
Revisitando antigos álbuns de fotos da Escola de Música de Brasília, Hamilton de Holanda declara: "Isso conta a minha história". Carioca de nascença, o bandolinista morou na capital federal dos 11 meses até os 25 anos de idade e afirma que, tudo que sabe hoje aprendeu na instituição onde era o aluno de matrícula 769/83, como ainda lembra. Detentor de 16 indicações ao Grammy Latino e uma ao Grammy Awards, o músico celebra outra grande honraria neste mês — convidado especial de Wynton Marsalis e da Jazz at Lincoln Center Orchestra, ele se apresenta, nos dias 12 e 13, no templo máximo do jazz.
Na Rose Theater, principal sala do Jazz at Lincoln Center, em Nova York, o repertório principal das duas noites será dedicado à música de Hamilton e a de Moacir Santos. "Tenho tocado meu bandolim para chegar lá afiado, porque os caras são muito bons", ri o carioca radicado brasiliense. Marsalis é considerado um dos maiores músicos vivos do planeta e uma espécie de embaixador mundial do jazz — ele foi o primeiro artista do gênero a ganhar um Pulitzer de música.
Para Hamilton, o convite por si só é "um belo troféu". "É a minha Copa do Mundo", brinca o músico, que, inclusive, se apresenta no dia da estreia da Seleção Brasileira no campeonato. "Quando fiquei sabendo das apresentações, uma das primeiras coisas que me veio à cabeça foi Brasília, a cidade em que eu cresci. Eu me lembrei da minha casa na 103 Sul, onde eu comecei a aprender o choro com os LP's do meu pai", conta o instrumentista, que tem duas turnês marcadas nos Estados Unidos para o ano que vem.
"A música brasileira é muito querida fora do Brasil", afirma o bandolinista. "Então, de alguma maneira, é fácil chegar nos países dizendo que você é um músico daqui, porque grandes artistas e compositores pavimentaram essa estrada", pondera Hamilton. "Mas, se tem uma parada que eu acho que conquista o povo estrangeiro de verdade, é o ritmo que conseguimos criar e desenvolver. Ele é objeto de estudo no mundo inteiro. E, para mim, que toco bandolim e venho do choro, é muito bom, porque sempre tem alguém querendo aprender", comemora o instrumentista.
Parcerias
Na troca musical, Hamilton é tanto professor, como aluno. O resultado dos intercâmbios culturais do brasiliense pode ser encontrado no Nova, álbum recém-lançado que reúne parceiros de diferentes partes do mundo. Anoushka Shankar, compositora britânica-indiana, Ibrahim Maalouf, músico libanês, e Pedrito Martinez, percussionista cubano, são alguns dos nomes que fazem parte do projeto.
"Enquanto eu vivo, estou sempre captando ideias e aprendendo coisas sobre as pessoas ou os lugares que eu vou. Eu me surpreendo com as músicas que eu ouço também. Como eu vou muito a festivais fora do Brasil, eu vejo shows de artistas de vários lugares e também vivo a coisa dos perrengues da estrada. Isso, por si só, é um material maravilhoso para me inspirar a compor", destaca o bandolinista.
No âmbito nacional, a parceria que mais se destaca é a com Paulinho da Costa, primeiro brasileiro a ser homenageado com estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, Estados Unidos. "Tê-lo no Nova é uma honra enorme. Ele carrega o Brasil no som, no ritmo e na alma, e sua presença no dia da gravação foi emocionante. Ele é história viva da música brasileira no mundo — e vê-lo se tornar o primeiro artista nascido no Brasil a receber essa honraria só confirma a grandeza desse mestre", declara o instrumentista.
Outra participação que chama atenção é a do filho Gabriel de Holanda, 18 anos, que segue os passos do pai. Em Por essa eu não esperava, a dupla mistura piseiro, brega e referências harmônicas que remetem a Chico Buarque e Astor Piazzolla. "Essa música nasceu na nossa casa", narra o bandolinista. "E, quando fomos ver o resultado, percebemos que estava uma mistura danada. Tinha um pouco de brega, de piseiro e até de bachata", lista Hamilton.
"E eu acho que a música brasileira é isso, ela é muito rica. Eu ainda não sei nem a metade. O Brasil é um país miscigenado. A gente tem o samba, maracatu, choro, frevo e muitos outros estilos, mas tem também algo que está por vir. Quero aprender mais e conhecer mais, porque assim eu também consigo fazer algo que seja atual, um retrato do momento que eu vivo", aponta o instrumentista. "Eu não esperava essa mistura, mas eu sempre estou aberto para conhecer novidades e compor algo nesse sentido", assegura. No projeto, Gabriel também faz parte das faixas Frio lá fora e Carrossel.
Panorama de sonoridades
Parcialmente gravado em diferentes capitais do mundo, incluindo Brasília, o álbum é descrito por Hamilton como "exatamente o que imaginava". "As primeiras músicas, nós gravamos como trio, como se estivéssemos fazendo um show dentro do estúdio", conta o artista que, mais uma vez, conta com a participação dos fiéis escudeiros Salomão Soares (teclados e Moog) e Thiago Big Rabello (bateria).
Parceiros musicais há três anos, eles lançaram, em 2025, um disco ao vivo gravado no Dizzy's Club, em Nova York. "Mesmo no estúdio, a gente tem a possibilidade de inventar na hora. Várias faixas do álbum, eu me lembro do momento exato em que eu gravei, porque foi aquilo que foi captado. Faz parte do meu trabalho estar conectado com o que está acontecendo no momento e conseguir fazer a música a partir disso", explica Hamilton. "Então, a improvisação e a espontaneidade sempre vão estar na minha música", acrescenta o bandolinista.
No disco, o artista resgata composições do início da carreira, como é o caso de Pras crianças, de 1999. "Eu estou com 50 anos e tenho muitas músicas. Na pandemia, eu compus uma por dia. Foram 366 no total. Antes, eu já tinha mais um bocado e não parei de compor depois disso. Ou seja, eu tenho vontade de mostrar as novidades, mas, ao mesmo tempo, quero tocar as que eu já fiz. Não posso esquecê-las", defende o instrumentista.
"Esse disco é um panorama, uma paleta de sentimentos e sonoridades", avalia o artista. "Se você pegar cada uma das faixas, a não ser as duas primeiras, nenhuma tem a ver com a outra. A única coisa em comum é que eu mesmo fiz, mas, fora isso, são músicas com características muito diferentes", descreve. "E, para mim, é um sonho fazer isso, porque quando eu ouvia os discos da Elis Regina, e via que tinha rock, samba e balada, eu sempre pensei que pudesse fazer isso no bandolim, expressar os meus sentimentos por meio de estilos diferentes", continua.
Para Hamilton, o trabalho é, no fim das contas, "um grande prazer". "Eu agradeço todo dia por poder, com o bandolim e com meus parceiros, levar a cultura do Brasil para o mundo inteiro. A gente se vê lá em Nova York!", finaliza o instrumentista.
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