
Desde o disco de estreia, Igreja Lesbiteriana, um chamado, de 2019, Bia Ferreira demarca posicionamentos. Foi assim, por exemplo, em Cota não é esmola, que se tornou obra do Programa de Avaliação Seriada (PAS), da Universidade de Brasília (UnB). Com Améfrica, o mais recente álbum lançado pela cantora mineira, a postura permanece a mesma. Além do relançamento dessa canção que a popularizou, as letras permanecem afiadas.
“Contra a desinformação amigo/eu trago consciência/o seu silêncio é parte da violência/então cante bem alto/e ofereça resistência”, diz a artista em O seu silêncio. Repertório rítmico diverso e referências acadêmicas são outras marcas do projeto. Para Bia, diante da desumanização, a escolha a se fazer é cantar “pertencimento, memória e ancestralidade”. Assim, a Améfrica Ladina, de Lélia González, ganha som. Em entrevista ao Correio, a artista comenta aspectos do disco.
O que te interessa cantar neste momento?
Tudo aquilo que nos ajuda a imaginar futuros possíveis. A gente vive um tempo em que o medo, a violência e a desumanização tentam ocupar todos os espaços. Eu quero cantar o contrário disso. Quero cantar pertencimento, memória, ancestralidade, afeto e organização popular. Quero lembrar que a alegria também é uma ferramenta política. Minha música continua denunciando as opressões, mas ela também anuncia caminhos. Eu acredito que a arte precisa nos ajudar a sonhar coletivamente.
Quando percebeu que deveria fazer um novo álbum?
Depois de circular por tantos países, eu comecei a perceber que existia uma história comum entre os povos que foram atravessados pela colonização. Eu via pessoas cantando minhas músicas em lugares completamente diferentes, mas compartilhando dores e esperanças parecidas. Foi aí que entendi que precisava fazer um álbum que falasse desse reencontro. Améfrica não nasceu de uma estratégia de mercado, nasceu de uma necessidade de conversar sobre quem somos e sobre o futuro que podemos construir juntos.
Algumas referências, como Lélia Gonzalez, aparecem de maneira mais direta. O que mais te influenciou nesse trabalho?
Lélia Gonzalez é uma das grandes chaves para entender esse trabalho. O conceito de Améfrica Ladina me ajuda a nomear algo que eu já sentia artisticamente, essa conexão profunda entre povos originários, africanos em diáspora e todas as culturas que nasceram desse encontro. Mas o disco também é influenciado pelas experiências da estrada, pelas rodas de reggae, pelos terreiros, pela música popular brasileira, pelo Caribe, pela África, pelos movimentos sociais e, principalmente, pelas pessoas que eu encontro depois dos shows. Esse álbum é feito de encontros.
Como definiria esse projeto?
É um manifesto em forma de reggae, um convite para lembrar que nós pertencemos a uma mesma história, apesar de todas as tentativas de nos separar. É um disco que celebra a alegria como prática de resistência e entende o amor como tecnologia de sobrevivência. Musicalmente, ele passeia pelo reggae com uma identidade profundamente brasileira, dialogando com toda a diversidade cultural da nossa Améfrica.
Por que o interesse em juntar diferentes idiomas?
Porque eu acredito que a música atravessa fronteiras antes mesmo da tradução. Cantar em português, espanhol, francês e outros idiomas é uma forma de reconhecer que nossa história nunca coube dentro das fronteiras dos Estados nacionais. As nossas culturas sempre dialogaram. Misturar idiomas é uma escolha estética, mas também política. É dizer que existem muitas formas de falar a mesma luta e o mesmo amor.
Há perspectiva de realizar turnê?
Esse disco foi pensado para o palco desde o início. Ele convida o público a cantar junto, a conversar, a refletir e a celebrar. Já estamos organizando uma turnê internacional, passando pela Europa, América Latina e outros territórios onde essa conversa faz sentido, além de uma circulação forte pelo Brasil. Meu desejo é que esse álbum viaje tanto quanto as histórias que ele conta.
O que significa lançar um disco hoje?
É um ato de resistência. Num tempo em que tudo parece acontecer muito rápido e ser consumido em poucos segundos, um álbum ainda é um espaço para construir pensamento, narrativa e memória. Eu gosto da ideia de que um disco pode acompanhar alguém durante anos, mudando de significado conforme a vida muda. Lançar Améfrica é oferecer um convite para que as pessoas parem, escutem, sintam e se reconheçam umas nas outras.
*Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel

Diversão e Arte
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