
Ao mesmo tempo em que interpreta a juíza Desideria Losada em Retorno a Buenos Aires, filme de Marco Bechis que disputa o Leão de Ouro em Veneza, a atriz Paula Cohen dá vida a Renata Vasquez, personagem que está no centro da investigação de um duplo homicídio em Habeas corpus, série da Netflix inspirada no trabalho do Innocence Project e apresenta semelhanças fortes com um crime real ocorrido em Brasília — o caso da 113 Sul.
"Foi uma viagem essa vivência. Ao mesmo tempo, olhar por dois pontos de vista do mesmo universo da Justiça. Cada personagem de um lado da bancada de um tribunal. Eu tinha longas conversas imaginárias com Têmis, a deusa grega da Justiça", conta a artista paulistana de 52 anos.
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Em Habeas corpus, Renata Vasquez está no centro de uma tragédia familiar brutal — e é justamente essa dubiedade que a atriz buscou levar ao espectador. "Eu queria colocar tintas para que as pessoas pudessem projetar ali as suas próprias conclusões. Foi ela? Não foi? Por quê?", provoca Paula, que dá vida a uma mulher acusada de mandar matar o próprio pai. "São infinitas possibilidades que mudam constantemente na cabeça do espectador, que também é juiz, que também está julgando o tempo todo", completa.
Apontado como inspiração para a série, o crime da 113 Sul ocorreu em 2009 e resultou no triplo homicídio do ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, de sua esposa, Maria Carvalho Mendes Villela, e da empregada doméstica, Francisca Nascimento da Silva, esfaqueado no apartamento. A investigação concluiu que o crime foi encomendado pela filha do casal, Adriana Villela, que contratou executores para cometer os assassinatos devido a conflitos financeiros. Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as condenações do caso devido a falhas processuais e periciais, incluindo a ocultação de mídias e a invalidação de confissões sem respaldo em juízo.
Para acessar a densidade dramática de Renata, Paula Cohen conta que fez uma preparação intensa. "Fui assistir a tribunais do júri ao vivo, assisti a vários filmes e documentários em que havia personagens em situações similares e conversei com muitos amigos advogados sobre o comportamento de pessoas nesse tipo de circunstância", relata.
A atriz também revela um método pessoal que aplica em todos os trabalhos: criar uma gênese para a personagem, mesmo que ela não esteja na obra. "Crio para mim mesma uma visão mais detalhada sobre a vida dela, que não está na obra, mas faz sentido para mim. Assim, vou criando internamente um estofo de memórias e vivências que vão dando corpo e alma à personagem, junto com a dramaturgia", explica.
Segundo Cohen, personagens em situações-limite são um prato cheio para qualquer intérprete. "São muito saborosos, e ainda mais no caso dela, com tantas complexidades expostas", argumenta.
Habeas corpus, que joga luz sobre as falhas do sistema judiciário, também transformou a visão pessoal da atriz sobre o conceito de justiça. "Tive acesso a informações mais técnicas que desconhecia antes, principalmente sobre mecanismos que podem levar a julgamentos equivocados — como reconhecimentos falhos, inclusive por meio de reconhecimento facial, investigações que não reúnem provas suficientes", relata.
Cohen faz questão de destacar o recorte social do problema. "Eu já sabia que, neste país, muita gente inocente paga por crimes que não cometeu, principalmente gente pobre e a população negra. Existe um abismo social no Brasil e um racismo estrutural horrível, que vem, perverso, desde as bases. Essa velha estrutura tem que ser exposta e destruída para que a gente tenha uma sociedade equânime e saudável. E esse caminho ainda é longo", comenta.
Para a atriz, a série cumpre um papel importante ao colocar o tema em debate. "Faz a população se questionar, investigar e, no melhor dos casos, faz com que o sistema de Justiça seja revisto. Sem falar na importância gigantesca de um projeto como o Innocence Project em um país como o nosso." E ela devolve a pergunta ao público: "Vocês já imaginaram? Já fizeram o exercício de se imaginar presos por um crime que não cometeram?"
História revisitada
Sobre Retorno a Buenos Aires, filme recebeu 14 minutos de aplausos em Veneza, Paula Cohen não esconde o orgulho de integrar o elenco dirigido por Marco Bechis, que foi sequestrado e torturado durante a ditadura argentina. "Tenho um orgulho enorme de fazer parte desse elenco, que conta essa história tão forte", celebra ela, que é filha de uruguaios.
Principalmente após o êxito de Ainda estou aqui e O agente secreto, a atriz vê o cinema brasileiro em um momento excepcional. "Está num momento brilhante, contando tantas histórias fundamentais de serem ouvidas, autorais, levantando questões que nos formam enquanto sociedade. Está sendo admirado pelo mundo e isso, para mim, não é surpresa, pois temos mesmo material humano e criativo superpotente", comemora.
Quanto ao tema da ditadura presente no longa em que atua e também serve de pano de fundo para os filmes brasileiros indicados ao Oscar, Cohen é enfática. "É muito necessário contar essa história, que aconteceu aqui no Brasil e em muitos países da América Latina, e foi tão terrível. Essas feridas não estão cicatrizadas e ainda existe gente que insiste em negar. Isso, para mim, é um duplo crime. A nossa democracia está sendo constantemente ameaçada. Não é uma história superada; precisa ser revisitada para que os horrores não se repitam", conclui.
30 anos de estrada e dois APCA
Com mais de três décadas de carreira, Paula Cohen foi consagrada duas vezes com o Prêmio APCA de Melhor Atriz — na televisão, por Nos tempos do Imperador (2021), e recentemente no teatro, por Finlândia (2025). "É maravilhoso! Um reconhecimento gigantesco. Sou uma mulher muito dedicada ao meu ofício. O meu trabalho, acredito, é o que tenho de melhor para dar ao mundo", afirma.
A atriz ressalta a importância de ser reconhecida em linguagens diferentes. "Sou uma artista que sempre quis transitar pelas linguagens, amo todas. Sou um bicho da atuação!" Sobre o impacto dos prêmios em sua trajetória, ela é direta: "São um afago, um alento para sentir que estamos trilhando bem o nosso caminho."
E o futuro? "Gosto de desafiar as fronteiras, os limites, mexer em lugares onde nunca estive como artista. Agora quero o novo! Sempre é assim! Acabo um trabalho e já estou ávida pelo próximo", avisa. "Minha bússola é o desejo voraz de contar histórias interessantes, vestir diferentes peles, ser muitas numa vida só e, quem sabe, trazer, para alguém que seja, alegria e reflexão", conclui.
Diversão e Arte
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