
O amor, o preconceito e as diferenças são os grandes temas de Um dia muito especial, em cartaz, nesta sábado (11/4) e no domingo (12/4), no Teatro Unip. Com direção de Alexandre Reinecke e elenco formado por Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall, o texto que serviu de roteiro para o filme homônimo de Etore Scola em 1977 chega ao século 21 com detalhes que o tornam atual e necessário.
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Antonieta e Gabrielle são figuras completamente diferentes, mas que vivem dramas semelhantes e acabam por se identificar num ambiente de opressão e autoritarismo. A história se passa poucos meses antes do início da Segunda Guerra, durante um evento que celebra o encontro, em Roma, entre Benito Mussolini e Adolf Hitler. Antonieta se sente presa em casa pela rotina doméstica, e Gabrielle está prestes a parar na prisão por causa de sua orientação sexual. "A peça dialoga muito com o contemporâneo, na medida que a gente ainda precisa falar muito sobre o regime fascista, evitar que a gente ainda caia nessas sílabas de falas fascistas, nesses atos fascistas", avisa Gianecchini.
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Os dois personagens são muito diferentes, mas ambos encontram na solidão um sentimento em comum. "Ambos buscam uma conexão mais profunda, mesmo que intuitivamente, e ambos têm uma alma sedenta por uma liberdade por poder ser para além dos julgamentos, ser de verdade", diz Gianecchini, que, em entrevista, reflete sobre a contemporaneidade da temática da peça, que tem texto datado dos anos 1970.
Entrevista//Reynaldo Gianecchini
O texto da peça foi escrito, originalmente, em um ambiente de fascismo, guerra iminente e intolerância. Como esse texto dialoga com a contemporaneidade?
A gente tem que estar com uma atenção muito ligada nisso e, principalmente, a peça fala de, apesar das diferenças, exercitar a escuta, olhar o lado humano e a possibilidade de transformação, repensar as ideias. Ao invés de combater o que é diferente e enxergar como ameaça, trazer para o debate, para uma reavaliação das verdades já tidas como certas. São temas absolutamente contemporâneos. O que precisava estar presente, na minha opinião, é sempre o humor, a leveza, encarar todas as dores, todos os sentimentos que estão ali em jogo de uma forma leve. Tem a música, a gente canta, dança e tudo isso é o que acho que faz o espetáculo ser bastante tocante.
Pode contar um pouco qual foi o desafio de construir o personagem e o que era fundamental, para você, que estivesse presente nessa interpretação?
O desafio desse personagem é sempre conseguir falar de assuntos bem profundos, dores e coisas que ele tem dentro, de uma forma leve, de uma forma que seja também muito agradável de ver, que comunique pela emoção, que pegue o público pelo prazer de entender todas as facetas do ser humano e, a partir daí, criar a conexão com o público e falar dos assuntos que precisam ser falados de uma forma séria, com bastante profundidade. E fazer essa catarse. No palco, isso tudo também mexeu demais comigo, é uma revirada nas minhas questões e isso é um grande desafio para o ator, trabalhar com esse material que a gente tem, que é um caldeirão em ebulição dentro da gente, e trazer, com todas as camadas que a gente precisa, para o palco.
Machismo, traição, preconceito são algumas das questões tratadas na peça. Qual o lugar desses temas hoje na sociedade e na dramaturgia?
A gente tem avançado muito nas discussões sobre machismo, traição e preconceito. Racismo também, principalmente após a pandemia, e isso tem sido maravilhoso, trazer a discussão, porque ainda precisa falar muito. E o palco é o lugar perfeito para isso. Eu acho que podemos falar sem ser tão panfletário, sem querer enfiar os temas goela abaixo das pessoas, com violência. Podemos falar através da humanidade, mostrar exemplos, mostrar o ser humano na sua complexidade. Todo mundo pode se identificar com isso e, a partir daí, estabelecer mais debates, mais diálogos sobre essas questões. Estamos vivendo uma era de profunda transformação e esses temas são os temas mais caros do momento. São temas que vão fazer uma diferença para nossa consciência, para os próximos anos, para as próximas gerações, e eu tenho ficado feliz que tem andado muito.
Qual a mensagem mais importante dessa peça?
Para mim, a mensagem mais importante da peça é o poder de exercitar a escuta. E como temos que estar sempre revendo as nossas verdades, porque tem sempre várias percepções sobre a verdade, várias visões sobre as mesmas coisas, estamos sempre num estado dinâmico de mudança, vale sempre rever os nossos conceitos e ideias. Para isso, temos que estar abertos à escuta. O outro pode sempre acrescentar alguma coisa, lembrando que ser diferente não é uma ameaça. Pode ser muito interessante quando você abraça o diferente ou, pelo menos, acolhe e escuta e enxerga camadas humanas por trás de cada pessoa. Essa é a melhor mensagem da peça. É isso que os personagens fazem.
Serviço
Um Dia Muito Especial
Sábado (11/4), às 17h30 e às 20h, e domingo (12/4), às 17h e às 19h30, no Teatro UNIP (SGAS 913 - Asa Sul). Ingressos: de R$ 25 (meia) e R$ 190.

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