
Crítica // Salvação ★★★
Pobreza intelectual mesclada desmedido enlace com a religião traz um cenário que não se restringe aos eleitores brasileiros. Enquanto Petra Costa no documentário Apocalipse nos trópicos confirmou o perigo de imiscuir religião aos currais eleitorais, cabe ao cineasta turco Emin Alper (O conto das três irmãs), doutor em história e formado em economia explorar um cenário de dissidência, propício à coexistência de milícias, do Estado e ainda de ramificações terroristas.
Preceitos religiosos sustentam uma facção turca, na trama de ruínas ambientada em realidade montanhosa. Há, nos bastidores, um descontentamento generalizado e que se encerra na figura de Mesut (Caner Cindoruk), indiretamente associado à autoridade, dado o laço com o irmão, que defende a tradição e representa uma linhagem. Embates verbais, quebra de confiança e ações dentro de um monastério traçam as coordenadas do conflito entre os clãs de Hazerans e Bezaris.
Com um elenco arregimentado por Ezgi Baltas, que inclui o talento das atrizes Naz Göktan e Ozlem Tas, respectivamente, a insurgente Fatma, e Gulsum, Salvação, detido em conflitos de clãs e no relato de visões, aposta no clima de sobressaltos e numa sonoridade perturbadora, com reforço das músicas de Christiaan Verbeek e do desenho de som de Nardi Van Dijk. A trama de ruptura entre aldeões, assumidamente, se baseou em fato real que desencadeou matança generalizada em meio a um casamento turco. Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, o longa de Emin Alper se apoia em dados do sobrenatural, no peso da oralidade, no erotismo e na dicotomia entre sonhos e pesadelos para tratar de uma vingança urdida com ecos das contradições shakespearianas.

Diversão e Arte
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