
Em tempos de discussão sobre a escala de trabalho 6x1 e de tantas desavenças em razão desse e de outros temas que levantam defesas acaloradas, a reapresentação de Os Saltimbancos, na versão concebida pelo diretor Hugo Rodas, é um alento. Mestre do teatro, o mais cadango dos uruguaios, como se autointitulava, fundador da Agrupação Teatral Amacaca, conseguiu levar ao palco uma trupe multilinguagem que toca, dança, atua e faz piruetas, além de manter vivo o legado do criador, que nos deixou em 2022.
O espetáculo fez parte das comemorações do aniversário de Rodas. No dia do aniversário do diretor uruguaio radicado em Brasília, 27 de maio, o Cine Brasília exibiu o documentário Rodas de Gigante, dirigido por Catarina Accioly, que mostra os últimos quatro anos da vida do encenador, de 2018 a 2022. A exibição foi uma iniciativa da Embaixada do Uruguai. Ao todo, Rodas participou de 87 festivais e recebeu mais de 29 prêmios.
Já a apresentação de Os Saltimbancos no Centro de Convenções Ulysses Guimarães em 30 de maio foi um esforço do teatro independente da Agrupação Amacaca, para honrar seu fundador com uma das releituras de maior sucesso de seu repertório que, por sua vez, rende homenagem a uma das obras mais célebres do teatro e da música nacional, de Chico Buarque.
Em entrevista a Nahima Maciel e Severino Francisco no Podcast do Correio, a atriz e produtora do espetáculo, Dani Neri, confirma que Rodas promoveu uma verdadeira revolução no teatro brasiliense: o teatro físico, o movimento e a interconexão de linguagens como música, corpo e texto como elementos centrais.
Dani mostrou toda essa força do teatro conectado em diversas dimensões no solo de História de uma gata. Acompanhada da plateia, em coro, deixou extravasar toda a energia que só a experiência de anos no palco permite transparecer com leveza e, ao mesmo tempo, segurança inigualável. E gentileza, doses cavalares de gentileza.
Dani atendeu um por um os espectadores que faziam fila ao fim da peça para abraçá-la e tirar fotos, muitos deles crianças que já haviam sido convidadas a participar do espetáculo jogando bolinhas de plástico e subindo ao palco para dançar e cantar. Um dos sonhos da agrupação é ter apoio e investimento para tornar a peça presente em todas as escolas públicas de Brasília.
Os Saltimbancos é uma ode à amizade, à união, ao respeito às diferenças, e uma peça de resistência para tempos de intolerância, quando os mais fracos, invariavelmente, são sempre os que mais sofrem. Juntos ali aqueles animais perceberam como foram preteridos das mais variadas formas e que só unidos vencerão — sem nenhum trocadilho com aquele arroz que passa do ponto. Afinal, "nós, gatos, já nascemos pobres, porém, já nascemos livres!"

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte