
Em 2012, o Brasil parou para acompanhar um dos crimes mais emblemáticos do país, quando Elize Matsunaga assassinou e esquartejou o marido, Marcos Matsunaga, um dos herdeiros da marca Yoki. Mais de uma década após o caso, a Netflix revisita a história no filme Elize: Sombras de uma mulher, explorando as camadas de uma personagem que segue dividindo opiniões e julgamentos. Ao retratar bastidores de um relacionamento turbulento que resultou em um crime estarrecedor, a produção ficcional traz à tona a discussão: o que a levou a esse ato tão brutal?
Protagonista do filme, Lorena Comparato lembra de, ainda durante a fase de testes para viver Elize, pensar: "É uma personagem tão complexa que quero ter a oportunidade de, pelo menos uma vez na vida, fazer ela", lembra. "Me preparei muito, estudei demais, me baseei em tudo que estava disponível na internet — notícias, fotos, vídeos e inclusive o documentário da Netflix, que usei como base. Entendi, ali, que estava de frente a uma mulher com muitas camadas, uma história que é uma fatalidade absurda e que chocou muito o nosso país", recorda a atriz.
A dimensão da personagem fez com que Lorena se interessasse ainda mais por contar a história de Elize. "É uma narrativa que gera temas importantíssimos para nossa sociedade. Discute a questão de gênero, de classe social, da violência e do desarmamento", lista a atriz. "É uma história que muitos de nós já conhecemos. Mas a gente, por meio desse filme, tem a oportunidade de imaginar a intimidade daquele casal, imaginar como foi essa história no pessoal", destaca Lorena. "E tudo com esse respaldo de que é uma ficção. A gente não tem nenhuma vontade de achar que esse filme é um documentário. É uma ficção que conta uma história real", ressalta.
Apesar do viés ficcional, Lorena revela que, para construir a personagem, se baseou nos laudos do processo e nos depoimentos dados por Elize à polícia. "Eu baseei muito no que tinha de verdade", declara a atriz. "Vi muitas reportagens e li muitos artigos também. Muita coisa que se sabe sobre Elize e essa história muito particular que ela tem, de uma mulher que mata o marido. Essa narrativa foi muito explorada na internet e foi muito interessante assistir diversos pontos de vista para eu conseguir filtrar e contar nesse recorte que a gente escolheu contar", detalha.
"Para mim, foi muito bom como atriz ter esse material do fato que aconteceu real, mas também foi muito bom poder, junto com a direção e os roteiristas, decidir ter esse distanciamento do real e de se apegar ao roteiro para contar a nossa história", diz Lorena. "Sei que, como o público é sempre muito curioso, com certeza vão pesquisar sobre o que é real e o que não é, até pela proximidade de tantas imagens que a gente vê durante o filme e que ficam bem próximas do que aconteceu na realidade", adianta a atriz.
Preparação
Para interpretar um papel tão denso quanto Elize, Lorena revela que precisou de acompanhamento psicológico durante todo o processo. "Fazia sessões específicas para mim e sessões específicas para ela. Tive toda uma construção para entender esse psiquê dela e eu acho que nesse lugar de compreender ela e esse personagem, consigo distanciar ela totalmente de mim. Acho que foi um processo muito intenso, difícil e desafiador, com muitas camadas", descreve a atriz.
"Acho que sempre que estamos próximos à morte, violência, sangue, crime… É muito pesado. Então, tinha uma aura de muito respeito e cuidado de todo mundo da equipe sabendo dessa responsabilidade que a gente tem de contar essa história", pondera Lorena. "Não é fácil fazer um filme desse, contar uma história dessa, acredito que, possivelmente, não vai ser tão fácil assim assistir. Mas sinto que nós, como seres humanos, temos um certo fascínio pelos absurdos da vida e esse filme fala um pouco disso", acrescenta.
Mesmo em meio a cenas de caça animal e convívio com cobras, as filmagens mais desafiadoras para Lorena foram as do crime. "Sinto que o corpo do artista, às vezes, não sabe discernir muito bem o que é a realidade e o que é a ficção. Era muito difícil, era muito sangue. Esses momentos eram bem complicados", admite. Durante as gravações do assassinato, foram utilizadas próteses que simulavam o corpo.
Em família
O novo filme da Netflix não é a primeira ficção que retrata Elize Matsunaga. Lançada em outubro de 2025, Tremembé, do Prime Video, traz uma realidade ficcional da assassina dentro do chamado "presídio dos famosos". A coincidência é que, no seriado, a irmã de Lorena, Bianca Comparato, faz parte do elenco como Anna Carolina Jatobá, condenada a 26 anos de prisão por matar a enteada, Isabella Nardoni.
"Quando consegui o papel, a Bianca e a Fabiana — somos três irmãs e melhores amigas — foram as primeiras pessoas a saber. E a Bianca foi muito cuidadosa comigo, porque ela tinha acabado de fazer o projeto em que ela interpretou a Anna Carolina Jatobá. Creio que a nossa conexão ali foi muito pessoal", detalha Lorena.
"Ela teve muito uma preocupação comigo de como eu ia ficar, porque ela sabia o quão denso é contar uma história que tem bastante crime envolvido. Tive uma troca grande com ela nesse lugar do pessoal e também da construção de personagem", lembra a atriz. "A Bianca teve uma grande preocupação comigo e com o meu bem-estar, e isso é muito nobre e importante em um filme como esse. Ela foi um porto seguro para mim, como ela sempre é", finaliza.

Diversão e Arte
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