Aos 26 anos, Vini Carvalho vive um dos momentos mais importantes de sua carreira: a estreia em Habeas Corpus, série dramática em oito episódios que chegou ao catálogo global da Netflix. Dirigida por Luiz Villaça e produzida pela Café Royal, a produção debate falhas e contradições do sistema judiciário a partir da história de uma controversa defensora pública em crise e de uma brilhante estudante de direito que se unem a um grupo de universitários em busca da anulação da condenação injusta de um inocente.
Na trama, o ator paulista interpreta Silas, um jovem que sonha em ser barbeiro e se desdobra como figura paterna dedicada e afetuosa para o pequeno Ulisses, filho de sua namorada, vivida por Any Gabrielly. Enquanto apoia os estudos da companheira, Silas precisa lidar com inseguranças, frustrações e a falta de transparência que desafiam o relacionamento do casal.
Para Vini, o projeto marca um ponto de virada. "A minha confiança aumentou muito mais. Lidando com imprevistos, atores em altíssimo nível... Esses desafios, momentos que dão um frio na barriga são coisas valiosíssimas num amadurecimento e evolução até mesmo pessoal", afirma. "Não tem a possibilidade de um preparador ou diretor nenhum fazer por você, é você com você mesmo. Não dá para aprender a nadar em águas rasas, não é?", avalia.
O ator conta que dedicou muito tempo à imaginação da paternidade sem, de fato, ser. "Essa posição de assumir uma paternidade, como é o caso do personagem, me tocou muito pelo amor, a relação com uma criança, como é o Benin fazendo Ulisses, e foi um baita presente", diz. Ele descreve seu processo como uma série de mapas mentais e técnicas que funcionam bem para si — "no final, tudo parece quase um caderno criptografado".
Trajetória consistente
Com raízes no teatro paulista, Vini Carvalho vem construindo um currículo robusto nos principais serviços de streaming. Integrou elencos de produções voltadas a debates urgentes da sociedade brasileira, como as séries Sentença (Prime Video), filmada no Uruguai; Pico da Neblina (HBO Max); Rota 66: A polícia que mata e Depois que tudo mudou (ambas do Globoplay); a segunda temporada de Colônia (Canal Brasil), sob direção de André Ristum; e o longa-metragem Outra face, de Alê Barros.
"Cada trabalho me trouxe um grau de desafio para lidar, cada um com seu jeitinho. E na vida do ator eu acho isso essencial, sabe? Essa coisa de encarar cada versão sua em contextos diferentes é uma coisa mágica e que também exige cuidado para não pirar", reflete. "Cada minuto contado nesses trabalhos eu vejo com muito carinho e com o coração aberto para crescer", completa.
Para além das câmeras
Paralelamente à atuação, Vini expande sua pesquisa cinematográfica atuando como roteirista, diretor e produtor. Ao lado do realizador Johnny O'Donnell, está em fase de finalização de seu primeiro longa-metragem autoral, Cabelos compridos (Hair Days), rodado na capital paulista.
Essas funções, segundo ele, vieram de uma necessidade. "O tempo ocioso quando nós, atores, ficamos esperando por papéis me gerava muita frustração e sofrimento, então precisava encontrar algo positivo que me mantivesse trabalhando e, quem sabe, gerando mais oportunidades", explica. "É com muita paciência, pesquisa e estudo que eu ainda encaro todas essas vontades, como parte de algo único: o desejo de ser artista com A maiúsculo."
Sobre o longa, o ator adianta que o público pode esperar "algo muito único feito em São Paulo". "Eu e Johnny adoramos criar esse projeto, que veio de alguns anos atrás com muito respeito, paciência e trabalho. É um longa independente e todos sabem a dificuldade de se fazer cinema aqui no Brasil, ainda mais da forma que fizemos. Em breve, vocês verão Cabelos compridos nas salas de cinema por aqui e vai ser o primeiro de alguns projetos que já estamos doidos para começar", adianta.
Focado em consolidar sua identidade na indústria, Vini reflete sobre os próximos passos. "Com toda humildade e respeito a um início de carreira, como eu acredito ser meu caso, demora um tempo até as coisas engatarem e, cada vez mais, trabalhar em projetos que possam me desafiar e que tragam esse crescimento. Eu almejo não ficar limitado a isso, não da minha parte. Então, desejo que o mercado me enxergue como uma potência, porque eu já me sinto preparado para desafios cada vez maiores", pondera.
Sobre os riscos de manter a identidade artística em um mercado tão competitivo, o ator é direto: "Acredito que o risco sempre vai existir, mas não é algo que me ameaça. É uma escolha sentir que já atingiu um patamar e baixar a guarda para o longo caminho que percorre um artista, mas claro que a própria competitividade é um desafio, ainda mais em um mercado com uma base interpretativa tão boa como a nossa". Por isso, reforça, busca "um olhar além do ator" e se volta para seus projetos pessoais.
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