ATIVIDADE ECONÔMICA

PIB anda de lado no último trimestre de 2025, preveem analistas

O IBGE deve divulgar, amanhã (3/3), um desempenho mais fraco do PIB no último trimestre de 2025, perto de zero, confirmando desaceleração na atividade devido à política monetária mais restritiva. Especialistas reconhecem que haverá desafios para a economia crescer neste ano

Processo seletivo de estágio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -  (crédito: Divulgação)
Processo seletivo de estágio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - (crédito: Divulgação)

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga, amanhã (3/3), o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2025. As previsões de analistas ouvidos pelo Correio indicam leve estabilidade na margem — em relação aos três meses anteriores —, com a taxa variando de -0,1% até alta de 0,2%, e, as apostas para o acumulado do ano, oscilam entre 2,2% a 2,3%, abaixo do resultado do PIB de 2024, que avançou 3,4%, confirmando o processo de desaceleração da atividade, que está em curso.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

De acordo com especialistas, as surpresas nas projeções iniciais para o PIB do ano passado — que indicavam avanço inferior a 2% — estão relacionadas com o forte desempenho do agronegócio – que registrou a maior safra da história e deve apresentar um crescimento acima de 11% em 2025 — e dos impulsos fiscais do governo do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos, assim como os impactos positivos da reforma trabalhista de 2017 no mercado de trabalho, impediram uma desaceleração maior no PIB por conta da política monetária conduzida pelo Banco Central, que mantém a taxa básica da economia em 15% ao ano — maior patamar em quase 20 anos — desde junho do ano passado.  

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Os juros básicos elevados por um período bastante prolongado também conseguiram fazer com que a inflação, que estava perto de 6%, no início de 2025, encerrasse dezembro para 4,26%, abaixo do teto da meta, de 4,5%. E, agora, diante da aceleração recente na prévia da inflação oficial, analistas acreditam que os juros devem começar a cair a partir da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), mas o ritmo de queda da Selic deverá ser gradual, e pode até parar antes do esperado se os impactos da invasão do Irã afetarem a economia internacional.

Além disso, os efeitos desse afrouxamento na política monetária não deverão ter muito impacto na atividade, porque os efeitos defasados dos juros em 15% durante todo o segundo semestre de 2025 ainda será sentido pela atividade econômica neste ano. 

Logo, apesar dos novos estímulos na atividade, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o vale gás e o crédito consignado privado, deverão evitar uma desaceleração maior no PIB deste ano, uma vez que o carregamento estatístico do PIB de 2025 para o de 2026 é praticamente zero. Não à toa, as apostas para o PIB deste ano variam entre 1,5% e 1,8%, que é a mediana das estimativas do boletim Focus, do Banco Central e, dependendo das contas dos analistas, sem a inclusão dos estímulos fiscais, essas projeções estariam em torno de 1,2% a 1,3%. 

Gabriel Couto, economista do banco Santander, que prevê alta de 1,5% no PIB deste ano, estima um impulso fiscal de 0,9% do PIB. Ele projeta variação zero no PIB do quarto trimestre de 2025, o que levará para um resultado acumulado de 2,2%. “Prevemos um carrego estatístico praticamente nulo para 2026 (+0,1 ponto percentual), o que, em nossa avaliação, será um dos principais limitantes do crescimento no ano”, explica.

O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, por sua vez, projeta variação de 0,1% no PIB do último trimestre de 2025, o que deverá resultar em uma alta acumulada do PIB no ano de 2,2% a 2,3%. Ele também considera que 2026 começará fraco devido ao carregamento estatístico para este ano perto de zero e destaca o consenso do mercado de que há dois setores da economia indo bem: os ligados à exportação e à renda, devido à ampliação dos programas sociais e às commodities, que devem alavancar os dados do segmento de serviços que será o principal motor do PIB do ano passado. Contudo, Padovani lembra que há contrapesos.

“O Banco Central colocou a taxa de juros no patamar mais alto em 20 anos justamente para tentar colocar a economia mais próxima do potencial e isso está fazendo efeito. Vemos que, ao longo de 2025, o crescimento foi mantido mas é um ritmo menor e, agora, o problema é que o comportamento setorial foi muito diferente para quem sofreu com esse aperto monetário”, destaca Padovani. “O principal desafio para nós economistas, neste ano, será tentar saber qual é o impacto desses impulsos fiscais e do gasto público sobre o crescimento do PIB. Então, isso tem gerado um viés positivo nas projeções do mercado, que está com apostas entre 1,5% e 2%. Nós estamos um pouco mais cautelosos por conta desses efeitos defasados da política monetária”, acrescenta. 

Descompassos

Especialistas reconhecem ainda que um dado preocupante é o fato de os gastos elevados do governo seguem crescendo sem medidas efetivas no controle de gastos, tanto do Executivo quanto do Legislativo e do Judiciário, que acentuam o descompasso para o equilíbrio das contas públicas. Uma dessas despesas sem receita recorrente é o Bolsa Família, um dos melhores programas sociais do país, mas que sofreu um aumento expressivo em 2023, ultrapassando 1% do PIB, contando apenas com o aumento de receita para ser coberto, sem que cortes de gastos fossem feitos para equilibrar o Orçamento. Neste ano, essa fatura supera R$ 158 bilhões – 4,5 vezes o valor anual anterior, de R$ 35 bilhões. 

Outra fonte desse desequilíbrio fiscal são as emendas parlamentares, que passaram a dominar o Orçamento. Em 2016, giravam em torno de R$ 5,8 bilhões, e ganharam corpo no governo de Jair Bolsonaro, passando para mais de R$ 30 bilhões. E, neste ano, essa fatura cresceu para R$ 52,7 bilhões, criando uma nova forma de gestão do dinheiro do contribuinte e, segundo um ex-deputado que não tem mais intenção de se candidatar, também formou um curral que veta a entrada de novos nomes que não estejam no esquema dos partidos. 

A volta do aumento real do salário mínimo, que impacta negativamente sobre as despesas previdenciárias devido à indexação, e a volta da vinculação dos gastos com Educação e Saúde ao aumento da receita, também contribuem para os gastos crescerem acima do limite imposto na regra do arcabouço fiscal. E, com isso, geram um buraco adicional no Orçamento que tende a sofrer um colapso anunciado previsto para 2027, quando não haverá mais espaço para cortes nas despesas discricionárias. Não à toa, a dívida pública bruta do país deve voltar a ficar acima de 80% do PIB neste ano — patamar insustentável para países emergentes com dívidas a juros acima de 10% ao ano —, como em 2020, ano da pandemia da covid-19.

A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), destaca que as despesas primárias, atualmente, giram em torno de 19% a 20% do PIB mas, em 2002, respondiam por 15,9% do PIB, e, apesar do forte aumento de gastos do governo anterior no fim de mandato, o atual, devido aos estímulos fiscais e programas sociais já contabiliza mais de R$ 200 bilhões em aumento de gastos permanentes sem que fossem indicadas receitas recorrentes desde 2023, de acordo com Matos, citando levantamentos feito por pesquisadores do Ibre. Vale lembrar que analistas veem o arcarbouço fiscal como uma ferramenta falha para garantir a volta do superavit primário nas contas públicas devido às brechas criadas pelo próprio governo, que retirou inúmeras despesas do limite.  

“A PEC da Transição que e medidas como a ampliação Bolsa Família em 1% do PIB sem qualquer receita recorrente, o aumento real do salário mínimo e a volta da vinculação ao aumento de receita dos gastos de Saúde e de Educação e não ao aumento populacional criaram um buraco fiscal na contramão da LRF que vai obrigar o Executivo a se esforçar para um ajuste cada vez mais inviável para evitar um colapso em 2027, independentemente de quem vencer as eleições”, alerta a economista.

De acordo com Silvia Matos, essa falta de cumprimento de um princípio básico da Lei de Responsabilidade Fiscal será um dos principais fatores para o colapso esperado nas contas públicas que deverá ocorrer em 2027 – quando não deverá haver mais espaço para corte no Orçamento por meio dos gastos discricionários (despesas não obrigatórias). “A taxa de juros deverá seguir alta e o Banco Central terá dificuldade para reduzir a Selic neste ano”, avalia. 

Pelas projeções do Ibre, o PIB do quarto trimestre de 2025 deve recuar 0,1%, e, no acumulado do ano, avançar 2,2%. E, como a taxa de carregamento estatístico estimada por Matos está próxima a zero, para este ano, a projeção para o crescimento da atividade econômica é de 1,7%, com a agricultura apresentando desempenho negativo de 0,6% após salto de 11,7% em 2025.

"O agronegócio surpreendeu positivamente no ano passado, batendo recordes históricos, agora, neste ano, não esperamos o mesmo desempenho, o que vai contribuir para o processo de desaceleração do PIB, que está associado aos efeitos da política monetária", explica Matos.

De acordo com a economista do Ibre, o quadro fiscal tende a ficar cada vez mais preocupante diante do fato de o governo ter mais dificuldades para conseguir entregar um superavit primário nas contas públicas. Com isso, o mercado vai exigir um preço de risco maior para financiar a dívida pública uma vez  que o governo seguirá se financiando via aumento da emissão de títulos da dívida federal para cobrir os rombos fiscais. Além disso, ela destaca que os juros neutros — patamar do juro real (descontada a inflação) que não afeta a atividade econômica — estão mais elevados do que o estimado pelo mercado, acima de 7%, e, isso vai dificultar uma queda maior da Selic.

Analistas, contudo, reconhecem que há dados positivos na economia, mas reforçam o alerta sobre os riscos fiscais, que são crescentes neste ano eleitoral. “A economia tem dados positivos, como o crescimento do mercado de trabalho com o desemprego historicamente baixo, e a inflação desacelerando devagar, além disso há aspectos estruturais positivos, como  aprovação reforma tributária sobre o consumo e a formalização do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Mas o negativo é a questão fiscal, que continua sendo o calcanhar de Aquiles do país”, explica a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria.

As projeções da Tendências estão entre as mais otimistas para o dado do PIB do quarto trimestre, de alta de 0,2% na margem e de 2% na comparação interanual. “Não podemos negar que há um fluxo interessante de capital estrangeiro para os países emergentes, incluindo o Brasil, mas se o governo tivesse feito a lição de casa em termos de ajuste fiscal, ele poderia estar aproveitando melhor esse momento”, reforça. 

Efeito Trump

Na avaliação das economistas Alessandra Ribeiro e Silvia Matos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ajudou muito o Brasil em 2025 e continua ajudando neste ano, pois suas medidas de proteção tarifária e ameaças de novas guerras no Oriente Médio, como o ataque recente ao Irã, deixaram o dólar mais fraco frente às moedas de países emergentes, o que contribui para diminuir as pressões inflacionárias no Brasil. A fuga do capital estrangeiro para outros mercados deu impulso recorde na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que não para de bater recordes e acumula alta de 17% desde janeiro e chegou a ultrapassar os 190 mil pontos neste ano – superando as previsões de 180 mil pontos para o fim deste ano.

“Donald Trump ajudou muito o presidente Lula, tanto que as exportações seguiram crescendo mesmo com o tarifaço, além do  dólar em queda e da Bolsa de Valores brasileira batendo recordes”, destacou Ribeiro.  “Desde o ano passado, Trump está ajudando os países emergentes, de forma geral, com suas decisões intempestivas”, emenda Matos.

Os impactos na economia global dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, neste fim de semana, ainda são incertos, mas o consenso é de que haverá, inicialmente, um aumento nos preços do barril do petróleo, o que gera pressões inflacionárias globais a curto prazo, colocando os bancos centrais do mundo em alerta e até mesmo freando momentaneamente as políticas de afrouxamento monetário, ou seja, de queda de juros.

“Trump esperou o fechamento do mercado financeiro para os EUA atacarem o Irã para os impactos serem menores. Em momento como esse a gente já viu que os efeitos de eventos deve ter uma pressão ainda nos preços de petróleo, a curto prazo, mas já vemos, por conta das sanções anteriores, um aumento há mais de um ano nos preços de ouro e prata – ativos mais seguros”, destaca Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. Ele lembra que ainda há a perspectiva de que o Irã poderá fechar o estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, por onde é transportado quase um terço do petróleo global.

“Isso deve encarecer bastante os preços de combustíveis, pode encarecer frete mundial. Mas, se houver mudança de governo no Irã, como os Estados Unidos esperam, pode ser que, no segundo semestre, a oferta de petróleo aumente e os efeitos acabem sendo desinflacionários”, acrescenta.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular?




  • Google Discover Icon
postado em 02/03/2026 15:41
x