Cinema

Fundamental para a produção de cinema, Barretão deixa um sólido legado

Um dos mais influentes agentes culturais do país e produtor de filmes populares e indicados ao Oscar, Luiz Carlos Barreto, vital para a renovação do cinema, morreu ontem, aos 98 anos

Luiz Carlos Barreto:
Luiz Carlos Barreto: "O cinema tem de ser um pensamento largo" - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Dentre mais de seis décadas de atuação no cinema nacional, com impacto dimensionado por filmes como A dama do lotação (1978), O quatrilho (1995), Vidas secas (fita em que, com a adoção de crua luz, como fotógrafo, quebrou paradigmas, em 1963) e Dona Flor e seus dois maridos (1976), o produtor Luiz Carlos Barreto, morto aos 98 anos, sabia do seu papel. "Sou quase um testemunho da história", destacou com a vivacidade e o bom humor recorrentes, em entrevista ao Correio. Há uma década, ele pontuou ao jornal a percepção de cearense sábio e privilegiado: "Nossos avanços e fracassos acontecem sempre em grandes proporções. Ganhamos cinco Copas e perdemos uma de 7x1: isso é o Brasil! O povo é produtivo, corajoso e tem uma elite colonizada: os pensamentos estão permanentemente fora".

Conhecido pela quebra de estigmas, Barretão, como era tratado, filtrava tudo pelo viés da sétima arte, a primeira e "mais completa", segundo defendia. "O cinema traz a linguagem mais perfeita de comunicação. Está presente em todas as plataformas. Até as novelas e seriados têm assimilado essa linguagem", observou.

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A partida do colega cineasta, a ser cremado hoje no Memorial do Caju, após cerimônia no Palácio da Cidade carioca, na visão de Helvécio Ratton encerra um ciclo na história do cinema nacional. "Ele foi um personagem fundamental na construção do Cinema Brasileiro. Barretão era muito querido por nós que fazemos cinema no Brasil e respeitado pelas autoridades públicas", comentou. Luiz Carlos Barreto morreu depois de breve internação no Hospital Copa Star, no Rio, em decorrência de infecção pulmonar associada pneumonia. A morte veio dois anos depois de uma séria queda, ocorrida no Ceará.  

Atento à amplitude do cinema, "uma atividade de pensamento largo", Barretão citava a máxima de Roberto Rosselini — "o cinema é a alma de cada país", e, sendo assim, se tornou um viciado em vir para a capital, a fim de sustentar discussões. "Acho Brasília a maior invenção urbana do mundo: a cidade é rural e urbana", espantava-se, que se dizia um porta-voz da classe do cinema. "Trago temas discutidos em grupos. O projeto idealizado sempre foi coletivo", avaliava. Há três anos, ele destacou a suposta frustração do ex-presidente Jair Bolsonaro por "não poder fazer as tantas maldades que ele tinha na cabeça dele com o cinema". Nisso, defendeu o vigor da classe de cinema, que, "num amálgama forte, levou adiante o cinema nacional contra todas adversidades".

Inconformado com a entrega de mercado do entretenimento para a indústria mundial, Barretão sabia esbravejar. "Polêmico, apaixonado e atrevido. Morreu a um ano e dez meses de seu centenário, deixando poderosa herança como diretor de fotografia (de Vidas Secas e Terra em transe), um longa documental como diretor (Isto é Pelé, em parceria com Eduardo Escorel) e 60 filmes como produtor. Um personagem incontornável do nosso audiovisual. Como ele mesmo dizia, Barreto um "militante do PCB" (Partido do Cinema Brasileiro)", comentou a repórter e pesquisadora Maria do Rosário Caetano, em depoimento ao Correio. Atuante comunista nos idos de 1940, Barretão foi liderança fundamental na criação da Lei do Audiovisual e na estruturação do Canal Brasil.

No jornalismo, Barretão esteve na revista A Cigarra (do Diários Associados) e, na Copa do Mundo de 1950, passou para a reportagem de O Cruzeiro (lançada por Assis Cheateaubriand), vista por ele como "a TV Globo de papel". "Sou um autodidata, só fui até o 3º ano ginasial, mas tive a escola de vida. A grande universidade minha foi o jornalismo. Nele conheci de bandidos a príncipes, reis, ídolos, e de tudo da vida", sentenciou em antiga entrevista.

Visto como "a força motriz de muitas das políticas públicas para o audiovisual brasileiro, entre os anos 1970 e começo dos 2000", Barretão, na memória do realizador e distribuidor de cinema André Sturm, se p`rojeta por empenhos na Lei do Audiovisual e na elaboração da Ancine. "Muitas outras conquistas tiveram a participação dele: todos os cineastas e produtores foram beneficiados por suas ações", avaliou Sturm. Barretão participou do projeto do Grupo Executivo da Indústria do Cinema, definitivo para o desenvolvimento da atividade, por 20 anos.

Cidadão politizado, uma das facetas foi exposta quando da exibição, em novembro 2009, do longa Lula, o filho do Brasil (que produziu com o filho Fábio, morto em 2019). "Este filme não é político nem eleitoreiro. Ele é didático. Estou muito feliz por estar vivo e ter podido realizá-lo", disse o produtor, que se via outro nordestino vitorioso. Em novembro de 2024, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro incorporou, num documentário da programação (Barreto, fotógrafo das lentes nuas) a grandeza quase centenária. A empresa LCBarreto trouxe na cartela de produtos títulos como O que é isso, companheiro? e O quatrilho, ambos finalistas ao Oscar. Em 2024, houve comemorações que contemplaram retrospectivas no Lincoln Center (Nova York), no Festival de Cannes e na cinemateca de Portugal, sem contar de celebrações no Festival de Berlim. Impulsionador do Cinema Novo, Barreto estendeu a produtividade em obras apoiadas pela Embrafilme que estimularam o mercado consumidor. "Filmamos o Brasil do extremo Norte ao extremo Sul. Foram 30 adaptações literárias, num universo de 150 títulos", gabava-se Barretão.

Impacto constante

Deus ainda é brasileiro (filme póstumo de Cacá Diegues), inédito, é dos títulos da LCBarreto, associada a quatro filmes com Glória Pires, entre os quais Flores raras (2013) e Índia, a filha do sol (1982). Outro amuleto inseparável de Barreto foi Fernanda Torres. Quando da indicação ao Oscar, em janeiro de 2025, o casal Lucy e Luiz Carlos celebrou a conquista da mesma estrela de A casa de areia (2005) e Inocência (1983): "É uma vitória do cinema brasileiro, do cinema latino-americano, dentro do país que tem a maior indústria do mundo (os EUA). Viva a Fernanda! Viva o cinema brasileiro!".

Agente ativo na ruptura de padrões narrativos e estéticos alcançados pelo Cinema Novo, Barretão foi parceiro artístico de Glauber Rocha (morto em 1981) e de Nelson Pereira dos Santos (falecido em 2018). "Terra em transe (que produziu e do qual foi diretor de fotografia, em 1967) será um filme atual, ainda nos próximos 100 anos", apostou, em torno do título que bebeu do tropicalismo em marcha. "Olhando para trás, vejo que Terra em transe (vencedor do Fipresci, no Festival de Cannes de 1967) foi uma prova de que não se faz cinema apenas com dinheiro. Houve vontade de fazer e empenho. Além disso, Glauber não queria ser cult; tratava o cinema com uma linguagem revolucionária, sem dispensar a narrativa: tratou de um cinema útil e não fútil", comentou Barretão, à época de reprise, em Brasília, feita em 2017.

Filha de Glauber, Paloma Rocha foi pega de surpresa pela notícia da morte de Barretão. "A minha relação com Barreto é algo de muito afeto. Eu fui criada praticamente junto de Paula, de Bruno e de Fábio (filhos do clã Barreto), e depois que meu pai morreu, Barreto sempre teve ao nosso lado. Ele foi uma das pessoas mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos, pela sua coragem, ao lado de dona Lucy e dos filhos, e por sempre continuar acreditando no cinema brasileiro. Estou emocionada agora: desejo muito carinho para a família", destacou a filha da atriz icônica do Cinema Novo, Helena Ignez (que Barretão fotografou para capa da revista O Cruzeiro).

 

Reflexões de Barretão

Compromisso

"Ouvia Assis Chateaubriand dizer que ficaria pobre (risos) por apostar e insistir na defesa do intuito (no século 19) de Hipólito José da Costa, entusiasta do consumo de informações geradas pelo (e no centro) político do país"

Craques

"Pelé será eternamente o rei do futebol. Jogador igual a ele e ao Garrincha, quem viu, viu, quem não viu não verá mais. Acompanhei a vida do Pelé desde os 16 anos"

Eterno torcedor

"Este futebol que estamos jogando, todo mundo joga. Temos que recuperar a maneira de o brasileiro jogar. Brasileiro gosta de driblar, se livrar, criar situações. É um futebol criativo, longe do automático"

Fogo-cerrado

"O setor da cultura foi o mais atacado pelo bolsonarismo, que se mostrou competente nisso. Na análise deles, era o segmento mais importante"

Artistas antropofágicos

"O Cinema Novo nacional se apropriou de neorrealismo e da nouvelle vague. Como diz o Fernando Henrique Cardoso, o Brasil copia tudo, mas com originalidade (risos)"

Repercussão

 

"Dos diversos legados do papai, acho que o principal não é o político, nem tudo o que ele fez pelas políticas públicas que se afirmaram na plataforma do cinema. Ele foi um articulador de todo esse arcabouço. Não haveria Embrafilme, não haveria Ancine, não haveria Lei do Audiovisual, não haveria a Lei da TV, não haveria muito, se não fosse por ele. Para mim, o exemplo de pessoa foi o que pesou. Ao longo dos 67 anos desses 98 anos dele, eu, nova, acompanhei e fui sombra do meu pai. Aos sábados e domingos, ia em peladas e nos jogos no Maracanã. Ficávamos na tribuna de imprensa. Depois comecei a ser sombra dele no cinema, na produção, nas viagens a Brasília, na Câmara dos Deputados, no Senado. Ascensoristas, faxineiros e lobistas achavam que ele fosse deputado ou senador. E ele dizia: 'Eu não tenho partido, meu partido é o partido do cinema brasileiro'. Trago o legado melhor do meu pai: um ser humano que sempre conversou com todo mundo, desde o guardador de carro até o presidente da República. Não fazia distinção, foi um humanista"

Paula Barreto, produtora e filha de Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto

"Adeus Barretão, quase um século de Brasil e de cinema brasileiro. O maior dos produtores, grande fotógrafo, agitador cultural, único, insubstituível. Relaciono 15 grandes filmes, os meus preferidos, do Barretão. Nenhum outro cineasta brasileiro tem uma lista como esta: Romance da empregada (1988), Memórias do cárcere (1984); O beijo no asfalto (1981); Bye Bye Brasil (1980); Dona Flor e seus dois maridos (1976); O casal (1975); Guerra conjugal (1974); Isto É Pelé (1974); Como era gostoso o meu francês (1971); Terra em transe (1967); A grande cidade (1966); O padre e a moça (1966); A hora e vez de Augusto Matraga (1965); Vidas secas (1963) e Garrincha — Alegria do Povo (1962)"

Jorge Furtado, cineasta

 

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postado em 23/07/2026 10:35 / atualizado em 23/07/2026 10:38
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