CRÔNICA DA CIDADE

Crônica: O diário que nunca tive

A possibilidade de registrar meus pensamentos e experiências mais íntimas, mesmo que num espaço, em teoria, seguro, me deixava apreensiva

Quando era moda, tentei começar um diário. A pré-adolescência é um período duro, e a companhia de um lugar onde possamos compartilhar aquilo que nos alegra ou aflige é sempre bem-vinda. Talvez, tenha preenchido umas duas ou três páginas, mas nunca me animei em engatar na rotina de escrita diária. Preferia me dedicar aos livros que reservávamos semanalmente na biblioteca da escola e a algumas poesias que arriscava escrever.

A possibilidade de registrar meus pensamentos e experiências mais íntimas, mesmo que num espaço, em teoria, seguro, me deixava apreensiva. Vai que alguém encontra aquele apanhado de textos por vezes sinceros, outras nem tanto. Era assim nos filmes. Sempre que alguém escrevia um diário para si as páginas acabavam nas mãos de quem não deveria ter acesso a elas. Amigo, namorado, irmão, pais, tios, avós. Era um risco, na certa. Eu lá ia querer corrê-lo? De jeito nenhum!

Um ano atrás demos um diário para a minha filha mais velha. Desses que, na verdade, são mais um livro de completar lacunas, respondendo a perguntas. Bem adequado para a idade dela, que estava aprendendo a ler e a escrever. Veio até com um cadeado, cuja chave, àquela altura, ela preferiu guardar dentro do próprio diário, já que, maior que o risco de alguém ler o conteúdo do caderno era o de ela própria perder o item.

Agora, ela claramente está decidida a seguir um caminho diferente do meu. Pediu um diário de verdade. Nada de um livrinho de perguntas e respostas. Ela quer um caderno pautado que conceda a liberdade de preencher as linhas como bem entender. Decidida como ela só.

É claro que estamos diante de um momento de transição. A escrita começa a se tornar familiar, a leitura flui como se fosse dom inato e abre caminhos para um futuro de independência. De repente, o risco de uma crise alérgica diminui, uma vez que ela mesma consegue ler os rótulos. A escolha de um filme se torna bem mais fácil, basta parar e ler a sinopse. E as letras das músicas ajudam a não errar nem mesmo o ritmo da canção. E ai de quem tentar enganá-la. A velocidade é tamanha que nem mesmo tentar driblar a pequena é tarefa fácil.

Ainda não começamos a jornada pelo mundo do diário. Ou melhor: ela ainda não começou a escrever. Aguarda ganhar o lindo e simples caderninho pautado. Se vai se empenhar tanto quanto eu não me empenhei é o que vamos ver.

No fim, acabo fazendo destas crônicas meu diário. Com aquilo que posso compartilhar num universo muito maior. Mesmo sem o caráter confidencial, não deixa de ser terapêutico. Afinal, não é essa a vocação de qualquer escrita? Quem canta seus males espanta, e, quem escreve, também. Com certo atraso, chegamos a Hamnet, um dos celebrados filmes do Oscar, que conta parte da história de William Shakespeare, uma das mais difíceis. Seu único filho homem morreu ainda na infância e a produção mostra como em Hamlet ele transforma o luto em arte, combinado a poesia e encenação no palco. Escrever para si e para os outros é parte do que nos torna mais humanos.

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