Literatura

Biografia inédita mergulha na vida e nos bastidores de Guimarães Rosa

Biografia do escritor revela aspectos fundamentais do médico diplomata que esmiuçou os sertões brasileiros

Leonencio Nossa em Cordisburgo, 
no Museu Casa de Guimarães Rosa -  (crédito: RonaldoAlves)
Leonencio Nossa em Cordisburgo, no Museu Casa de Guimarães Rosa - (crédito: RonaldoAlves)

Certa vez, em conversa com um amigo diplomata, João Guimarães Rosa sugeriu ao colega que andasse de ônibus de vez em quando. A prática era mil vezes mais interessante do que a monotonia dos carros.  O episódio narrado em João Guimarães Rosa — Biografia é muito instrutivo para uma das compreensões que o autor, o jornalista Leonencio Nossa, queria trazer: Rosa não inventou uma linguagem, mas deu um significado profundo e detalhado a uma forma de falar que sempre habitou os sertões brasileiros. São as dimensões do médico, que não gostava de sangue, do diplomata, que cogitou tornar-se fiscal de imposto em um "emprego rotineiro" e "sem viajações" para ter tempo para a literatura, e do soldado, capitão-médico voluntário na revolução de 1932, que Nossa explora detalhadamente. 

Com lançamento marcado para hoje, às 18h, no Sebinho, o livro é fruto de uma pesquisa de fôlego que teve início em 2006 e resultou em 736 páginas que esmiuçam a vida do escritor, de seus ancestrais e do universo que rendeu alguns dos textos mais celebrados da literatura brasileira. A ausência de uma biografia robusta de Rosa disparou no jornalista o desejo de mergulhar nessa empreitada de duas décadas. "Em 2006, com as comemorações dos 50 anos de Grande sertão: Veredas e de Corpo de baile, li algumas matérias falando que não tinha uma biografia de Guimarães Rosa. E falei: vou começar a juntar material para fazer esse trabalho. Não tinha certeza de que o projeto iria até o fim. Rosa é uma personalidade importante da cultura brasileira, ele expande questão literária e certamente outras pessoas iam se interessar em fazer a biografia, mas entrei nesse projeto. Mergulhei na obra. Entrei na vida", conta Nossa.

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Do mergulho, ele trouxe uma coleção de causos e fatos que ajudam a compreender a obra do escritor mineiro de Cordisburgo a partir de novas perspectivas. Uma delas é a bisavó negra do autor, Graciana, citada no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas à qual, segundo Nossa, os estudos dedicados à obra e vida de Rosa nunca deram muita importância. Graciana era mãe do filho bastardo que se tornaria o avô do autor de Grande sertão: veredas, uma referência familiar fortíssima, reverenciada por netos e filhos, inclusive os que não eram seus, já que o bisavô do autor foi obrigado pela mãe a casar com uma mulher branca de família conhecida. "Graciana era um achado que deu o amálgama que eu queria que fosse a biografia", conta Nossa. 

A história de Graciana nunca foi bem contada, nem pela própria família, mas ela sempre teve muita força entre os Guimarães, que a chamavam de veneranda. Foi ela quem ajudou o bisavô de Rosa a terminar, depois da morte da mulher, de criar os filhos do casamento imposto. "E ela teve a história apagada. Isso impediu uma análise mais abrangente da obra do Guimarães Rosa", explica Nossa. "Trazer uma mulher que, possivelmente, era uma escravizada, que teve uma relação com Nhô Chico (bisavô), que vai ter um filho bastardo e estar na história dele com a importância que teve, abre uma janela para interpretar a obra do Guimarães Rosa, um homem que vem de uma família muito brasileira, formada por portugueses e também por uma descendente de africanos. A família brasileira é formada por desencontros, muitas vezes violentos, de grupos sociais e étnicos. Graciana foi uma descoberta bem rica e importante para o livro, ela mostra a dimensão da brasilidade do escritor e da sua obra."

Outra perspectiva explorada por Nossa é um olhar menos romantizado para a relação de Rosa com o mundo rural. Embora pertença a uma família de fazendeiros criadores de gado, o autor de Sagarana nasceu em um mundo já marcado pela urbanização, com o avô mais envolvido na política local do que no mundo sertanejo. "Então, esse lugar em que ele nasce é um sertão bem transformado, não absolutamente rural, um Brasil em ebulição, em transformação", explica Nossa, que escreveu boa parte da biografia em Brasília, lugar que enxerga como carregado das referências do sertão de Rosa. Arquivos privados e públicos, conversas e entrevistas com pessoas que conheceram o escritor, todas listadas ao final do livro, e uma leitura pragmática da obra formaram a base da pesquisa. "Formei esse tripé: documentação, memória das pessoas que conviveram com ele e olhar para a obra dele", avisa. 

Outro ponto que o autor gosta de colocar em evidência é a construção de uma linguagem muito própria que, ele defende (e Rosa explicava) não é inventada, embora celebrada como uma das características mais importantes do mineiro. "Insisto muito nessa questão da linguagem, que a ideia dele não era criar uma linguagem, ele buscou mostrar uma linguagem que já existia", diz. "Ele mostra isso com tanta profundidade, com tanta nitidez e detalhes a ponto de se formar uma ideia de que tudo isso é uma invenção. O que é mais marcante no Guimarães Rosa é a capacidade de enxergar com uma lupa poderosa o interior brasileiro, algo que não é visível a olho nu."

Entrevista // Leonencio Nossa

Por que Brasília foi importante para você escrever o livro?

Em 2000, me formei em Vitória e vim para Brasília. Como jornalista, viajei pelo interior do país e o fascínio que eu tinha pelo Guimarães Rosa só aumentou. As pessoas me perguntam: você viajou muito para o grande sertão para fazer o livro? Na verdade, nunca saí porque Brasília está dentro do polígono do Grande Sertão. A essência do trabalho foi olhar em relação a esse movimento humano em Brasília. Toda vez que ia para a rodoviária, sentia o grande sertão e é esse contato com as pessoas, o elemento humano, que vai despertar o fascínio do Guimarães Rosa e inspirá-lo a fazer isso. O ponto de partida desse trabalho foi olhar de forma mais profunda para a cidade. Percorri muitos arquivos, muitos acervos, mas muitas vezes a compreensão do que foi o trabalho dele, o que o moveu na vida estava nas ruas. Ele estava em contato com as pessoas. Ressalto muito isso: uma coisa é levantar um montão de material, centenas de cartas e documentos, mas, às vezes, não estão ali certas explicações para entender a figura. Então, estar em Brasília fazendo essa obra foi muito importante para entender o universo dele, que é o interior do Brasil.

Um ponto importante do livro é como o mundo rural que Guimarães Rosa conheceu já estava carregado de uma urbanização que começava. Por que isso é importante?

A biografia é um gênero jornalístico e busquei me ater à não ficção, aos fatos, à história, por isso tive necessidade de entender o universo em que ele nasceu, Cordisburgo, aquela  Minas Gerais em que ele nasceu e se formou. E fiz um retrato daquela região central de Minas e de Belo Horizonte. E, de fato, Cordisburgo já estava inserida num processo de industrialização, tinha fábrica de tecido em Paraopeba desde o século 19, e depois Belo Horizonte também, capital recente e fundada, muito urbanizada. Às vezes, a gente tem o olhar de que esse sertão é um lugar pacato, bucólico, quando, na verdade, não é. O sertão de Rosa está sempre em movimento, há um olhar muito forte em relação à vegetação, à  fauna, à topografia, é um sertão de muita vida, muito intenso, e os personagens são personagens dessa transição do Brasil rural para o urbano. A gente se  acostuma a olhar esse sertão como um lugar que ficou no passado. E não é. O Sertão do Rosa é muito vivo e em processo de transformação. Tradição e modernidade convivem com todos os seus problemas. É muito mais intenso esse sertão dele do que se coloca.

Isso dificultou a classificação da obra?

Há contradição nesse processo de classificação da obra dele. Era atacado como um escritor difícil por conta desse tratamento que dava à linguagem, mas ele estava nas listas de mais vendidos. Eram livros que causavam estranheza, mas tinham grande aceitação nas livrarias e até aproveitamento por parte do mercado cultural, como o cinema e a música. Foi uma obra que, ao mesmo tempo que surgiu com essa classificação de difícil, vai ter uma difusão muito grande, porque ele não inventa uma língua, ele traz as línguas do Brasil com muita profundidade, com muita intensidade, ele traz as oralidades indígenas, africanas, da península ibérica. Então, essa aceitação e, ao mesmo tempo, essa classificação da obra dele mostra que o que as pessoas falam que é difícil é a incapacidade de certos setores de entender e conhecer o Brasil. A linguagem dele tem uma musicalidade que causa muita empatia. É  a musicalidade do Brasil. E o que vai caracterizar a obra dele é a linguagem. 

Uma das revelações do livro é a ascendência negra e escravizada do autor revelada pela figura da bisavó Graciana, negra e possivelmente escravizada antes de se juntar à família….

Esse personagem vai ser muito importante na vida dele porque ele vai citá-lo no discurso de posse na Academia (Brasileira de Letras). Graciana nunca foi tratada nos estudos sobre a obra, ela simplesmente foi apagada. E é interessante que as referências a ela na obra dele são muitas, por meio de personagens e histórias. Ele diz, por exemplo, em A hora e a vez de Augusto Matraga, que o personagem é da família Lomba, "aparentado dos lomba", então era, no mínimo, mestiço ou negro. Muita gente até critica o Rosa de que os personagens negros não têm nome quando, na verdade, o personagem principal era um homem  de cor. Agora, por que Graciana ficou apagada pela opinião pública e pela bibliografia do Rosa, que é muito extensa, não consigo entender. Talvez ele seja um dos escritores brasileiros mais estudados pela academia, só que o meio intelectual não olhou para a Graciana, que, aliás,  estava em retratos dele. É um lapso, eu acho. E é a mulher negra que conta as histórias na vida brasileira, então ela tem essa importância dupla tanto para a família quanto para a obra de um contador de história.

Qual foi o maior desafio dessa pesquisa?

O maior desafio da pesquisa é revelar uma vida que sempre se mostrou por meio da ficção, uma ficção do mais alto nível, do mais alto grau de excelência. Então, mostrar o Guimarães Rosa real, o homem, foi um desafio muito grande, que só aumentou por conta da atualidade da obra dele. Ao contrário do que muita gente diz, que o sertão acabou, que o Brasil retratado na obra dele é de personagens que ficaram para trás na história, acredito que o país que a gente vive, com todas as suas contradições, dramas e desafios, é exatamente esse que está descrito por Guimarães, claro, de forma muito poética e diferenciada. Para mim, foi muito difícil escrever sobre esse homem porque a gente está inserido nesse mundo que ele retratou. Como lidar com a questão do amor, do poder do dia a dia, da saúde mental, são questões muito intensas e atuais. Isso, para mim, foi o maior desafio, apresentar um autor que tinha uma visão muito profunda desse país. A gente está dentro desse grande sertão. Todas as complexidades que ele levanta são muito atuais.

 


  • Leonencio Nossa, autor de João Guimarães Rosa - Biografia, em Cordisburgo, no Museu Casa de Guimarães Rosa
    Leonencio Nossa, autor de João Guimarães Rosa - Biografia, em Cordisburgo, no Museu Casa de Guimarães Rosa Foto: RonaldoAlves
  • Leonencio Nossa, autor de João Guimarães Rosa - Biografia, 
em Cordisburgo, no Museu Casa de Guimarães Rosa
    Leonencio Nossa, autor de João Guimarães Rosa - Biografia, em Cordisburgo, no Museu Casa de Guimarães Rosa Foto: RonaldoAlves
  • FOTO2. Paris, 1950. Crédito: Arquivo de família.
    FOTO2. Paris, 1950. Crédito: Arquivo de família. Foto: Arquivo de família
  • FOTO3. Com o cão Sung, no apartamento do Arpoador, no Rio. Crédito: Arquivo Público Mineiro
    FOTO3. Com o cão Sung, no apartamento do Arpoador, no Rio. Crédito: Arquivo Público Mineiro Foto: Arquivo Público Mineiro
  • Com Aracy no Zoológico da Quinta da Boa Vista, na capital fluminense, em 1955
    Com Aracy no Zoológico da Quinta da Boa Vista, na capital fluminense, em 1955 Foto: Arquivo Público Mineiro
  • FOTO5. Retirando máquina de escrever de uma mala, 
1955. Crédito: Arquivo Público Mineiro
    FOTO5. Retirando máquina de escrever de uma mala, 1955. Crédito: Arquivo Público Mineiro Foto: Arquivo Público Mineiro
  • Leitor e escritor obsessivo, Guimarães Rosa também gostava de celebrar com um bom charuto
    Leitor e escritor obsessivo, Guimarães Rosa também gostava de celebrar com um bom charuto Foto: Arquivo Público Mineiro
  • FOTO6. Retratos. Crédito: Arquivo de família
    FOTO6. Retratos. Crédito: Arquivo de família Foto: Arquivo de família
  • FOTO 7. Guimarães Rosa jovem. Arquivo de família.
    FOTO 7. Guimarães Rosa jovem. Arquivo de família. Foto: Arquivo de família
  • FOTO2. Paris, 1950. Crédito: Arquivo de família.
    FOTO2. Paris, 1950. Crédito: Arquivo de família. Foto: Arquivo de família
  • FOTO8. No apartamento do Arpoador, no Rio. Crédito: Arquivo Público Mineiro.
    FOTO8. No apartamento do Arpoador, no Rio. Crédito: Arquivo Público Mineiro. Foto: Arquivo Público Mineiro
  • O autor com o cão Sung, no apartamento do 
Arpoador, no Rio de Janeiro
    O autor com o cão Sung, no apartamento do Arpoador, no Rio de Janeiro Foto: Arquivo Público Mineiro
  • FOTO11. Rosa na maturidade. Crédito: Arquivo Público Mineiro.
    FOTO11. Rosa na maturidade. Crédito: Arquivo Público Mineiro. Foto: Arquivo Público Mineiro
  • FOTO9. Com charuto. Crédito: Arquivo Público Mineiro.
    FOTO9. Com charuto. Crédito: Arquivo Público Mineiro. Foto: Arquivo Público Mineiro
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postado em 27/06/2026 03:54
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