Um fio de cabelo preso a uma planta dispara uma transformação radical na personagem A. Aquele pequenino acaso, que poderia passar despercebido, toma um lugar gigante na vida da personagem vivida por Alessandra Negrini em A árvore, em cartaz no Teatro Unip até domingo. O entrelaçamento entre o fio de cabelo e a planta desencadeia uma metamorfose e A., aos poucos, vive uma transformação interna que a aproxima da planta. “A personagem percebe que aquele modo de existir já não é suficiente”, conta Alessandra. “A peça fala dessa insuficiência da vida civilizada, da solidão humana e da nossa separação da natureza.”
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A árvore traz para a cena a transformação, mas também o processo de luto no qual a personagem se despede de uma imagem conhecida de si mesma para adentrar em um universo de formas e sensações desconhecidas. No palco, Alessandra está sozinha e o monólogo, escrito por Silvia Gomez e dirigido por Ester Laccava, acompanha a mudança interna, visualizada pelo público por meio da emoção e do relato. “Vamos sentindo com ela, como diz o texto, ‘por dentro das veias’. E há muitas imagens que permitem ao público fazer essa viagem junto com a personagem”, avisa a atriz. “O delírio surge quando a realidade conhecida já não consegue dar conta da experiência. Mas não é uma fuga gratuita.”
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O projeto de A árvore nasceu durante a pandemia de covid-19 e ganhou, primeiro, um formato híbrido entre teatro e cinema no qual a diretora se debruçou sobre a criação das imagens. “Quando levamos o trabalho para o palco, já existia entre nós uma compreensão muito profunda do universo da personagem. A Ester tem uma relação muito forte com o corpo e com a integração das diferentes linguagens da cena. O trabalho foi encontrar a medida da transformação sem explicá-la demais e sem torná-la literal”, explica Alessandra. Era preciso permitir que o público imaginasse junto o processo a partir da atuação.
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A pesquisa para o texto se ancorou em referências como os estudos do biólogo Stefano Mancuso, que propõe observar as plantas para formular novas perguntas sobre o futuro coletivo do planeta, passando por Kafka, Murilo Rubião, Clarice Lispector, Silvina Ocampo, Ionesco. Há também, na dramaturgia, um equilíbrio entre o lírico e o cômico, Alessandra conta que a personagem pode estar dizendo algo muito profundo e, logo depois, revelar uma contradição ou uma situação absolutamente cotidiana. “O humor impede que a peça se torne solene. Ele traz humanidade para A. e faz com que o lirismo não fique distante do público. A graça nasce do estranhamento e também da maneira muito particular como ela olha para aquilo que está vivendo”, garante a atriz, que conversou com o Correio sobre o processo de criação de A árvore.
Serviço
A árvore
Direção: Ester Laccava. Com Alessandra Negrini. Nesta sexcta (28/8) e sábado (29/8), Pas 20h, e domingo, às 19h, no Teatro UNIP (SGAS 913). Ingressos: a partir de R$ 25, no Sympla e na Belini (CLS 113)
Entrevista//Alessandra Negrini
O que é mais desafiador em fazer esse monólogo?
O monólogo é um processo mais solitário e exige um esforço físico e uma concentração muito grandes. Você está sozinha em cena, mas precisa estabelecer uma relação viva com o texto, com o espaço, com todos os elementos da encenação e, principalmente, com o público. Ao mesmo tempo, o princípio continua sendo o mesmo: tudo é teatro, tudo é relação. A transformação de A. é sobretudo interna. Não buscamos fazer uma imitação literal de uma mulher virando árvore. A metamorfose passa pelo ritmo, pela respiração, pela voz e por pequenas alterações na maneira como o corpo ocupa o espaço. É uma transformação que nasce de dentro e vai contaminando o corpo. É também um texto feminino nesse sentido: fala de um processo interno de mudança, algo que nós, mulheres, conhecemos muito bem. E é feminino porque procura o orgânico, a terra, em oposição aos valores de uma sociedade construída para se proteger da natureza. É uma explosão. Não é fácil fisicamente, mas eu me sinto muito bem quando viro essa árvore.
Você diz que a peça é um “relato de amor”. Amor pela vida, pela transformação, pela natureza ou por tornar-se outra?
Acho que é tudo isso junto. A. relata sua aventura mais íntima e nos oferece o testemunho de acompanhar o próprio corpo tornando-se algo que já não é ela — ou, talvez, tornando-se uma parte dela que ainda não conhecia. Há angústia nesse processo, mas também há alegria e desejo. A ideia de virar uma árvore começa a parecer bela, necessária e inevitável. Então, não é apenas um amor pela natureza vista como algo exterior. É um amor pela possibilidade de se reconciliar com ela, de abandonar uma identidade muito rígida e aceitar tornar-se outra. É também um amor pela vida, mas por uma vida que não se limita à forma humana como nós a conhecemos.
De certa forma, a peça também fala de personagens que se dão conta de que não cabem mais na realidade. O delírio é uma rota de fuga? E como essa ideia dialoga com nosso tempo?
Eu não vejo o delírio apenas como uma rota de fuga. Ele também pode ser uma forma de enfrentar uma realidade que se tornou insuportável ou insuficiente. Às vezes, aquilo que chamamos de delírio é justamente a percepção mais lúcida de que alguma coisa precisa mudar. A personagem não cabe mais naquela realidade porque começa a enxergar suas fissuras. Ela percebe a solidão, a distância da natureza e a precariedade daquilo que nós chamamos de vida civilizada. Sua metamorfose elabora tudo isso por outra camada, por meio de imagens e sensações. Acho que a peça dialoga muito com o nosso tempo porque as formas que construímos para viver já não parecem capazes de responder às crises que estamos enfrentando. Vivemos uma crise ambiental, mas também uma crise da nossa própria ideia de humanidade. Talvez precisemos aprender com outras formas de vida, perceber que não estamos separados da natureza e aceitar que certas transformações já se tornaram inevitáveis.
O espetáculo traz também reflexões sobre envelhecimento e afirmação e perda de uma identidade?
Acho que A. também é uma mulher muito forte, mas sua força não está na afirmação de uma identidade fixa. Está justamente na coragem de deixar essa identidade se desfazer. Ela aceita entrar num processo que não controla inteiramente e se despedir de uma forma conhecida de si mesma. Para uma atriz, isso é muito interessante porque nós também trabalhamos o tempo todo com a ideia de abandonar provisoriamente aquilo que somos para experimentar outras existências. Em A Árvore, isso acontece de maneira radical: a personagem deixa de reconhecer o próprio corpo como algo estável. É claro que isso pode trazer uma reflexão sobre o envelhecimento. O corpo muda, quer você queira ou não, e talvez exista uma violência muito grande na exigência de permanecermos sempre iguais. A peça me faz pensar menos no envelhecimento como perda e mais como transformação. Há angústia, porque alguma coisa termina, mas também existe a possibilidade de descobrir outras formas de presença, de beleza e de liberdade. A. não está simplesmente desaparecendo. Ela está se tornando outra coisa.
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