
Gustavo Falcão é um dos destaques do filme Elize: Sombras de uma mulher que estreou na Netflix. Dando vida a Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, ele mergulhou na complexidade emocional de seu personagem, um homem que caminha entre as sombras e a luz.
Contracenando com Henrique Kimura e Lorena Comparato, que interpretam Marcos e Elize, o ator quis trazer com sua interpretação uma narrativa complexa e instigante, que vai além do sensacionalismo da mídia.
Além do filme, Gustavo também está presente na nova adaptação de Ben-Hur, da Record TV, que tem estreia inicialmente prevista para outubro. Na série, ele interpreta Élio, o governador romano da Judeia.
Natural de Recife, Falcão destaca a importância de sua terra natal em sua trajetória. Ele cresceu em um ambiente cultural rico, onde artistas como Antonio Carlos Nóbrega, Chico Science, Ariano Suassuna e Francisco Brennand foram grandes influências. A cena artística pernambucana o moldou e lhe deu as bases para a carreira que tem hoje.
Gustavo começou sua trajetória profissional em 1995, com a peça Os biombos, de Jean Genet, dirigida por Antonio Cadengue, e ganhou notoridade na montagem de A máquina. Com 31 anos de carreira, ele continua conectado com sua comunidade e está atualmente desenvolvendo um projeto especial lá: a adaptação para o cinema de um episódio da vida do pintor pernambucano Cícero Dias, em parceria com o irmão, Léo Falcão, e a REC Produtores.
Em novelas, o ator de 50 anos deixou sua marca como Faísca em As filhas da mãe, onde encarnou um surdo-mudo de inspirações chaplinianas, com uma sensibilidade própria, além de interpretar Jonas em Cobras & Lagartos, um jovem dividido entre a religiosidade e a malandragem de sua família. Recentemente, pôde ser visto na série Cine Holliúdi, no papel de Jujuba.
Entrevista | Gustavo Falcão
No filme Elize, você descreve seu personagem, Heitor, como alguém que representa uma "área cinzenta" e que transita entre o lado animalesco e a humanidade. Como você encontrou o equilíbrio para interpretar essa dualidade sem cair em um vilão caricato ou em um herói romantizado?
Cada personagem é uma teia de descobertas e desafios. No caso do Heitor procurei deixar aflorar nele os instintos enquanto buscava no roteiro onde poderia explorar seus aspectos racionais e também de que maneira poderia manifestar aspectos mais humanos, como afeto e empatia, e vi que isso se dava na relação de amizade com o Marcos e toda a sua família. Percebi que essa conexão poderia ser o esteio de sustentação que daria credibilidade e humanidade a Heitor.
Você destacou que o filme provoca mais perguntas do que respostas e foge do sensacionalismo. Na sua opinião, qual é a pergunta mais incômoda ou essencial que Elize deixa no ar sobre a natureza humana ou sobre como consumimos esse tipo de história?
Esse tipo de caso causa um fascínio irrefreável nas pessoas. Acho que o porquê isto se dá é uma das perguntas centrais, que me chamam atenção. O que nos atrai tanto numa história assim? Será que sentimos que isto é tão do humano que poderia passar com qualquer um de nós? O que nós faríamos se estivéssemos naquela mesma posição, naquele mesmo lugar? Se tivéssemos tido aquela vida? São perguntas talvez impossíveis de responder plenamente, mas (por isto mesmo?) interessantes, que perturbam, nos tiram de uma zona de segurança. Tenho visto manifestações das mais diversas em relação ao filme, e gerar debate e reflexões não tão superficiais geram um resultado que considero positivo para ampliarmos nosso olhar.
Em Ben-Hur, você interpreta Élio, um governador hedonista e habilidoso que se delicia com os meandros do poder. Como foi construir a sarcasmo e a astúcia desse personagem em meio ao ambiente de tensões políticas e religiosas da série? Houve alguma referência histórica ou contemporânea que te inspirou?
Estudei muito a época e o momento social e político da região. Tivemos palestras a respeito da obra literária, que originou os filmes anteriores, e assisti filmes que retiravam o momento histórico. Compreender a forma de organização política, as hierarquias, e as relações entre as personagens e as ‘castas’ na história foram ponto central. As características principais de Elio afloraram à medida em que me permiti sentir em cena, como ator, um prazer sem freios, da mesma forma que o próprio personagem se sentia. Isso funcionou bem, criou dinâmicas e relações com os outros personagens que conferiram ao Elio a empáfia e graça que eu estava buscando.
Você nasceu e cresceu no Recife, um celeiro de artistas e movimentos culturais. Como a "cena artística pernambucana" se manifesta na sua forma de atuar ou de enxergar o ofício até hoje?
Acho que pluralidade presente na formação e na manifestação artística pernambucana me influenciam. Também a tal da pirraça. O artista e o povo pernambucano são inquietos, irrequietos, provocativos. E sobretudo a mistura, essa coisa de querer misturar, da coisa não ser uma coisa só. Essa busca incessante pela originalidade, pela própria voz. O movimento Armorial e o movimento Mangue são dois exemplos muito ricos.
Você começou a carreira em 1995 com a peça Os biombos, de Jean Genet. Olhando para trás, que lição ou sensação daquele primeiro contato com o palco ainda te acompanha em cena, três décadas depois?
Sigo com um sentimento inexorável de que tenho há propósito nisto que faço. Isso senti no primeiro dia que pisei em um palco diante de uma plateia e trago comigo até hoje. A convicção (não na cabeça, mas no coração) de que a arte transforma e de que há coisas que só a arte transforma. E que por isso ela é fundamental para o ser humano.
Você já interpretou personagens muito diversos, como um surdo-mudo chapliniano em As filhas da mãe, um jovem dividido entre a fé e a malandragem em Cobras & Lagartos, e o Jujuba em Cine Holliúdy. Qual desses papéis, ou algum outro, foi o mais desafiador tecnicamente e o mais transformador como ser humano?
Fiquei um tempo nessa pergunta, mas, honestamente, não sei se sei responder. São personagens muito diversos, repletos de contrastes e complexidades. Feitos em momentos muito diferentes da vida, também. Tecnicamente o personagem mais desafiador que já interpretei acredito que foi o Antônio, do filme A máquina. Ali, eu precisava dar conta da responsabilidade de interpretar no cinema um papel que no teatro dividi com outros grandes atores e que na versão cinematográfica, dividia com Paulo Autran. Além disso havia um volume enorme de cenas e de eventos tecnicamente muito desafiadores.
Você está desenvolvendo um filme sobre o pintor Cícero Dias em parceria com seu irmão e com a REC Produtores. O que, especificamente, na vida ou obra de Cícero Dias te fascina a ponto de querer adaptá-lo para o cinema, especialmente com o Recife como pano de fundo?
Cícero me inspira de diversas formas. Sua trajetória, de menino criado no engenho até ser um expoente da pintura brasileira na França, centro do mundo artístico da época, que passeou por escolas e gêneros, que nunca se rendeu aos cânones, que sempre buscou uma pintura viva, brasileira, original. Que nunca viveu pra se submeter ou agradar outros, que dedicou sua vida por uma busca incessante pela arte e pela liberdade. Ele lutou politicamente, nunca se calou diante das injustiças e arbitrariedades. E mesmo assim (ou talvez por isso mesmo) não é conhecido e reconhecido como deveria. Ele desagradou governos, se manifestou contra a ditadura de Vargas e contra o nazismo. É uma figura vasta, especial!
Você dirigiu e roteirizou o curta 30 Moedas, que aborda um embate de classes e corrupção sistêmica. Como sua experiência como diretor e roteirista influencia seu olhar quando você está apenas atuando? Você se pega pensando na cena como um todo, mesmo quando está focado no seu personagem?
A experiência como diretor e roteirista tem amplificado esta percepção da cena como um todo, do modo como aquela história está sendo contada, das escolhas de lentes, movimentos de câmera, enquadramentos e também me trazido uma consciência mais expandida do percurso narrativo da história que estou contando. É um sentimento gostoso, a excitação da descoberta de algo novo, de um novo aprendizado sobre algo que já tenho feito há mais de 30 anos.
Sua carreira transita com fluidez entre o cinema, a TV e o teatro. Comparando as três experiências recentes — o longa da Netflix, a superprodução Ben-Hur na Record e o projeto autoral sobre Cícero Dias — o que cada um desses formatos exige de diferente de você como artista e como eles se complementam?
Pensando do ponto de vista dos personagens e seus percursos, os três projetos são oportunidades incríveis de investigar a alma e o desejo humano. Heitor é uma criatura mundana, vil, mordaz. Elio é um homem e vulgar, inteligente e poderoso e Cícero é um poeta, um ser político, justo, inquieto. Todo personagem te ensina algo e o que você aprende com um te ilumina sobre os outros. Em relação aos formatos, também são caminhos e aprendizados diferentes. O filme da Netflix tem na sua feitura uma pulsação diferente, intensa e condensada. Ben-Hur é muito mais cadenciado, rodado ao longo de meses, muito mais curtido. E o Cícero será um projeto cinematográfico, ainda mais curtido e artesanal. Os tempos de maturação de cada obra se apresentam, e aprender a compreender e respeitar cada processo é essencial.
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