
Ao escolher retrato quando criança para estampar a capa de O canto de casa Vol. 1, Ellen Oléria remete ao passado, mas não se restringe a isso. O álbum que marca os 25 anos de trajetória da cantora brasiliense se conecta com os tempos atuais a partir de texturas sonoras recheadas por parceiros como Rincon Sapiência, Bia Ferreira e Jef Rodriguez. Disponível nas plataformas digitais, o trabalho é a primeira parte de projeto que se completa ainda neste ano.
O mergulho de volta às origens se mostra no ritmo dançante que domina O canto de casa, assim como Oléria exibia, no início da carreira, ao tocar na noite. “Apesar de ter essa energia de recomeço, o modo como olho para o que estou produzindo agora é muito distinto. Acho que um dos marcos desse trabalho é a compreensão de como as minhas parcerias interferem na minha sonoridade.”
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Para Oléria, este momento pode ser definido como a consolidação da identidade musical afro-brasileira, a partir de novas experimentações. “Uma das cores que eu acabei trazendo para o meu som foi o rap, com o qual sempre estive conectada. Rincón traz esse flow muito característico dele, do modo como ele desenha as suas métricas.” O primeiro contato entre Oléria e Sapiência ocorreu nas gravações do Afro Fluxo, programa musical a respeito da música preta brasileira. “Foi um feliz encontro”, diz a cantora.
Outra característica do álbum é a participação brasiliense. A faixa Pinga tinta foi composta por Thiago Garça, Alessandro Lustosa e Ana Flávia, trio de pedras preciosas nossas da região, segundo Oléria. Evoluindo, outra canção do disco, que Oléria escutou num samba, no Conic, é de Chico Marola e Leandro Santana. “Acho que me instrumentalizar também na potência criativa desses artistas do DF me fortaleceu muito”, afirma Oléria.
Hoje, a cantora mora em São Paulo, onde gravou o disco, de maneira independente. Apesar da mudança, Brasília ainda é lugar de conforto e reconexão. “Tenho uma perna minha que não sai daí. Brasília segue sendo o meu porto seguro. Não só pelos amores, minha família, meus amigos, mas também pela natureza, o céu, o cerrado, as cachoeiras.”
Um fator que explica o novo endereço está relacionado ao mercado da música. Depois de vencer o The voice, programa da TV Globo, Ellen Oléria lançou, em 2013, disco que a levou a palcos internacionais. A pandemia, no entanto, exigiu adaptações. “Não foi fácil se reconectar com a cena. Eu acho que o mercado é muito duro.” A maneira encontrada, diz Oléria, foi fortalecer os princípios estéticos. “O pensamento original é a gente fazer arte, e não puramente entretenimento.”
“A gente vive da música, paga os boletos com ela. Mas entendo que existe uma marca muito maior e muito mais incisiva, que é a necessidade de criar. E isso é anterior aos ditames do mercado. Acho que a gente segue com a potência de falar com a nossa gente, a respeito do nosso tempo”, enfatiza Oléria.
Pesam, nessa equação, as dinâmicas digitais. A cada dia, são lançadas em média 110 mil músicas em plataformas de streaming, como a cantora cita, o que leva a uma saturação de conteúdo. “Nosso interesse não é ser conteudista, é compartilhar arte, um modo de olhar para a vida.” Dividir o disco em dois volumes é uma maneira de incentivar a apreciação desapressada.
Diante das adversidades, a cantora espera que a menina da capa, guardada em lugar especial, mantenha orgulho do que construíram. “Tenho muita gratidão pela andança que eu tenho feito, pelas conexões que eu tenho estabelecido neste caminho. A gente faz esse trampo com tanto amor, com tanta dedicação. É muito suor.”
*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco
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