Artes visuais

Um diálogo entre Japão e Brasil é a proposta de João Angelini em Passageiro

Exposição de João Angelini apresenta obras realizadas durante uma residência de seis meses em Yokohama

Quando desembarcou em Yokohama, no Japão, para uma residência de seis meses, em novembro de 2025, o artista João Angelini trazia na bagagem uma série de referências quanto à cultura japonesa. “Muito do imaginário que eu tinha do Japão vinha de relações que tenho com famílias japonesas no Brasil e da memória dos produtos de cultura televisiva e cinema japonês”, conta o artista. “Meu primeiro grande impacto no Japão é que é um país extremamente familiar.  A gente cria uma expectativa de que está indo para o outro lado do mundo e, na minha infância, o país era um referencial de futuro. E, de repente, ao chegar lá, tenho uma sensação de familiaridade um pouco nostálgica, porque o Japão ainda tem uma estética dos anos 1990.”

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Essa sensação serviu de base para a produção das obras criadas durante a residência e mostradas na exposição Passageiro, que tem abertura marcada para esta sexta-feira (10/7), na Referência Galeria de Arte. “Foi uma surpresa entender coisas que nos tornam distintos e distantes uns dos outros e coisas que nos tornam tão familiares. E foi em cima dessas diferenças entre nações que os trabalhos foram pensado”, explica o artista, que realizou a residência no   Koganecho Artist in Residence Program a convite da Embaixada do Brasil em Tóquio e com apoio do Instituto Guimarães Rosa e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, por meio do Programa Conexão Cultura DF. 

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Muitas das questões presentes nas obras têm a ver com as memórias de infância de Angelini. Reconhecer nas fachadas dos prédios de Yokohama os cenários dos videogames que jogava e combinar com as texturas das fachadas barrocas das igrejas brasileiras, por exemplo, trouxe uma aproximação inesperada entre os dois países. As lembranças dos super-heróis dos desenhos e séries infantis foi o mote para retomar um trabalho com o grupo empreZa, do qual Angelini fez parte, criando uma versão da performance no contexto japonês. “Batizei de  XetruáKyaku e é uma fusão, uma sobreposição ou um diálogo dos curucucus de Pirenópolis com o boiadeiro da umbanda, os ninjas japoneses e as máscara kabuki, tudo operando nessa nova apresentação do trabalho do empreZa”, avisa o artista, que criou um kanji para representar o trabalho. 

Liu Shujia -
Divulgação -
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Liu Shujia -
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Uma experiência com a cerimônia do chá, realizada por uma amiga, rendeu uma animação feita com 2 mil desenhos inspirados, também, em uma visita a Uji, região de cultivo do matchá. “Foi uma experiência muito rica ver a plantação do matchá, entender como esse chá sai dali e chega na casa das pessoas, e por que não está mais chegando”, conta, ao lembrar que o aumento da demanda do produto no mundo afeta o consumo no próprio Japão.

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Alguns dos trabalhos de Passageiro são aprofundamentos de séries e pesquisas desenvolvidas anteriormente pelo artista e que também estavam na exposição de 20 anos de carreira realizada pouco antes da partida para o Japão no espaço Pé Vermelho, fundado por Angelini em Planaltina. “Foi uma oportunidade rica fazer uma coisa colada na outra porque eu tinha acabado de rever as pesquisas e atualizar com obras inéditas, então cheguei no Japão com isso tudo fresco. E conseguir localizar algumas discussões que os trabalhos propõem acerca das dinâmicas políticas, sociais e de mercado”, aponta. 


As crises ecológicas vividas pelos dois países com o impacto do agronegócio, por exemplo, motivou algumas leituras propostas nas obras, assim como conceitos estéticos e filosóficos japoneses, especialmente a ideia de impermanência. “Essa residência não se encerra com meu retorno para o Brasil, estamos em diálogo constante com curadores, artistas e espaços e vamos dar continuidade a essas conversas e trocas”, avisa. 

Serviço

Passageiro

Exposição de João Angelini. Abertura nesta sexta-feira (10/7), às 17h, na (Referência Galeria – CLN 202 bloco B loja 11, subsolo) Visitação até 28 de agosto, de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábados, das 10h às 14h. Entrada gratuita

 

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