
Foi há 62 anos que Othon Bastos encenou uma das cenas mais importantes do Cinema Novo. No papel de Corisco, em Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, ele ziguezagueia e foge da morte no sertão deserto enquanto Sérgio Ricardo canta "Se entrega Corisco / Eu não me entrego não / Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão". A música Perseguição, fruto de parceria entre Ricardo e Glauber, virou um lema para Othon Bastos, que apresenta o monólogo Não me entrego, não! a partir de hoje e até dia 14 de agosto na Caixa Cultural.
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Aos 93 anos, Othon Bastos nunca havia subido ao palco para fazer um monólogo. Há pouco mais de três anos, ele procurou o diretor e dramaturgo Flávio Marinho para criarem um espetáculo juntos. "Perguntei se ele gostaria de fazer um trabalho comigo sobre a minha vida artística, a minha vida como ator. Ele me disse que ia pensar e resolveu aceitar. Então, eu conversei com ele, ele me entrevistou várias vezes, conversamos muito e levei umas 700 páginas mais ou menos, de coisas que eu lia, de poesias, de pensamentos, de tudo sobre a vida", conta Bastos, em entrevista ao Correio.
Uma das recomendações do ator ao dramaturgo foi que não queria nenhum tom amargo nem falar sobre passagens tristes da vida. Nada de morte do pai, morte da mãe e afins. Bastos queria falar da vida, da alegria de estar presente na vida cultural do país há mais de sete décadas. "Falei: vamos falar da vida e da alegria de viver, que eu acho que é uma das coisas mais importantes, você aproveitar a vida, saber viver e saber ter a vida como uma companheira sua. E foi o que o Flávio fez. Fez muito bem para mim", lembra. O difícil foi selecionar trechos e momentos que resumissem mais de 70 anos de carreira em uma hora e meia de monólogo. A dupla não queria excluir nenhum viés e a ideia era incluir teatro, cinema e televisão, já que Bastos trabalhou muito em todos eles.
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O maior desafio, ele garante, foi olhar para si mesmo. O monólogo passeia pela trajetória do ator sem nunca esbarrar na nostalgia ou na melancolia. Othon Bastos começou a carreira no teatro em 1951, mas foi uma década depois que deu os primeiros passos nas experiências mais definidoras da produção audiovisual brasileira. Em 1962, fez O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, e, dois anos depois, estava em Deus e o diabo na terra do sol. Não me entrego, não! estreou em junho de 2024 e, em 2025, Bastos ganhou na categoria Melhor Ator no Prêmio Shell. A peça já foi vista por mais de 100 mil pessoas. "Eu escolhi o que gostaria e gostava e estou até hoje fazendo isso com um prazer enorme no palco, contando e me doando às pessoas. Para que ser inteligente, culto, preparado e guardar tudo para você?", conta o ator, que conversou com o Correio sobre o espetáculo.
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Entrevista // Othon Bastos
No monólogo, você revisita várias memórias. Esse processo foi especialmente emocionante para alguma lembrança específica?
Não. Eu acho que toda memória, tudo que você revisita na sua vida tem um porquê. Você revisita porque você gostou disso, se lembrou. Eu nunca farei uma biografia a meu respeito porque acho a biografia uma coisa de momento. Acho a biografia uma coisa muito estranha. Você fala coisas nas quais nem sempre acredita. É por isso que eu acho que o Jung tem razão quando diz: "Olhe-se no espelho e pergunte: Quem sou eu?". Você tem que doar aquilo que você tem de vida, de alegria, de positivo, doar aos amigos, aos parceiros, aos companheiros. A vida é doação. É como diz o Fernando Pessoa: "Trabalhar é trabalhar-se". Então, cada vez que eu estou no palco, fazendo essa peça, estou ali me trabalhando também.
"Não me entrego, não!" virou uma espécie de lema. O que essa frase título diz sobre a sua trajetória como artista e como homem?
É isso. É não se entregar nunca. É não desistir. É lutar. É aquilo: eu não vou atrás de você, porque eu não sei se eu seguirei o seu caminho. Eu não vou na sua frente porque eu não sei se poderei conduzi-lo, se eu saberei conduzi-lo. O que eu acho importante é você estar lado a lado, de mãos dadas e indo em frente.
O texto evita um tom nostálgico, como você o texto evita um tom nostálgico, não é?
É, não tem um tom nostálgico. Em vez de olhar apenas para o passado, transmite uma enorme vitalidade.
O que o senhor quis dizer sobre o presente e sobre o envelhecimento ao construir esse espetáculo?
O envelhecimento é como uma coisa que eu li que diz assim: "Você aprende na infância e só desenvolve no futuro". Você só vai entender aquilo que aprendeu na infância, no futuro, na velhice. A velhice é o conhecimento. Sem isso, como é que você vai viver? Você tem que ter conhecimento das coisas, saber as coisas. O ator é um arauto da sua época. Tem ator que diz: "Eu vejo o mundo através dos meus personagens". É isso mesmo. Cada vez que você faz uma peça ou um personagem, você carrega naquele personagem o que você está vivendo e como você está vivendo. É isso.
Qual o maior desafio de fazer um monólogo pela primeira vez aos 93 anos?
O maior desafio de fazer um monólogo falando de você é ser você mesmo. É você ali, despudoradamente falando de você mesmo. Eu não tenho pudores. Falo de mim com o maior deboche, debochando de mim mesmo. Eu aprendi como me sair bem de situações difíceis. A vida é um ensinamento para isso. Aprenda o que você tem que fazer e vá fazendo. Acredite no que você tem que acreditar, em você, como você acredita em tudo. Tudo que você faz, você tem que acreditar. Em cena, eu acredito no que estou falando, mesmo brincando comigo mesmo em cena. Eu acho que isso é a alegria de viver.
Sua trajetória passa por momentos fundadores da cultura brasileira, como Cinema Novo e clássicos do teatro. Quais personagens você considera decisivos para o artista que se tornou?
Cada personagem que você faz, se você faz, é porque tem um motivo para fazer. Eu deixei de contar vários fatos muito mais importantes, talvez, mas, no momento, eu acho que o importante é o que eu estou fazendo. O passado é passado. Não estou carregando o passado comigo. O passado, eu vou deixando, eu quero é ir em frente. Não me interessa pensar "fiz isso, fiz aquilo", não tenho a menor vontade de ficar dizendo o que fiz. Se eu fiz alguma coisa que é importante, está aí para todo mundo ver ou para todo mundo assistir, eu não preciso ficar dizendo que fiz isso, que fiz aquilo, que fiz aquilo outro. Nada. As pessoas veem o que eu fiz. É só isso.
Qual o papel do teatro hoje, em um tempo marcado pela velocidade das comunicações e pelo imediatismo no consumo do entretenimento?
Você tem que pensar muito e ver o que precisa ser dito. Eu não vou ficar me lembrando de coisas, eu tenho que viver a vida, no momento. E o importante é saber viver. Fazer arte hoje em dia é muito difícil, porque tudo é contra a cultura, tudo é contra a arte, tudo é contra. Mas você não pode viver em desespero, você tem que ter uma consciência, uma conscientização daquilo que está querendo fazer ou que vai fazer. A própria vida ensina isso.
O que o tempo ensinou ao senhor quando se trata de sucesso, fracasso e permanência? O tempo é um aliado ou um inimigo?
O tempo. Se você pudesse parar o tempo, você pararia o tempo em várias outras situações, em vários outros momentos. O tempo vem com a velocidade que ele vem e você vai ter que acompanhar. A vida é isso. A vida é uma delicadeza imensa, um cristal tão bonito. O tempo nunca foi um inimigo. O inimigo é você quem faz. Você pode saber teorias e coisas incríveis, mas se uma pessoa chega entregando a sua alma a você, você só pode responder com a tua alma.

Diversão e Arte
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