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Emanuelle Araújo fala sobre "o que permanece quando o tempo passa"

A atriz Emanuelle Araújo retorna às novelas após seis anos, em "A nobreza do amor", e celebra raízes baianas, como vantora, no álbum "Corra para o mar", que revisita o axé, os blocos afro e as memórias musicais dos anos 1990. "Um disco de afetos"

Emanuelle Araújo, atriz e cantora -  (crédito: Pablo Grotto)
Emanuelle Araújo, atriz e cantora - (crédito: Pablo Grotto)

Plena aos 50 anos, Emanuelle Araújo vive uma fase em que diferentes partes de sua trajetória parecem se encontrar. Na televisão, a atriz interpreta Marta em A nobreza do amor, personagem que atravessa uma importante virada. Na música, a cantora acaba de lançar Corra para o mar, álbum em que retorna às próprias raízes baianas para revisitar a sonoridade do axé, a força dos blocos afro e a efervescência musical que marcou sua formação artística nos anos 1990. Entre uma frente e outra, existe um mesmo fio: a busca por identidade, liberdade e pertencimento.

Marta chega a um momento decisivo da trama justamente quando aquilo que acreditava conhecer começa a se transformar. As revelações recentes alteram relações, certezas e afetos e abrem novas possibilidades para uma personagem que já carrega, desde o início, a marca de quem não aceita passivamente o lugar que lhe foi reservado. Para Emanuelle, essa complexidade foi um dos principais motivos para aceitar o papel. "A Marta é uma personagem muito complexa, e foi justamente isso que me atraiu. Ela é uma mulher cheia de privilégios, inserida numa sociedade extremamente rígida, mas que, de alguma maneira, não se acomoda totalmente ao lugar que aquela época reservava às mulheres", afirma a atriz. "Ela tem força, inteligência, contradições, desejos e uma grande necessidade de conduzir a própria vida", completa.

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Ambientada em outra época, Marta vive sob regras sociais que determinam comportamentos, afetos e possibilidades de escolha. Ainda assim, a personagem não se resume à mulher que desafia convenções. Suas contradições também são importantes para Emanuelle, que encontra justamente nessa zona de conflito a riqueza dramática da personagem. Marta dispõe de privilégios, mas não está completamente livre; tem poder em determinados espaços, mas também está submetida às estruturas do seu tempo. A cada nova revelação, essas tensões ganham outras dimensões. 

O retorno à teledramaturgia da TV Globo também acrescenta uma camada especial ao momento profissional. Depois de seis anos longe da emissora, Emanuelle reencontra a televisão em uma produção que dialoga diretamente com questões que atravessam sua própria identidade. "Além disso, interpretar uma mulher nordestina sempre me traz uma alegria profunda. Voltar com uma personagem tão rica e dentro de um projeto que valoriza a nossa herança africana e a cultura nordestina, tem sido muito especial", relata. Para ela, a volta acontece em sintonia com uma fase de maturidade: "É um retorno que acontece num momento de maturidade pessoal e artística".

Embora Marta pertença a uma novela de época, Emanuelle identifica nela uma inquietação que continua atual. A personagem quer participar das decisões sobre a própria vida, mesmo quando as estruturas ao redor tentam determinar o que seria aceitável para uma mulher. A atriz reconhece nessa busca uma aproximação com a maneira como construiu sua própria trajetória, embora ressalte as diferenças entre as duas realidades. "Marta deseja ter voz sobre a própria existência. Mesmo vivendo na década de 1920, ela questiona, se impõe e tenta romper alguns limites estabelecidos para as mulheres. É claro que ela pertence a uma realidade muito diferente da minha e possui contradições próprias daquele contexto, mas reconheço nela esse desejo de liberdade", diz.

Emanuelle Araújo, atriz e cantora
Emanuelle Araújo, atriz e cantora (foto: Pablo Grotto)

Trabalhos que se alimentam

A palavra liberdade também atravessa a Emanuelle cantora. Se Marta tenta conquistar autonomia dentro da ficção, a artista construiu a carreira musical a partir de escolhas que a aproximam cada vez mais de suas próprias raízes. É nesse movimento que surge Corra para o mar, um álbum concebido como declaração de amor à Bahia e mergulho na memória musical de Salvador.

O disco reúne 10 faixas e recupera elementos do axé pop, da percussão baiana e dos blocos afro, especialmente a sonoridade que ganhou enorme força nos anos 1990. Há uma regravação de Minha história, sucesso da Timbalada, composta por Xexéu, Luizinho SP e parceiros; uma homenagem a Clara Nunes em Ijexá; e a faixa-título, parceria de Emanuelle com Capinan. O álbum conta, ainda, com participações de Tatau, em Tem não; do Ilê Aiyê, em Cadência nobre; de Davi Moraes, em Cai bem; e do Aguidavi do Jêje, em Iansa Bale. A produção é de Kassin, com mixagem de Michael Brauer, vencedor do Grammy.

Conciliar a novela e o álbum, portanto, não significou para Emanuelle dividir-se entre duas artistas. Ao contrário, os projetos acabaram se alimentando. De um lado, a atriz mergulha em uma personagem nordestina inserida em uma narrativa que valoriza a herança africana. De outro, a cantora se volta para uma ancestralidade que está no centro da própria formação. "Tem sido uma loucura conciliar dois projetos tão grandes, mas tudo aconteceu com uma sincronicidade muito bonita", conta.

Emanuelle declara que ama "profundamente" as duas carreiras e não as enxerga artisticamente separadas. Para ela, interpretar e cantar são movimentos complementares. "Viver outra persona amplia os meus horizontes, me alarga; cantar aquilo que existe de mais profundo em mim me reconecta com quem de fato sou", reflete a artista.

A conexão entre os dois trabalhos não é apenas temática. É também uma espécie de encontro entre identidade e representação. Enquanto Marta precisa negociar com as convenções de uma sociedade que tenta enquadrá-la, Emanuelle retorna às referências que ajudaram a formar sua identidade artística. "Enquanto a novela celebra a herança africana e a cultura nordestina, o disco mergulha exatamente nessa ancestralidade. Um trabalho alimentou o outro", afirma.

Corra para o mar nasce, assim, menos como um exercício de nostalgia do que como uma tentativa de estabelecer continuidade. Emanuelle prefere não tratar o repertório do álbum como uma simples volta ao passado. Para ela, a música que marcou sua juventude continua presente, incorporada ao corpo e à memória. "Eu não vejo exatamente como uma volta, porque essa sonoridade nunca saiu de mim. Essas referências vivem no meu corpo e fazem parte da artista que me tornei", pondera. A frase sintetiza o espírito do projeto: o que poderia parecer uma viagem aos anos 1990 é, na verdade, uma investigação sobre o que permanece quando o tempo passa.

Família Almeida Borges: Virgínia (Theresa Fonseca), Diógenes (Danton Mello), Marta (Emanuelle Araújo) e Aurelinda (Antonella Benvenuti).  Foto: Globo/ Estevam Avellar
Família Almeida Borges: Virgínia (Theresa Fonseca), Diógenes (Danton Mello), Marta (Emanuelle Araújo) e Aurelinda (Antonella Benvenuti) (foto: Globo/ Estevam Avellar )

Um disco de afetos

A cantora começou sua trajetória musical justamente no período de explosão do axé. Os tambores, os blocos afro, a ocupação das ruas e a mistura de ritmos não são referências externas para ela, mas parte de sua própria formação. "Brinco que, quanto mais mundo eu corro, mais baiana eu fico — e é a mais pura verdade", celebra.

Por isso, a década de 1990 aparece no álbum não como uma fotografia congelada, mas como um ponto de partida. "Os anos 1990 foram o momento do meu início na música e do grande desabrochar do axé music, um movimento muito poderoso para a cultura baiana e brasileira", lembra. Ao revisitar aquela sonoridade, Emanuelle procura também chamar atenção para as raízes que muitas vezes ficam escondidas atrás do rótulo amplo de axé. "Senti que era a hora de reverenciar essa história e, principalmente, a raiz dos blocos afro. Não como nostalgia, mas como continuidade", afirma.

É uma distinção importante para compreender o álbum. Mais do que reproduzir uma estética conhecida, a artista pretende reafirmar a vitalidade de uma música que continua se transformando. "Essa música é atemporal, continua gerando novas misturas e precisa atravessar as próximas gerações, porque é um dos grandes tesouros da nossa cultura", conclui.

A própria seleção de repertório funciona como uma espécie de autobiografia musical. Há referências que pertencem à infância e à formação, parceiros de diferentes momentos da carreira e artistas que representam dimensões distintas da cultura baiana e brasileira. A costura não está em uma fórmula sonora única, mas na memória de quem escolhe as canções. "A grande costura é a minha própria história", explica. "Um disco que fala da minha trajetória precisava ter história, e cada canção chegou no seu tempo", completa, frisando que o processo combinou intuição e pesquisa, numa construção que acabou assumindo um caráter quase biográfico. "É, sobretudo, um disco de afetos", resume.

 


  • Emanuelle Araújo, atriz e cantora
    Emanuelle Araújo, atriz e cantora Foto: Pablo Grotto
  • Emanuelle Araújo, atriz e cantora
    Emanuelle Araújo, atriz e cantora Foto: Pablo Grotto
  • Família Almeida Borges: Virgínia (Theresa Fonseca), Diógenes (Danton Mello), Marta (Emanuelle Araújo) e Aurelinda (Antonella Benvenuti)
    Família Almeida Borges: Virgínia (Theresa Fonseca), Diógenes (Danton Mello), Marta (Emanuelle Araújo) e Aurelinda (Antonella Benvenuti) Foto: Globo/ Estevam Avellar
  • Atores Emanuelle Araújo e Lázaro Ramos em cena do filme Ó Pai, Ó
    Atores Emanuelle Araújo e Lázaro Ramos em cena do filme Ó Pai, Ó Foto: Europa Filmes/Divulgacao
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postado em 05/10/2026 08:01
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