Resistência

O golpe contra a censura: Livro reúne artistas que driblaram a ditadura

Livro de Miguel de Almeida reúne histórias de artistas, escritores, cineastas e jornalistas que usaram humor e criatividade para driblar a censura durante a ditadura militar

"A censura, no geral, é muito burra", afirma o autor - (crédito: kleber sales)

Cansado de ter composições censuradas pelo regime militar, Chico Buarque criou, na década de 1970, o pseudônimo Julinho da Adelaide. Sob o anonimato, o sambista inventado pelo carioca tinha canções liberadas sem qualquer corte. Uma das que passou batido pelos censores foi Acorda, amor, de 1974, em que ele canta: "Chame o ladrão!", ironizando o fato de que, na época, criminosos poderiam ser mais confiáveis do que a própria polícia, agentes do sistema repressor. O verso dá título ao novo livro do jornalista Miguel de Almeida, que reúne essa e outras histórias de como a ditadura foi driblada por artistas, escritores, cineastas e pela imprensa.

Projeto que sucedeu o documentário Não estávamos ali para fazer amigos e o livro Primavera nos dentes — obras que também retratam o período da ditadura —, Chame o ladrão foi escrito após três anos de pesquisa e apuração. "Naquela época, era natural que as pessoas tivessem uma postura bastante defensiva e raivosa, porque vivíamos em um sistema autoritário praticado pelo governo militar. Mas, conversando com os entrevistados, percebi que muitos deles haviam usado diferentes artimanhas e artifícios para enfrentar a censura", conta o autor.

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Miguel define a resistência que havia entre os artistas, cineastas e jornalistas como uma espécie de "lado B da censura no Brasil". "Era um enfrentamento alternativo desse sistema, bem característico do brasileiro, porque utilizava do humor e da malandragem para driblar o aparelho autoritário", explica o escritor. "Nós sempre tivemos uma capacidade de invenção e reinvenção diante desses percalços que são colocados pela política, então acho que partiu daí", opina.

A cultura silenciada no período militar era resultado de uma grande ebulição criativa da época, segundo Miguel. "Em 1964, estávamos a 20 anos da derrubada do governo de Getúlio Vargas, que também era uma ditadura com um aparelho sensório brutal de mortes e perseguições. Então, essa geração que é surpreendida pela censura na década de 1960 foi criada na liberdade, na divergência de ideias e na relação do Brasil com o mundo, porque era uma época de urbanização muito grande do país com seus pares internacionais", lembra o autor. "O brasileiro não iria enfrentar isso de cabeça baixa, muito pelo contrário", acrescenta.

A censura é burra

Para Miguel, os jornalistas, músicos e escritores driblaram o regime militar com "a melhor das armas", a inteligência. "A censura, no geral, é muito burra. Ela é incapaz de vencer a criatividade", declara o autor do livro. "E ainda por cima, tratava-se de um sistema repressor que funcionava de uma forma quase que improvisada, com funcionários muito desqualificados. Nenhum deles tinha curso superior, por exemplo. Não é à toa que um deles chegou a mandar prender Sófocles e outro, Shakespeare, porque eram autores considerados subversivos", narra o jornalista. Bem-humorado, o autor brinca: "Nenhum dos dois foi preso, já adianto".

O episódio, diz ele, é só um entre tantos que escancaram a falta de conhecimento do corpo censório. Quando o "golpe" de Julinho de Adelaide foi descoberto, os militares definiram que artistas só poderiam registrar músicas portando a carteira de identidade com foto. "A partir daí, eles começaram a fazer letras completamente absurdas, por exemplo, Noel Rosa em Três apitos. No meio dos versos, colocavam algum texto retirado do jornal ou frases aleatórias que seriam ofensivas para a censura. Aí, eles cortavam essa parte e deixavam apenas o essencial, que era exatamente o que os compositores queriam", relata.

Outra história contada por Miguel em Chame o ladrão é a do romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. "O livro foi censurado, mas continuava à venda, porque eles não tinham carros para buscá-los. Também havia os escritores que distribuíam suas obras em diferentes galpões e deixavam só uns 10 exemplares na editora, para, caso houvesse alguma batida policial, o material já estivesse distribuído", cita o autor. "A cada golpe que a censura dava, a sedição criativa reagia com inteligência e bom humor", destaca.

Na imprensa, o Pasquim se tornou sinônimo de resistência à censura. "O general que liberava os textos pedia para que o pessoal os levassem à casa dele, porque não queria ir à redação. Foi aí que eles descobriram que, toda tarde, em um determinado horário, ele recebia garotas de programa lá. Então, eles passaram a levar o material no mesmo momento em que elas chegavam, porque aí o militar ficava desesperado e liberava tudo, só pensando na moça pelada que o esperava no quarto", ri o autor.

As publicações do Pasquim da época foram resultado da inteligência e bom humor do cartunista Jaguar e do editor Ivan Lessa, defende Miguel. "Eles derrotaram um brasileiro autoritário e hipócrita, porque, eventualmente, o general acabou sendo suspenso da função por não conseguir equilibrar a censura e o adultério que cometia", revela. "Toda vez que eram censurados, eles conseguiam inventar situações como essa", ressalta o escritor, que também menciona no livro o caso da censora que se embriagava e liberava todos os textos do jornal.

Cinema na ditadura

No capítulo dedicado ao cinema, Miguel revisita a história do militar que tentou cortar o ator principal do filme Como era gostoso o meu francês (1971), Arduíno Colassanti, porque "ele aparecia nu e o pinto dele era muito grande". "Imagina a situação: o coronel dizendo para o Barretão (Luiz Carlos Barreto), produtor do longa, que poderia pegar mal para outros homens, mas que não era o caso dele, porque era uma pessoa bem dotada", reclama o autor.

Luiz Carlos Barreto ainda é lembrado em outro caso narrado no livro, quando Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto, teve indicação de 13 cortes pela censura. "Ia acabar com o filme", afirma Miguel. Por sorte, o produtor acabou encontrando, em Brasília, Amália Lucy Geisel, filha de Ernesto Geisel, então presidente da República. Barretão explicou o ocorrido a ela, que prontamente pediu que enviasse o longa para o Palácio, para exibição no dia seguinte, durante a festa de aniversário do pai.

"O Barretão respondeu: 'Eu não posso fazer isso. Vai acabar com o meu filme'. Mas ela disse: 'Fica tranquilo, eu me responsabilizo. Meu pai é uma pessoa liberal, minha mãe mais ainda'", descreve Miguel. No final de contas, a filha de Geisel estava certa — todos adoraram o longa. "Quando Amália contou ao pai que indicaram 13 cortes ao filme, ele disse que não havia nada a ser censurado e que iria falar com Armando Falcão, então ministro da Justiça", continua o autor.

No dia seguinte, o produtor foi chamado para uma reunião com o chefe da censura, que informou a liberação da película. "Apesar do pedido direto de Geisel, ele ainda tentou cortar a cena de sexo anal entre Vadinho (José Wilker) e Flor (Sônia Braga), mas Barretão bateu o pé e sustentou que o filme deveria ser liberado na íntegra, conforme a instrução do presidente", detalha Miguel. No fim das contas, a exibição da obra foi permitida.

Eu vos saúdo Maria (1984), de Jean-Luc Godard, marca o caso que encerra o livro, já no governo do José Sarney. De acordo com Miguel, a mãe do então presidente ordenou que ele censurasse o longa, ou nunca mais entraria na casa dela. "Foi aí que a censura de fato foi rompida no Brasil, porque a fita do filme começou a ser distribuída, copiada e vendida nas banquinhas em frente ao metrô e terminais de ônibus. Se tornou uma febre e foi a última sedição contra esse sistema", aponta o escritor.

"A censura não é um ato inteligente, em nenhum sentido, porque, entre outras questões, ajuda a divulgar a obra. Muitos artistas queriam ser censurados naquela época, até porque tudo que é censurado é mais gostoso", finaliza Miguel.

Chame o ladrão

De Miguel de Almeida, Editora Record, 182 páginas. R$ 69,90 (impresso) e R$ 39,90 (e-book).

 


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postado em 27/09/2026 05:00
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