Entrevista

Odair José celebra trajetória em apresentação intimista no DF

Odair José apresenta sucessos da carreira hoje, em show na Sala Martins Pena. Ao Correio, o compositor revisita a trajetória marcada por censura, polêmicas e canções que desafiaram tabus sociais

Odair José toca os Clássicos para o público brasiliense  -  (crédito:  Bernardo Guerreiro/Divulgação)
Odair José toca os Clássicos para o público brasiliense - (crédito: Bernardo Guerreiro/Divulgação)

Considerado ícone da música brega, mesmo que contra vontade própria, Odair José foi um dos grandes fenômenos musicais dos anos 1970. Responsável por sucessos como Eu vou você tirar desse lugar e Uma vida só (pare de tomar a pílula), o compositor não só vendeu milhões de discos por todo o Brasil, como também se tornou interlocutor das "pessoas mais simples", como ele mesmo define. Em suas composições, despiu tabus e preconceitos da sociedade ao abordar temas como prostituição, métodos contraceptivos e até mesmo religião. Ele apresenta faixas como essas, e mais, hoje, às 21h, na Sala Martins Pena, com o show Clássicos, voz & violão.

Durante a ditadura militar, Odair foi um dos compositores mais censurados pelo regime. O filho de João e Maria, disco lançado em 1970, teve oito de 18 canções vetadas. Ainda assim, o trabalho se tornou o mais controverso da carreira do músico. Ao longo das 10 faixas, ele aborda assuntos como homossexualidade, uso de drogas e divórcio a partir de uma história reinventada de Jesus Cristo. Na época, o cantor chegou a ser ameaçado de excomunhão.

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Desde então, o compositor natural de Morrinhos, Goiás, lançou mais dezenas de discos — são 40, no total. "Alguns não tão bons", ele admite, lembrando dos trabalhos que sucederam toda polêmica envolvendo O filho de João e Maria. Aos 77 anos, ele prova que continua atual com o álbum Seres humanos (e a inteligência artificial), projeto mais recente da carreira, que trata da nova realidade vivida a partir da tecnologia. Odair adianta um lançamento para este ano, "que segue na mesma linha de procurar pautas que, de uma maneira ou de outra, interagem com a vida das pessoas".

Entrevista // Odair José

Sua discografia reúne quase 40 discos. De onde tira assunto para tantas composições?

Olha, fazer música está no meu DNA. Eu me descobri compositor ainda jovem, praticamente na minha adolescência. Quando eu tinha sete anos, pedi um violão aos meus pais e ganhei um cavaquinho, instrumento que entenderam como ideal para o meu tamanho. Desde então, estive envolvido com a música. E como escrevo quase sempre sobre o que observo, faço minhas reportagens em forma de canções. Devo ter por volta de 500 músicas compostas e gravadas.

Na época em que foram lançados, seus principais sucessos, como Eu vou tirar você desse lugar e Uma vida só (pare de tomar a pílula), incomodavam o público conservador. Como você lidou com isso? Essas canções incomodam até hoje?

Pois é, me lembro de conversar muito a respeito disso no início de tudo, por volta de 1969 e 1970, com um amigo em comum na época, Raulzito (Raul Seixas). Falávamos de que maneira conseguiríamos chamar atenção e achar espaços para o nosso trabalho. Ele encontrou o jeito dele e eu o meu, que foi focar minhas composições em temas que eu acreditava e acredito até hoje, usando uma poesia realista sobre assuntos que a hipocrisia insiste em manter escondido. Por isso me tornei o cara das músicas incomodativas.

Você acredita que essas composições trouxeram discussões importantes para a época?

Agradando a maioria e desagradando a minoria conservadora, acredito ter colaborado jogando uma luz sobre o que estava no escuro. Falei sobre o preconceito de um homem se apaixonar por uma prostituta e querer ficar com ela, sobre a empregada doméstica que na época não tinha o seu trabalho reconhecido pela as leis trabalhistas existentes e do anticoncepcional, com a intenção de esclarecer para as pessoas mais simples os benefícios que a pílula estava trazendo, dando a mulher mais autonomia sobre o seu corpo. Além disso, escrevi canções que clamam pelo direito da liberdade sexual e também — por que não? — pelo direito do uso da maconha de maneira recreativa. Enfim, fui e sou combatido por isso, mas acredito ter sido relevante, sim!

Você já disse que o espanto causado pelo álbum O filho de José e Maria foi tanto que, a mando de gravadoras, passou a fazer o que era conveniente para o sistema. Se arrepende de algum trabalho lançado na época?

O filho de José e Maria foi um projeto pensado em entregar ao mercado um disco que fugisse das repetições em respeito ao próprio público consumidor. Desse trabalho, eu não me arrependo, mesmo que tenha pago um preço alto por querer fazer arte e não negócios, o que é, a meu ver, uma obrigação do artista… Agora, me arrependo sim de posteriormente ter cedido à força do sistema e produzido álbuns não tão bons, o que também teve o seu preço.

O disco, rechaçado na época, é muito bem-aceito pela juventude de hoje em dia. O que mudou de lá para cá?

Uma vez me disseram que o álbum, conhecido como uma ópera rock, só começaria a ser entendido 50 anos depois, e ele foi lançado em 1977. Parece que é o que está acontecendo. O disco é o mesmo, então a conclusão vem de que as pessoas estão mudando seu conceito de avaliação.

Durante a ditadura militar, muitas músicas suas foram vetadas pela censura. O que incomodava tanto o regime nas suas composições?

Os pesquisadores dizem que sou o terceiro compositor mais vetado por quantidade, ficando atrás apenas de Taiguara e Chico Buarque. O departamento de censura tinha um propósito, já os censores tinham seus olhares e análises fundamentados em princípios morais e conceitos extremamente conservadores, e o meu trabalho era pautado em direção contrária a tudo isso. No ano de 1974, tive o privilégio e a oportunidade de estar com o General Golbery do Couto e Silva em Brasília na tentativa de conseguir reverter o veto de uma música de nome A primeira noite de um homem. Não conseguimos a liberação, mas ouvi, em tom de brincadeira e de maneira delicada, do general quando nos despedimos, que eu "parasse de dar trabalho para os censores".

Você já disse que escreve mais sobre as observações que faz do que sobre seu próprio sentimento. O que suas músicas dizem, então, sobre o povo brasileiro?

Ao me decidir por esse tipo de trabalho de observações, misturei o meu destino com o do povo brasileiro. Temos uma identificação natural por meio do que escrevo e canto, o que me deixa feliz e realizado como pessoa e profissional.

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postado em 15/08/2026 14:35
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