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Da arquibancada à arena: Vinicius Neri festeja protagonismo em "Fúria"

Aos 31 anos, o ator Vinicius Neri protagoniza nova série da Netflix, e reflete sobre os desafios de interpretar um lutador de MMA sem memória, a relação entre arte e mercado, e o momento decisivo de sua carreira

Vinicius Neri, ator -  (crédito: SAULO MOREIRA)
Vinicius Neri, ator - (crédito: SAULO MOREIRA)

Quando Vinícius Neri recebeu a notícia de que seria o protagonista de Fúria, nova série da Netflix, ele descreve o momento como "apoteótico". Não era para menos: o ator de 31 anos, formado pela Escola de Arte Dramática da USP (EAD-USP), sabia que estaria sob a direção de Zé Henrique Fonseca — cujo trabalho em Bom dia, Verônica ele já admirava — e que seu rosto chegaria a 190 países. "Era meu sonho de vida, acho que de muitos atores, poder ver seu trabalho reconhecido em tantos lugares", conta.

Na trama, Neri vive um jovem resgatado à beira da morte, sem qualquer memória de seu passado. Enquanto tenta se firmar no universo do MMA, ele se vê enredado em uma teia de crimes, ambição e segredos que ameaçam sua existência. O mistério em torno do personagem, segundo o ator, é o que primeiro conecta o público. "Não queria que ele fosse um coitado. Queria que as pessoas não soubessem de início se ele era bom ou ruim. E tive devolutivas de espectadores que reconheceram isso — fiquei muito feliz", celebra ele, que contracena com nomes como Fabio Lago, Alice Carvalho, Bianca Comparato, Eduardo Moscovis e Claudia Raia.

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Vinicius Neri protagoniza a série "Fúria", na Netflix
Vinicius Neri protagoniza a série "Fúria", na Netflix (foto: Albert Andrade/Netflix)

Disciplina

O maior desafio físico da preparação, revela, foi "virar um lutador em quatro meses e meio". Com dedicação integral, Neri ganhou 5 kg de massa magra e perdeu 3 kg de gordura no primeiro mês — tudo natural, apenas com suplementação e alimentação regrada. Ele levava a própria balança para o set e resistia às tentações do bufê, incluindo um feijão com bacon que só foi saboreado após as últimas cenas de luta. "Fiquei sem beber álcool desde a primeira consulta com o endocrino", lembra. "Meu organismo não recebe mais como antes", completa.

Mas o preparo não foi apenas físico. Psicologicamente, o desafio era construir a gradual reinserção de um homem que sente tudo, mas não tem memória - apenas lampejos e visões. "Ele passa o tempo todo contendo algo, como se negociasse a própria presença nos espaços. Se deixar o universo interno agir, perde tudo. O grande lance da série é equilibrar cabeça e coração", explica Neri. 

Essa pesquisa se desdobra também em suas performances autorais — Licença (2017), Necrosoul (2018) e Posso não ser Otelo? (2019) —, que ele considera vitais para a construção de personagens como o de Fúria. "Todos esses trabalhos nasceram da minha necessidade de organizar minha trajetória social, elaborar sobre racialidade e classe", afirma. Ele traça um paralelo direto entre "Posso não ser Otelo?" e a série: "É uma pergunta e um pedido: posso não ser refém da minha fúria, não ser apenas um homem passional? Entendi que esse pedido, na verdade, é para mim mesmo. É exatamente a trajetória do Marcelo [seu personagem]".

Trajetória

A trajetória de Neri até o protagonismo global inclui passagens por linguagens e canais diversos. Ele integrou a segunda temporada de Pico da neblina (HBO, 2022) e as quintas e sextas temporadas de Bugados (Canal Gloob, 2022/2023), além de atuar no piloto da série Fotos privadas (2019). No cinema, o ator protagonizou o curta KM 100 (2024) e faz parte do elenco do longa Esta noite não seremos estranhos (2026), dirigido por Marcelo Grabowsky — projeto que ele esperava há tempos.

Neri admite que a pressão de estrear em uma plataforma global existe, mas fica em segundo plano diante das demandas do set. "Aparece mais quando a gente sente que não entregou tanto numa cena. Tenho um sarrafo muito alto com meu trabalho." Ele cita uma frase que a preparadora Amanda Gabriel parafraseou: "Aquele que sabe precisa viver aquilo que sabe". E completa: "É um momento de exercitar os aprendizados".

Sobre a transição entre plataformas tão distintas, Neri é prático: "Quando fazia Pico da neblina, já mirava no que estou vivendo agora. Mas também foi uma escola: primeira rotina de set, cinco câmeras na fuça, aprender a agir naturalmente". Ele vê o momento atual como uma virada decisiva. "É entrar na arena, sair da arquibancada, fazer aprendendo e aprendendo fazendo", compara.

A tevê aberta é um caminho natural para muitos atores que estouram no streaming, mas Neri conclui sem rodeios: "Quero contar boas histórias. Se for na tevê aberta, no cinema, no teatro ou no streaming, como agora, será. Tô interessado nisso".

 


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postado em 03/08/2026 15:47
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