 

Entrevista // Leonardo Sbaraglia, ator

Uma janela, não faz muito tempo, te causou uma amnésia momentânea na vida doméstica, não foi? O filme de Almodóvar estrelado por você trata de autoficção e é uma produção justamente iniciada pela imagem de uma janela criada pelo artista plástico Asher Liftin. Como o cineasta Raúl, interpretado por você, vê o mundo por esta janela?

Bem, essa é uma ótima pergunta. Antes de tudo, é um filme que fala sobre autoficção. Essa foi a primeira coisa que Pedro Almodóvar me disse: 'Isso é autoficção'. 'Sou um grande admirador, disse-me, 'de Emmanuel Carrère, que trabalha muito, pesquisa bastante e se dedica muito ao tema da auto-ficção', e completou: 'Tenho trabalhado nisso em vários filmes e me interessa muito, e não quero que seu personagem invista em um retrato amigável'. 'Eu não quero um retrato lisonjeiro do meu personagem' — ou seja, do Raúl.

Qual era o caminho?

Ele fica em frente ao espelho e, evidentemente, precisa refletir sobre aquele diretor, sobre os relacionamentos que ele tem, sobre até que ponto se pode usar a vida dos outros, ou utilizar a vida dos outros, para produzir uma obra de arte. O que é mais importante, no todo? Valem as emoções da vida (real) ou o que se pode ser criado: uma obra de arte que pode sensibilizar milhões de pessoas? Nesse sentido, acho que o filme reflete sobre todas essas questões, e, bem, a janela (da pergunta) é aquela através da qual Raúl olha e tenta perceber a vida dos outros. É como se ele se inspirasse na vida de outras pessoas para criar sua arte, seu universo. Mas, ao mesmo tempo, notamos como é vasto e magnífico o universo que ele constrói.

Como ele tem feito a diferença?

Pedro Almodóvar conseguiu dar voz a tantas pessoas que não a tinham. De verdade. Então, ele conseguiu colocar tantas pessoas que não eram vistas nesta chamada janela. Almodóvar já me disse: 'Muitas pessoas me agradeceram, me dizem: "Graças aos seus filmes, conseguem encontrar coragem para falar com meu pai, para encontrar coragem para falar com minha mãe, para encontrar coragem para sair do armário'. As mulheres (representadas no cinema dele) conseguiram alcançar o feito X ou Y. Ele trouxe para seu trabalho, para seus filmes, para personagens que, de repente, conseguiram ter corpo e alma. Ele conseguiu  criar uma espécie de representação visual para uma enxurrada de pessoas que não tinham voz, nem voto. Isso me parece algo enriquecedor. De repente, Almodóvar trouxe universos, cores, dores, razões e situações que não tinham visibilidade. E é por isso que o mundo dele conquistou tanta proeminência.

Qual o significado de prêmios para você, agora que passou pelo Festival de Cannes, esteve nos prêmios Platino (com uma série sobre o ex-presidente argentino Carlos Menem)? É possível se falar de uma indústria cinematográfica hispano-americana, ainda que haja consumo moderado desse tipo de audiovisual?

Quem dera exista, por fim, a tal indústria hispano-americana. Acho que temos que continuar contribuindo para isso, continuar empreendendo apoio. É importante a existência de prêmios do segmento, a exemplo dos prêmios Platino, os Fênix (prêmios extintos em 2018). Nisso, deveríamos estar ainda mais unidos na América Latina, mas não sei se existe algum setor das artes que possa ser considerado tão unificado. Tomara que isso seja formatado. Os prêmios são importantes justamente para tornar certas coisas visíveis. Prêmios são importantes como parte política, como braço político e de propaganda. A cinematografia dos países encerra bem valioso — devemos com isso ajudar, impulsionar. Entretanto é muito difícil para a indústria dar conta de assistir a tudo o que tem sido feito. É um problema. Eu mesmo trabalho como membro do Prêmio Platino. Eu me inseri nas academias espanholas, na argentina no grupo dos prêmios Platino: é muito difícil conseguir ver tudo o que está sendo feito. Em geral, só se vê o que teve maior alcance, o que foi mais massivo, e isso é uma espécie de contradição interna (das premiações) que precisa ser resolvida.

 


Mais Lidas