
Sob a vigência das "vivências singulares" negras, num plano de literatura diferenciado daquela "negrista" (registrada em autores como Jorge Amado), o documentário inédito de Joel Zito Araújo, Cadernos Negros, chega à programação do canal Curta! (nesta quinta, 9/7, às 22h, na plataforma CurtaOn.com.br e para assinantes de TV paga). "Existe uma literatura negra, sim", defende Conceição Evaristo, uma das autoras abrigadas pelo sentimento de comunidade e pelo impulso na vida social de autores como Oswaldo de Camargo, Miriam Alves, Cuti e
demais escritores com rota modificada pela atuação do grupo Quilombhoje, uma iniciativa com senso de coletividade aguçado.
Brasília marca presença na fita, pelo despontar de Cristiane Sobral e de Margareth dos Anjos, inclinada ao afago na autoestima, com poema dedicado a si: "Fujo do padrão, mas ganho na beleza", atesta, no filme. Donas de um "discurso mais completo", em planos racional e emotivo, conforme reforça o entrevistado Cuti, as mulheres integram capítulo a parte no documentário, que revela origens do Movimento Negro no Brasil. Traços da identidade de grupo habitam pensamentos de pensadoras como Miriam Alves (autora que esbraveja um de seus poemas: "Minha carne queimou na panela...") e Conceição Evaristo (representada pela reprodução de Eu-mulher, num trecho que demarca: "Eu fêmea-matriz/ Eu força-motriz/ Eu-mulher/ Abrigo da semente/ moto-contínuo/ do mundo").
Ainda que um dos pilares da publicação Cadernos Negros, nascida em fins dos anos de 1970, Cuti desautorize o dito "homem cordial", ele celebra a solidariedade ativa reinante num "bojo de algo maior" e que deságua na ação afirmativa que renova a saudação ao lúcido pensamento do abolicionista Luiz Gama, citado com: "Enquanto houver um só escravo no Brasil, a nação inteira estará acorrentada". Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, entre outros expoentes, tratam da queda do caráter "puxa-saco de branco" (nas letras dos pretos), lidam com momentos de cisão e de renovação dos autores publicados pelos Cadernos Negros (são mais de 300) e dos esquemas de difusão da antologia em bailes soul, bares, festas black e dentro do movimento hip-hop. Nos discursos apresentados transparece a queda "da máscara branca da imitação" e a "limpeza do espírito de dominação" (dos brancos), revela-se a influência da literatura oral em Cruz e Sousa e Lima Barreto, além de ser renovada admiração pelo braço periférico de autores como Oubi Inaê Kibuko e Carolina Maria de Jesus, que escreveu em anteparos tirados do lixo, e que derem nome ao Cadernos Negros.

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Mariana Morais