
Se no papel o soft power coreano se apresenta comoestratégia de Estado, nas ruas de Busan ele se materializa.
Em junho de 2026, a celebração dos 13 anos do BTS transforma a cidade em um laboratório vivo da influência cultural sul-coreana. Conecta públicos dentro e fora do país em uma experiência simultaneamente local e global.
A chamada “BTS FESTA” é realizada anualmente para marcar o debut do grupo, em 13 de junho de 2013. Nesta edição, ganha uma dimensão ampliada.
Durante quase duas semanas, o país se mobiliza em torno de um calendário que combina lançamentos, conteúdos digitais e experiências presenciais. O ápice acontece em Busan, onde o grupo realiza dois shows no estádio Asiad Main Stadium. Todos os ingressos estão esgotados.
Mais do que apresentações musicais, os concertos simbolizam um momento histórico.
Foi em Busan que o BTS realizou um de seus últimos grandes shows antes da pausa de quase quatro anos provocada pelo cumprimento do serviço militar obrigatório. Agora, na mesma cidade, o grupo retorna com sua formação completa. Transforma o aniversário em reencontro global. O palco deixa de ser apenas espaço de celebração e passa a representar continuidade.
Antes mesmo de chegar ao estádio, o fenômeno já se revela na entrada do país.
O governo sul-coreano ativou um esquema especial de imigração paralidar com o fluxo internacional associado ao evento. Houve reforço de equipes e monitoramento constante nos principais aeroportos. No aeroporto internacional de Gimhae, em Busan, a recepção foi integrada à experiência: visitantes são acolhidos com guias multilíngues, informações culturais e kits de boas-vindas. Um sinal de que, ali, o evento começa antes do show.
Nas ruas, essa mobilização se expande.
Iluminação roxa em pontos turísticos, telões espalhados pela cidade, instalações temáticas e espaços interativos transformam Busan em extensão narrativa do grupo. A cidade se reorganiza para receber um público que não chega apenas para assistir, mas para vivenciar.
Entre aeroportos, ruas e arquibancadas, uma característica se destaca: a diversidade.
Fãs de diferentes países, culturas, religiões e trajetórias compartilham o mesmo espaço — e a mesma intensidade emocional. BTS, sigla para Bangtan Sonyeondan (“garotos à prova de balas”), tornou-se um dos principais fenômenos culturais do século XXI. Já a ARMY, Adorable Representative M.C. for Youth, vai além da definição de fã-clube e se consolida como uma rede global de pertencimento.
É nesse ponto que a experiência coletiva se transforma em histórias individuais.
No estádio três brasileiras ajudam a traduzir esse movimento em escala humana. Duas viajaram exclusivamente para viver o momento.
“Vim de Porto Alegre, do outro lado do mundo, literalmente para ver o BTS porque eu amo os meninos, as músicas, já acompanho há tempo”, conta Patrícia Nolasco da Silva, 44 anos, enfermeira.
“Todo o interesse que tenho no idioma, na cultura coreana, é tudo em função do BTS. Estou realizando um sonho”, diz Liliane Vieira Schmitt, 51 anos, técnica de enfermagem.
A terceira vive na Coreia do Sul há três anos e cursa mestrado em jornalismo — uma escolha que, segundo ela, nasceu dessa conexão.
“Eu só estou na Coreia por causa deles. Comecei a estudar coreano em 2018 por causa do BTS e foi assim que consegui a bolsa para o mestrado”, afirma Renata Saraiva, 29 anos, mestranda em jornalismo. Ela volta ao Brasil em setembro, assim que concluir a formatura.
Relatos como esses ajudam a compreender o que o BTS construiu ao longo de 13 anos.
Quando estreou, em 2013, o grupo enfrentava desconfiança dentro de uma indústria altamente competitiva e dominada por grandes agências. Sem o respaldo inicial das maiores estruturas do K-pop, consolidou sua trajetória a partir de uma combinação de produção autoral, consistência artística e diálogo direto com o público.
Essa relação é um dos seus principais diferenciais.
As músicas do BTS não se limitam ao entretenimento: abordam identidade, ansiedade, pressão social, pertencimento e autoestima. Temas que dialogam com experiências reais, especialmente entre jovens. Ao transformar questões individuais em narrativas coletivas, o grupo construiu uma linguagem que ultrapassa barreiras linguísticase culturais.
Ao longo dos anos, essa construção se organizou em forma de obra. Álbuns, conceitos visuais e performances funcionam como capítulos de uma mesma narrativa, em constante evolução.
O lançamento recente de Arirang,que vem batendo recordes de audiência e vendas, reforça essa trajetória e marca um novo momento artístico após o retorno.
Esse percurso também explica a força da ARMY. Não se trata apenas de uma base de fãs, mas de uma comunidade que participa ativamente dacirculação dessas narrativas. Ampliando mensagens, conectando países e sustentando o impacto cultural do grupo.
Em Busan, tudo isso se materializa de forma concreta.
Enquanto o público ocupa o estádio, a celebração se estende para além dele. Conecta diferentes territórios por meio de transmissões globais e redes digitais. O resultado é um modelo de evento que redefine fronteiras entre presença física e participação à distância.
Mais do que uma festa, o que se vê é a consolidação de um projeto cultural de longo prazo.
A Coreia do Sul transformou sua produção artística em instrumento de projeção internacional — e o BTS se tornou um de seus principais símbolos.
Treze anos após sua estreia, e após um hiato que poderia interromper qualquer trajetória, o grupo retorna reafirmando sua relevância.
Em Busan, essa volta ganha dimensão simbólica: não é apenas continuidade, é prova de permanência.
*Mônica Cabañas é jornalista, correspondente internacional e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, Doutora em Educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto "O Mundo por trás do Mundo".
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