Obituário

Zuenir Ventura deixa obra que ajudou a contar e entender o Brasil

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu ontem, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. O autor de 1968: O ano que não terminou deixa um legado de livros que ajudam a entender o Brasil

Zuenir Ventura era um otimista. Mesmo nos piores momentos — e, como cidadão, ele viveu alguns, incluindo a ditadura, a pandemia de covid-19, a epidemia de aids, a hiperinflação dos anos 1980  —, conseguia olhar para o Brasil com afeto e esperança. E, curiosamente, detestava escrever, uma das coisas que ele melhor fazia ao assinar algumas das mais brilhantes reportagens do jornalismo brasileiro dos séculos 20 e 21. Deixa, portanto, uma lacuna na vida nacional a morte do escritor e jornalista. Zuenir Ventura morreu ontem aos 95 anos, em casa, em decorrência de uma pneumonia, segundo nota da Academia Brasileira de Letras (ABL), na qual ocupava a cadeira nº 32 desde 2014.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press. Brasil - Escritor e jornalista Zuenir Ventura durante visita à cidade Estrutural

Natural de Além Paraíba, no interior de Minas Gerais, filho de um pintor de parede e de uma dona de casa, Zuenir Ventura foi office boy, professor de crianças e de estudantes de jornalismo e arquivista da Tribuna da Imprensa antes de  escrever a primeira matéria, o obituário de Albert Camus, em 1960, em uma situação que ele gostava de contar como um acaso. O jovem passava pela redação quando ouviu sobre a morte do escritor francês. Como era fascinado pela obra de Camus, se ofereceu para escrever e o então editor, Carlos Lacerda, topou. 

Daí em diante, não parou mais. Mesmo assim, dizia não gostar dessa história de escrever. "Detesto escrever. É sério. Gosto de ter escrito. Nosso trabalho é penoso. Comecei no arquivo e quem me levou foi Hélcio Martins, professor da faculdade, um gênio. Ele me adotou. Eu tinha muita dificuldade de dinheiro e tal. Meu pai era pintor de parede e minha mãe doméstica. Acabei sendo professor primário. Não queria ser jornalista. Ele me levou para o arquivo da imprensa. A tese dele era: você aprende a economizar palavra. Tudo pra mim na vida aconteceu por acaso. Acho que fui gestado por acaso também", contou, em entrevista ao Correio, em 2021, quando lançou Minhas histórias dos outros, uma coletânea de textos sobre algumas das maiores figuras da vida nacional que o repórter entrevistou ao longo da vida. 

A presença no jornalismo brasileiro sempre foi constante. Além de ser professor por muitos anos da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele trabalhou em veículos como Correio da Manhã, Fatos&Fotos, as revistas Visão e O Cruzeiro, Jornal do Brasil e O Globo, além do jornal alternativo O Sol, fundado por Reynaldo Jardim. Seja na reportagem, seja em cargos de edição e direção, Zuenir olhava para o Brasil como um personagem gigante e cheio de histórias que precisavam ser contadas. "A gente fornece matéria de primeira mão, aquilo que a gente vê primeiro, para o historiador trabalhar depois. É um trabalho de garimpagem, de campo, vendo o que aconteceu, registrando. É um trabalho humilde, modesto, de preparar matéria-prima para o historiador aprofundar", contou, ao arquivo Memória Globo.

Muitas dessas histórias, Zuenir transformou em livros. O primeiro deles, 1968: O ano que não terminou, tornou-se documento fundamental para compreender um dos momentos mais dramáticos da história do país. O autor dizia que 1968 não foi um ano, foi um personagem. E que o livro, lançado em 1988, não saiu facilmente do papel. "Fui obrigado a escrever", contou ao Correio. "Minha mulher e o (editor) Sérgio Lacerda me obrigaram. Escrevi contra a vontade, achei que não ia acontecer nada com o livro." Foram mais de 40 edições para um texto que inspirou a minissérie Anos Rebeldes, realizada pela Globo em 1992. 

Nos anos seguintes, viriam muitos outros livros, frutos de reportagens com aspectos sociais e políticos que ajudavam a entender e navegar por um Brasil cada dia mais complexo. 

Em 1994, ele publicaria Cidade partida, um retrato da violência e da desigualdade no Rio de Janeiro em um momento em que o país ainda estava assombrado pela chacina de Vigário Geral. O livro ganhou o Prêmio Jabuti. Em 2003, Chico Mendes: Crime e Castigo revisitava os conflitos que culminaram com o assassinato do ativista e seringueiro de Xapuri (ASC), em 1988. Zuenir ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com uma série de reportagens sobre o crime publicadas no Jornal do Brasil em 1989. No livro, o escritor retorna ao local 15 anos depois para concluir a série de reportagens. 

Minhas histórias dos outros, publicado em 2005, traz relatos de encontros com personalidades da cultura brasileira. Estão lá algumas histórias memoráveis, como aquela em que Carlos Drummond de Andrade, poeta reconhecidamente avesso a entrevistas, pediu para ser entrevistado pelo próprio Zuenir, então diretor de redação da sucursal da Veja no Rio de Janeiro. Além de nunca ter descoberto o motivo do pedido reverso de entrevista, o escritor precisou convencer o editor da relevância de Drummond. "Drummond tinha ficado muito tempo sem dar entrevista e realmente não sei, até hoje, por que ele tinha resolvido dar a entrevista pra mim", contou ao Correio. O livro traz ainda o encontro entre alguns dos maiores Antônios brasileiros — o Jobim, o Callado, o Cândido e o Houaiss — para um conversa para o documentário 3 Antônios & 1 Jobim (1993), de Dodô Brandão. "Para mim, foi uma surpresa e foi muito divertido porque eram todos muito engraçados", lembrou Zuenir, em entrevista para o Correio. 

Júnior Aragão/Divulgação - 14/04/2012. Crédito: Júnior Aragão/Divulgação. Imagem do escritor Zuenir Ventura.

Ainda em Minhas Histórias dos Outros, Zuenir conta o episódio em que assumiu a tutela de Genésio Ferreira da Silva, o menino de 13 anos que testemunhou o assassinato de Chico Mendes. O próprio ativista pediu ao jornalista que levasse o rapaz para o Rio de Janeiro pois, se não saísse do Acre, corria o risco de ser assassinado. Com permissão judicial, Zuenir cumpriu o prometido e, no Rio, acompanhou a trajetória de Genésio, que, vítima de um trauma, sofreu com a dependência alcoólica e a depressão por muitos anos. 

Na atualização para o livro, no entanto, Genésio vivia um de seus melhores momentos, estava bem e prestes a casar. "É a história mais sofrida e difícil de contar porque terminava pra baixo, eu me perguntava onde foi que errei. Mas esse telefonema dele dizendo que estava noivo e, sobretudo, que tinha deixado de beber foi a melhor coisa. A grande história dessa edição é essa: Genésio resiste", acreditava Zuenir que, em 2008, publicaria 1968: O que fizemos de nós, uma atualização do livro de 1988 com os olhares voltados para o século 21. O legado da geração de 1968, como o feminismo, a luta contra o racismo, o movimento LGBTQIA e as conquistas sociais seriam alguns dos temas explorados por um olhar que também mirava as novas gerações, seus hábitos e inquietações. 

Zuleika de Souza/CB/D.APress — 14.4.04 - Zuenir Ventura durante apuração para o caderno especial do Correio Braziliense sobre os 44 anos de Brasília

A trajetória de Zuenir Ventura foi retratada em Mestre Zu, apelido conferido por estudantes e que deu título ao filme dirigido por Zelito Vianna. O filme reconstitui a carreira do jornalista a partir de depoimentos de amigos e colegas. Mestre Zu deixa a mulher, Mary, e dois filhos, o também jornalista Mauro e a editora Elisa. O corpo do jornalista será velado na Academia Brasileira de Letras (ABL) e enterrado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, do Rio de Janeiro.

 Zuenir em Brasília

Zuenir Ventura esteve em Brasília em diversas ocasiões. Em 2004, ele foi convidado pelo Correio Braziliense para participar do caderno 4 4, em homenagem aos 44 anos de Brasília. O projeto convidava escritores contemporâneos para escrever sobre a cidade e Zuenir dividiria as páginas da edição com Rodrigo Lacerda, Adriana Lisboa e Luís Fernando Veríssimo, além dos artistas Marcelo Camelo, Miguel Rio Branco e J. Borges e do quadrinista Maurício de Sousa. O jornalista produziu, para o caderno, uma reportagem sobre a Brasília que não está no cartão-postal e visitou, acompanhado de uma equipe de repórteres do Correio, a Fercal e a Estrutural, retratadas em um texto intitulado O ovo da serpente. Zuenir também esteve na capital em 1997 para participar da Feira do Livro de Brasília e, em 2012, foi um dos convidados da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília.

 

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Zuleika de Souza/CB/D.APress — 14.4.04 - Zuenir Ventura durante apuração para o caderno especial do Correio Braziliense sobre os 44 anos de Brasília
Zuleika de Souza/CBPress - Jornalista e escritor Zuenir Ventura (c) acompanha jornalistas da equipe de reportagem do Correio Braziliense. Brasilia, 14/04/2004