Música

Ana Flauzina estreia como intérprete no álbum 'Rabiscos para o mar'

Autora de mais de 70 composições, Ana Flauzina estreia como cantora em disco que une as águas do Cerrado ao mar de Salvador

O samba é o grande repertório da vida de Ana Flauzina. Dos almoços de domingo em família aos primeiros namoros, ela cresceu cercada pelas canções de nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Nelson Rufino. Nascida em Florianópolis, Santa Catarina, mudou-se ainda criança para Brasília, cidade onde foi criada e onde descobriu a vocação artística que a acompanha até hoje. Aos 46 anos e com mais de 70 composições no currículo, estreia como intérprete no álbum Rabiscos para o mar.

Ana não hesita ao afirmar: "Sem Brasília, não existiria este disco". "Foi aqui onde tudo aconteceu", relembra. "Boa parte dessas músicas foram gestadas no Cerrado, com referências que já indicavam o caminho do mar que me levou à Salvador", observa a sambista, que vive na Bahia há 12 anos. "Essa cidade foi o lugar que me deu chão e possibilidade de começar a navegar pelas águas da composição", completa.

Filha de uma família carioca radicada em Brasília, Ana sempre se alimentou da efervescência musical da capital. "É uma explosão o que acontece. O samba sempre foi muito forte aqui, como território e chão da cidade. Foi algo que conformou muito a minha vivência. E eu acho que, 10 anos depois, vemos um cenário ainda mais forte, muito mais consolidado e com referências inescapáveis", avalia.

Em Rabiscos para o mar, ela faz questão de compartilhar os holofotes com importantes representantes do samba brasiliense. Cris Pereira participa da faixa-título, enquanto Breno Alves empresta sua voz para Feira de São Joaquim. "Cris é a sabedoria, são as águas de Oxum que temperam as águas de Iemanjá. Eu divido com a minha grande irmã a faixa que dá título ao álbum. Isso não é qualquer coisa", ressalta Ana.

"E a música mais malandra do projeto talvez esteja na mão do grande e sábio Breno Alves, que entende a malícia do samba e traz uma decodificação específica dele", reflete a artista. "Acho que há muita verdade na participação desses dois intérpretes e é com muita honra e alegria que eles estão dividindo as faixas comigo", comemora.

Além das participações brasilienses, o disco reúne artistas de Salvador e conta com os músicos Marílio Sodré e Tiago Nunes na direção musical. "Se eu estou fazendo samba, é no plural. Não é possível fazê-lo no singular. Não acredito nisso. Os meus, definitivamente, todos são feitos em coletivo", sustenta.

Na estreia diante dos microfones, Ana prefere se definir como uma "compositora que canta suas músicas". "Essas letras me chegam, assim como chegam para outros compositores, como presentes. A gente se sente meio que como um canal e isso sempre foi muito natural para mim. Cantar é desafio, é uma demanda que veio de fora, de Iemanjá", relata. "Foi a minha intuição que pediu que eu também desse a minha digital na minha voz", acrescenta. "Acho que ainda estou me parindo artista e que bom que o samba está sendo uma grande grande parteira nesse processo", brinca.

Novos ângulos

Ao longo de 13 composições autorais, Ana revisita, no álbum, a chegada a Salvador, em 2014, quando assumiu o cargo de professora na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). "Tem músicas que são sobre o cotidiano da cidade, outras sobre a saudade… São faixas que falam de uma forma mais complexa e completa da vida", antecipa. "Ao mesmo tempo, há uma composição que fala sobre a resistência negra, uma questão que está muito umbilicalmente dada pela conjunção de Brasil e Salvador", acrescenta.

Ao lado de Cris Pereira, Ana integrou o grupo de estudantes que colaborou para a implementação das cotas na Universidade de Brasília (UnB), onde foi estudante durante a graduação e o mestrado. "Toda a minha resistência, que é coletiva, também está representada no disco. É um álbum de samba, mas que navega pelos sonhos negros", resume. "Uma das músicas, que se chama Liberdade, trata dessa demanda da escravidão e suas continuidades", exemplifica.

Doutora em direito, ela revela que a arte também permeia a prática docente. "O samba é um espelho de educação. As nossas narrativas não estão só pautadas pelo saber do mundo universitário", argumenta. "E o samba é a autobiografia autorizada das pessoas negras no Brasil. Se todos os livros se perdessem, a gente ainda teria como recompor boa parte da história desse país e das pessoas negras", destaca Ana.

Conhecida pela trajetória acadêmica, Ana vê com entusiasmo a oportunidade de apresentar ao público uma faceta menos conhecida. "Espero que isso inspire outras pessoas a acessarem, com coragem, todos seus ângulos. Ninguém é uma coisa só e eu tenho explorado muito a faceta acadêmica, que é a minha escolha pessoal e profissional. Mas eu acho muito bonito, e um grande presente que o samba me dá, poder explorar outros lados meus", celebra.

"Nas minhas pesquisas, trabalho a letalidade policial, a questão do genocídio negro e da violência sexual. Como diz uma grande amiga minha, talvez eu faça samba para não implodir", compara. "Eu acho que eu explodo arte para não implodir com os temas que o racismo lança na nossa direção. Então, eu venho tentando, na universidade, abrir caminhos para uma nova geração, além de contribuir com avanço da teoria crítica negra. Para fora, tento colaborar com a história do samba, fortalecendo essa história", conclui.

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