Cinema

Carina Bini, cineasta local, estreia em longa em fita que veta etarismo

Cineasta formada em Brasília, Carina Bini faz a estreia em longas com Mil luas, filme em torno de fusões culturais e afirmação na terceira idade

A diretora Carina Bini estreia em longas, com 'Mil luas' -  (crédito: Luciana Melo )
A diretora Carina Bini estreia em longas, com 'Mil luas' - (crédito: Luciana Melo )

Circular pela capital, aproveitando as cenas musicais e teatrais ou conferir um "bom filme", no Cine Brasília ou no Cine Cultura, estão entre os programas de primeira linha, nas férias da cineasta Carina Bini, entusiasta de encontros culturais, sempre no plural. "Brasília tem uma cena de música instrumental sensacional, com grandes músicos e shows na cidade. Adoro os shows de bandas locais e nacionais que acontecem nos parques na época da seca", reforça. As reflexões durante esses passeios na cidade são inevitáveis, e colocam em primeiro plano Carina Bini, uma protagonista quando se fala do tema de seu primeiro longa-metragem, atualmente, em cartaz. Mil luas vem embalado pelo conceito da reconexão cultural.

Um período da vida marcou a cineasta, com profundidade. "Fui imigrante na Índia. Às vezes, mergulhamos na cultura do outro, abrindo mão de parte da nossa identidade cultural", explica. Mil luas traz à tona o lado místico e profundo de uma mulher de 80 anos, com viagens animadas por sabores e a alquimia vinda da cozinha. Entre as prioridades do cinema intimista que cultiva, Carina busca trazer um espaço doméstico "como território narrativo legítimo", além de adotar um ritmo mais contemplativo.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Parceira criativa regular com o amigo de mais de 20 anos André Luiz Oliveira, na direção geral do Festival Internacional Cinema e Transcendência, idealizado por ele, Carina imprimiu real e transformador ponto de virada na jornada "abraçando a mulher criativa e artista" à frente de Mil luas. Antes, ela havia produzido filmes de André, entre os quais Ziriguidum Brasília — A arte e o sonho de Renato Matos e Mito e música — A mensagem de Fernando Pessoa (codirigido por Rama, filha de André). "Existe uma troca criativa muito saudável entre nós dois. Aprendo muito de cinema com o André e, sobretudo, absorvo sua visão acerca da criação do cinema, na qual a jornada do artista ou criador é o que importa e guia o próprio processo criativo", destaca.

Carina dá importância à consonância entre o cinema que persegue e a sua fluidez e maturidade cotidiana. Aos 52 anos, se percebe como uma mulher amadurecida e repleta de "muita energia jovem" de realização. "Eu adoro o processo do envelhecer. A gente aprende a lidar melhor com as adversidades que aparecem, e a vida vai se tornando mais leve, fácil e gostosa. Eu vivo intensamente o presente. Penso em fazer filmes, até o corpo e a saúde permitirem. Pelo resto da vida, terei muito a explorar, criativamente", decreta. 

Entrevista // Carina Bini, cineasta

O que estimula o registro intimista presente no teu filme Mil luas?

O universo interior e a coragem da mulher amadurecida é o que mais me inspirou para estabelecer as premissas do Mil luas. Esta história nasceu na Itália, durante o laboratório que participei no Centro Sperimentale de Cinematografia, uma das mais importantes escolas de cinema daquele país; de lá surgiu esta história que conecta Brasil e Itália e a imigração, a partir de um ponto de vista pessoal. Chiara, a protagonista, é meio italiana e meio brasileira também. Junto com a equipe de arte do filme, criamos um mundo imaginário de Chiara, meio fabuloso, buscando representar uma reconexão cultural.

Quais as características, num comparativo, dos indianos, dos brasileiros e dos italianos, inseridos em culturas às quais você tem apego?

Acho que o universo de características em comum é bem amplo, mas eu escolho o aspecto da relação com a comida e a espiritualidade. Todos os três povos têm na tradição culinária um fator marcante de sua cultura, algo agregador, que promove momentos importantes do dia, afetos e memória de família. A espiritualidade é algo bem interessante de se pensar. Quando digo espiritualidade, estou me referindo à conexão com o mistério da vida, não somente com a religião propriamente dita. A Índia é o berço da espiritualidade oriental, de onde vem o grande corpo de conhecimento sobre a relação do indivíduo e o universo como um todo, chamado de Vedanta.

Qual a ligação italiana ressaltada no teu filme que faz a ponte com o Brasil?

A Itália tem a tradição cristã e religiosa fortíssima, mas ao mesmo tempo tem São Francisco de Assis e Santa Chiara, dois grandes místicos que iam além dos dogmas do catolicismo. Já o Brasil traz um universo espiritual incrível, no qual as várias vertentes de conhecimento se encontram, considerando a espiritualidade indígena, africana e o misticismo português. E foi neste ambiente que busquei criar esta espiritualidade dentro do Mil luas, que está presente e representada de forma bem sutil no jovem místico que se chama Francisco, fazendo, até mesmo, uma breve referência à relação de amor mística entre São Francisco e Santa Chiara.

Você nota traços de um cinema feminino nas recentes idas a salas de exibição?

Certamente, um filme criado e dirigido por uma mulher estará na maioria das vezes trazendo elementos de um ponto de vista da mulher, cujo universo emocional e de representações acaba sendo particular. Eu pratico um cinema feminino e defendo o cinema que representa experiências femininas de forma não estereotipada, com traços como o protagonismo de personagens femininas, das mulheres com desejos, contradições e autonomia narrativa, não reduzidas a função de esposa, mãe ou interesse amoroso do protagonista.

Quem admira, em cinema?

Gosto de filmes sensíveis com uma estrutura dramática que tenha andamento e engajamento. Gosto de obras que mexem com minhas emoções, e não apenas com o intelecto. Gosto de rir, chorar, sentir e sair do cinema com algo novo pra minha vida, seja uma reflexão ou um novo ponto de vista. Gosto do Pedro Almodóvar, seus filmes e as contradições e profundidade da construção dos seus personagens. Os sensíveis filmes de Kiarostami me tocam a alma. E da Índia, gosto muito da diretora Mira Nair e Deepa Mehta. Adoro também os filmes de documentário; nisso, Werner Herzog é um mestre para mim. Recentemente, estou conhecendo ainda mais as obras da francesa Mati Diop (de Atlantics e Dahomey).

A lista é diversificada...

Sim. Ainda admiro a sensibilidade da Anna Muylaert, Yasmin Thayná e Lucia Murat. Das representantes internacionais, gosto de diretoras como Chantal Akerman, Lucrecia Martel e Paz Encina. Na corrente dos clássicos, adoro a filmografia de Roberto Rosselini, Pier Paolo Pasolini e de Michelangelo Antonioni.

Como foi a sua formação cultural, desde a época em que morava no Paraná?

Eu sempre tive a necessidade de voar e pousar em outros territórios. Há um lado do Paraná que é dos mais conservadores, mas eu venho de uma família progressista graças à visão de mundo do meu pai, que teve uma trajetória sempre de esquerda na política. Por lá, enfrentei salas de cinemas fechadas e frequentei a única locadora de filmes disponível. Por isso, não cresci uma cinéfila. Devo muito da minha formação cultural ao Filo — Festival de Teatro de Londrina.

Como você se sente em Brasília, hoje em dia?

Eu me sinto cidadã brasiliense. Mudei para cá em 2004, tive algumas idas e vindas, mas devo ao ambiente de Brasília a minha trajetória dentro do audiovisual. A cidade sempre me acolheu e é onde eu escolhi viver. E hoje construo esta carreira como diretora de cinema ao lado de outras mulheres talentosas da cidade. Brasília é aquela cidade que abraça o Brasil e o mundo e eu amo isso. Uma cidade jovem, moderna, acolhedora, com ótima qualidade de vida, com uma cena cultural rica e com um cinema como o Cine Brasília, que é um patrimônio incrível. Graças a Brasília e ao audiovisual brasiliense, eu me tornei diretora de cinema.

 

  • Google Discover Icon
postado em 28/07/2026 10:42 / atualizado em 28/07/2026 10:46
x