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O ator Thiago Voltolini vai da tensão à leveza entre o cinema e o teatro

O jovem ator Thiago Voltolini fala sobre como construiu um adolescente envolvido em um crime urbano em "Precisamos falar", filme que estreia nesta quinta-feira (24/9), e a transição para dar vida à Fábio Porchat em musical sobre a vida de Paulo Gustavo

O thriller psicológico brasileiro Precisamos falar, dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, chega oficialmente aos cinemas, nesta quinta-feira (24/9). O filme, que traz Marjorie Estiano e Alexandre à frente do elenco, acompanha duas famílias de classe média alta que, ao descobrirem que seus filhos estão envolvidos na morte brutal de uma mulher em situação de rua, precisam escolher entre entregá-los à Justiça ou protegê-los das consequências de seus atos.

Thiago Voltolini interpreta Michel, um adolescente criado em privilégios que participa diretamente do crime. Às vésperas da estreia comercial, o ator de 24 anos falou sobre como entende e constrói esse personagem que vem sendo descrito por parte da crítica como profundamente incômodo. “Desde o começo, eu não quis construir um vilão. Seria muito fácil colocar o Michel em um lugar de alguém sem emoção, sem humanidade. O caminho mais fácil seria dizer que ele é um psicopata, que existe uma questão biológica por trás e que ele simplesmente não sente nada, mas eu acho que isso deixaria a história menos interessante”, defende.

O ator diz que sua preparação se concentrou no “menino antes do ato”. “O Michel é fruto do ambiente em que cresceu, da criação, das relações e da bolha em que viveu. Isso não justifica o que ele fez, mas torna tudo mais assustador, porque ele não é um personagem distante de filme. Ele é um menino real, ele existe”, reflete.

A sombra de casos reais

O incômodo provocado por Michel está justamente em sua ancoragem na realidade. Thiago cita dois casos brasileiros que marcaram o país — o caso do cachorro Orelha e o caso do índio Pataxó, em Brasília — como referências para compreender o personagem. “É assustador perceber como o filme está próximo da nossa realidade. Eu tentei trabalhar muito essa contradição: ele pode ser frio, mas também pode ser doce, pode ser filho, pode ser amado. Essa dubiedade foi o que eu mais busquei”, relata.

Uma das cenas que mais marcaram o intérprete foi justamente quando Michel conta individualmente a cada um dos pais o que aconteceu. “O meu maior desafio nessa cena era tornar os dois lados visíveis: o que é verdade, o que é a versão dele, o que pode ser inventado. Queria causar esse desconforto desde a apresentação do personagem e deixar a plateia insegura sobre quem é o Michel”, conta.

Caio Brum - Thiago Voltolini, ator

O ator afirma que, embora não costumem levar o personagem para casa, são cenas que ficam na memória pela intensidade da troca com os veteranos Marjorie Estiano e Alexandre Nero. O cerne de Precisamos falar está no dilema dos pais. “Com certeza, e é mais difícil ainda me descolar dessa situação estando na posição do filho. Claro que eu gostaria da proteção dos meus pais, mas como julgar isso estando dentro dessa relação? Acho que essa discussão é muito forte justamente porque, dependendo do lugar que você olha, você encontra caminhos diferentes”, questiona-se.

Para ele, o valor do filme está em não oferecer respostas prontas: “O filme não traz uma resposta do que deve ser feito. Ele traz uma discussão, um olhar mais atento para as relações familiares. Para mim, esse é um dos maiores valores do nosso filme”. O ator também aponta uma “hierarquia muito desorganizada” dentro da casa de Michel. “O menino acaba ocupando um lugar muito grande, quase como se fosse o dono daquele ambiente. Ele tem muita liberdade, muita proteção, e os pais acabam tendo dificuldade de enxergar quem ele é fora daquela relação”, conclui.

De “monstro” a humano

Enquanto Precisamos falar chega aos cinemas, Voltolini vive uma realidade completamente oposta nos palcos. Ele integra o elenco de Meu filho é um musical, produção que celebra a vida e a obra de Paulo Gustavo, na qual interpreta o amigo Fábio Porchat.“Acho que essa pluralidade é uma das coisas mais bonitas de ser ator. Sair de um personagem como o Michel e, ao mesmo tempo, viver o Fábio Porchat em uma história tão cheia de amor e humor mostra justamente como a profissão permite explorar lugares completamente diferentes”, celebra.

Voltolini conta que sempre admirou Porchat como artista e que este é seu primeiro musical. “Eu sempre tive muita vontade de experimentar essa linguagem, em que você canta, atua, dança e faz humor no palco”, diz. Sobre a responsabilidade de interpretar uma pessoa real e viva, ele é categórico: “Não tentei fazer uma imitação, trouxe a minha versão do personagem e me divirto muito todas as noites no teatro. Como artista, é isso que me move: continuar experimentando novos caminhos e me divertir tanto na comédia quanto no drama”.

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