MÚSICA

Português, grafismo indígena e churrasco: a passagem do BTS pelo Brasil

Após percorrer continentes com a turnê 'Arirang', o grupo sul-coreano realizou três apresentações marcadas por homenagens à cultura brasileira, projetos organizados pelos fãs e demonstrações recíprocas de afeto entre artistas e público

Show do BTS em São Paulo -  (crédito: Raissa Guimarães/Divulgação)
Show do BTS em São Paulo - (crédito: Raissa Guimarães/Divulgação)

Quando os acordes de GeomunTory ecoaram pelo MorumBIS, a longa jornada da turnê Arirang finalmente alcançava o Brasil. Depois de cruzar continentes, lotar estádios e reunir multidões em diferentes partes do mundo, o BTS chegava a São Paulo para três noites que se transformariam em muito mais do que apresentações musicais: seriam a celebração de uma relação construída ao longo dos anos entre o grupo sul-coreano e seus fãs brasileiros.

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As três noites na capital paulista marcaram a passagem brasileira de uma turnê que vem mobilizando multidões ao redor do mundo desde abril. Em São Paulo, contudo, o espetáculo ganhou contornos particulares. Mais do que uma parada no calendário internacional, os shows revelaram a força de uma ligação edificada década a década entre o BTS e um dos públicos mais engajados de sua trajetória.

Este artigo integra uma série especial sobre a turnê Arirang, produzida a partir da cobertura de diferentes etapas da trajetória do BTS em 2026, incluindo as celebrações dos 13 anos do grupo em Busan, na Coreia do Sul, o encerramento da etapa europeia em Paris e as apresentações em São Paulo.

Durante os shows, os integrantes multiplicaram demonstrações de carinho pelo país. Em diversos momentos, dirigiram-se ao público em português. Kim Taehyung, o V, destacou-se pela quantidade de interações no idioma local, enquanto os demais integrantes repetiam mensagens de gratidão, saudade e felicidade por estarem novamente no Brasil.

As homenagens não ficaram restritas às palavras. Entre as referências no palco, uma das mais significativas foi a valorização dos povos originários: integrantes do BTS utilizaram duas pulseiras adornadas com grafismos Kene Ku, tradição artística do povo indígena Huni Ku, da Amazônia brasileira. Reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil, os grafismos expressam conhecimentos ancestrais, aspectos cosmológicos e formas de compreender o mundo transmitidas de geração em geração.

Show do BTS em São Paulo
Show do BTS em São Paulo (foto: Raissa Guimarães/Divulgação)

Produzidos tradicionalmente por mulheres indígenas, eles constituem uma das mais importantes manifestações visuais dos povos originários da região amazônica. A presença das pulseiras e de um cocar durante os shows ampliou o alcance simbólico das homenagens prestadas ao país, levando ao palco expressões vivas da diversidade cultural brasileira.

A aproximação com a cultura nacional estendeu-se para além do estádio. Durante a passagem por São Paulo, RM visitou a Pinacoteca, um dos mais destacados museus de arte do país. O líder do BTS declarou durante sua fala no show que "o museu era um dos grandes lugares do Brasil e bonito demais". J-Hope, por sua vez, compartilhou admiração pela gastronomia local, descrevendo o churrasco brasileiro como a melhor refeição experimentada durante a etapa latino-americana da turnê.

O diálogo entre artistas e público também foi construído pelos próprios fãs. Em um dos projetos organizados pelas ARMYs brasileiras, as tradicionais ARMY Bombs transformaram o estádio em um mosaico verde e amarelo durante a música Please, reproduzindo as cores da bandeira nacional em uma das imagens mais marcantes da passagem pelo país.

Durante a execução de FYA, outro projeto mobilizou milhares de pessoas. Mais do que um elemento visual, a ação incorporou uma característica marcante da experiência brasileira em grandes espetáculos musicais: a tradicional "bateção de leque". O som ritmado produzido pelo público integrou-se à apresentação e deu à turnê uma identidade local.

Outra ação comemorou o aniversário de Jimin, ocorrido poucos dias antes de sua chegada ao Brasil. Os fãs cantaram "Parabéns pra Você" em português, transformando o estádio em uma celebração coletiva e criando uma das cenas mais emocionantes do encerramento da turnê em São Paulo.

A recepção calorosa não surgiu por acaso. Desde os primeiros anos de carreira do grupo, os fãs brasileiros participam ativamente da tradução de conteúdos, da mobilização digital e da circulação de informações sobre o BTS. Na última década, essa comunidade consolidou-se como uma das mais expressivas fora da Ásia.

Assim como ocorreu em diferentes partes do mundo, os espetáculos brasileiros reuniram pessoas de variadas gerações, profissões e trajetórias. O fenômeno que acompanha o BTS ultrapassa há muito tempo os limites da indústria musical. Suas canções abordam temas como identidade, autoestima, saúde mental e pertencimento, elementos frequentemente citados pelos fãs ao explicar a importância do septeto em suas vidas.

Nem tudo, entretanto, transcorreu sem dificuldades. Nos três dias de shows, fãs relataram problemas relacionados ao acesso ao estádio, à organização das filas, à sinalização, à lotação e à infraestrutura disponibilizada. Também gerou forte repercussão a diferença entre a estrutura de vídeo utilizada em outras etapas da turnê e a adotada na América Latina. Enquanto apresentações em outras regiões contaram com até 12 telões, a configuração sul-americana utilizou quatro telas centrais em formato 360 graus, o que motivou centenas de reclamações.

As controvérsias levaram à atuação de órgãos públicos e de defesa do consumidor. O Ministério Público de São Paulo solicitou esclarecimentos à Prefeitura de São Paulo, à Ticketmaster Brasil e à Live Nation Brasil. O Procon-SP notificou a produtora em razão das queixas sobre a estrutura dos shows. Após a primeira apresentação, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) também pediu informações sobre lotação, filas, segurança e acessibilidade.

Ainda assim, para quem estava no estádio, o sentimento que prevaleceu foi outro. Os problemas de organização não apagaram a intensidade do encontro. A percepção de que a etapa brasileira ocupou um lugar singular ganhou reforço após a última apresentação, quando o grupo realizou uma transmissão ao vivo para conversar com fãs ao redor do mundo — gesto interpretado por muitos admiradores como um sinal claro da atenção dedicada ao público brasileiro.

Mais do que uma escala no itinerário internacional, as apresentações revelaram um vínculo raro. Cada frase em português, cada referência à cultura local e cada manifestação de carinho pareciam reforçar uma certeza compartilhada: o Brasil ocupa um lugar especial na história do BTS, e o BTS ocupa um lugar singular na trajetória de milhares de brasileiros.

Se Busan representou as origens e Paris a dimensão global do fenômeno, São Paulo revelou a força de um elo construído ano a ano. Num mundo marcado por divisões, os shows da turnê Arirang em São Paulo ofereceram mais uma demonstração da capacidade da música de construir pontes. No Brasil, essa conexão ganhou contornos visíveis: durante três noites, o MorumBIS transformou-se em um espaço de reconhecimento mútuo entre sete artistas sul-coreanos e uma multidão que os considera parte da própria história.

* Mônica Cabañas é jornalista, correspondente internacional credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, Doutora em Educação pela Universidade Santander do México e CEO do projeto "O Mundo por trás do Mundo".

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MC
postado em 01/11/2026 22:48
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