Foi durante o PirenópolisDOc, conhecido como PiriDoc, que a pesquisadora Aline Fernandes Carrijo se deu conta de um aspecto fundamental da obra do cineasta Vladimir Carvalho. Até então, ela conhecia apenas o longa Conterrâneos velhos de guerra, mas com a programação do festival de documentários de Pirenópolis, ela se deparou com Vila Boa de Goiás, Quilombo e Mutirão. “Eu sou goiana e nunca tinha visto documentário do cinema moderno sobre Goiás”, conta a pesquisadora, que levou a temática para a tese de doutorado realizada na Universidade de São Paulo (USP) e transformou o resultado no livro Diante da catástrofe: a modernização brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, que lança nesta terça-feira (4/8), às 19h, no Cine Brasília, com direito a debate com Sérgio Moriconi. O debate ocorre após a exibição de Conterrâneos velhos de guerra, Perseghini e Quilombo, que terá início às 15hs.
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Quando assistiu aos três filmes em curto período de tempo, Aline logo começou a trabalhar em uma análise do conjunto. “Vendo os filmes em conjunto, vi a potência que tinha de uma compreensão do processo modernizador brasileiro. Comecei a analisar e, ao longo do processo, trabalhando com metodologia de análise fílmica, fui analisando quadro a quadro”, conta a pesquisadora. “Esses documentários formulam maneiras específicas de pensar o real.”
Uma das inquietações que despertaram a curiosidade de Aline foi o fato de Vladimir ser sempre descrito como um cineasta nordestino, apesar das décadas radicado em Brasília e da vasta filmografia dedicada ao Centro-Oeste (CO). “Quando você olha a historiografia do cinema brasileiro, ele é colocado como cineasta nordestino. Claro que que ele tem filmes muito importantes sobre o Nordeste, e é paraibano, mas também tem essa potência como documentarista de Brasília. Mas, na historiografia, ele não aparecia dessa forma, com essa perspectiva nacional. Isso foi me inquietando”, conta.
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Aline separou o livro em três partes. Na primeira, Memórias resistentes, ela analisa Vila Boa de Goyaz (1974), Quilombo (1975) e Mutirão (1975). Os dois últimos mostram como existia, no Centro-Oeste, uma população que foi altamente impactada pela construção de Goiânia e de Brasília, mas que também resistiu ao esvaziamento de suas comunidades e ao aniquilamento de seus modos de produção artesanal. Em Momentos de guerra, Aline mergulha em Conterrâneos velhos de guerra e Brasília segundo Feldman para fazer uma analogia entre a construção da cidade e o trabalho de forma geral. “Nesses filmes, ele contrapõe Brasília como epopeia modernista com a epopeia dos trabalhadores, as mortes, as péssimas condições de trabalho e os trabalhadores jogados para a periferia da cidade, quando não são acolhidos pela cidade que ajudaram a construir”, conta a pesquisadora.
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Aline lembra que Brasília segundo Feldman é marcado por uma tensão constante ao levar para a tela o olhar de Athos Bulcão, que enaltece o projeto utópico do nascimento de uma cidade no coração do Brasil, contraposto pelas reflexões de Perseghini, que não hesita em apontar as tragédias humanas que marcaram a construção. “E Conterrâneos velhos de guerra é uma grande ópera trágica da construção de Brasília a partir do ponto de vista dos trabalhadores”, lembra.
Na última parte, Memórias interrompidas, Aline se concentra na análise de Perseghini que, segundo ela, traz uma visão mais ampla desses processos de modernização. “É a personalização de um heroi trágico. É um filme super simples e Perseghini é um imigrante, tem uma trajetória incrível e, no fim, acaba numa situação de pobreza extrema e numa travessia inconclusa. Ele representa muito essa promessa de um país que vai se completar, mas que nunca se encerra, que está sempre nessa travessia”, explica Aline, que encerra o livro com uma reflexão sobre o curta-metragem A paisagem natural (199), filme ensaístico no qual Vladimir registra o cerrado e imagens de Brasília.
Para a pesquisadora, essas as imagens são uma maneira de sintetizar a modernização brasileira, a mesma que o cineasta explora ao sobrepor comunidades tradicionais e a cidade modernista em diferentes temporalidades, ao longo da obra. “O processo de modernização brasileira aparece de duas formas. A partir do próprio modo de vida das pessoas que aparecem, do discurso dos sujeitos históricos comuns e também a partir da visão do Vladimir desses modos de vida”, explica.
Vladimir Carvalho, ela entende, tem um papel fundamental como documentarista exatamente pela multiplicidade de olhares e perspectivas, uma combinação que começa com a prática cinematográfica no Nordeste e se amplia quando passa a focar o Centro-Oeste. “Ele passa a compreender a realidade pelos olhos de quem vem para o Centro-Oeste, mas como um migrante, também traz um olhar original para a modernidade brasileira no cinema moderno. Não tem nenhum outro documentarista da mesma época que consegue trazer uma análise como essa. É um olhar original, por isso a necessidade de analisar a obra dele de maneira mais ampla pensando a interação dos filmes do Nordeste com os do Centro-Oeste. O recorte que fiz mostra a potencialidade do olhar dele sobre os processos de modernização brasileira em uma visão que é muito deixada de lado quando se trata da visão hegemônica construída a partir do eixo Rio-São Paulo”, garante Aline.
Serviço
Diante da catástrofe: a modernização brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho
De Aline Fernandes Carrijo. Editora Cubile, 283 páginas. R$ 90. Lançamento nesta terça-feira (4/8), às 19h, no Cine Brasília, com debate após a exibição dos filmes Conterrâneos velhos de guerra, Quilombo e Perseghini. Os filmes serão apresentados a partir das 15h.
