Petróleo

Guerra reacende debate sobre autossuficiência

A dependência externa tem ampliado a vulnerabilidade do país a crises internacionais. Diante da falta de perspectivas de um cessar-fogo no Oriente, analistas acreditam ser inevitável o impacto da alta de preços sobre o consumidor

economia 2303 -  (crédito: arte)
economia 2303 - (crédito: arte)

A crise no abastecimento de petróleo causada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, no início do conflito entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, provoca efeitos na economia global, o que não é diferente para o Brasil, que lida com redução da oferta e encarecimento dos combustíveis. Apesar de estar entre os 10 maiores produtores de petróleo bruto do mundo e ser autossuficiente na extração da commodity desde 2006, o país ainda depende de importações para abastecer o mercado interno de combustíveis.

Neste domingo (22), Teerã disse que o Estreito de Ormuz estava completamente fechado para embarcações de países "inimigos" e ameaçou provocar "danos irreversíveis" a alvos de energia, tecnologia e dessalinização de países do Oriente Médio que abriguem bases americanas em retaliação aos EUA, caso o presidente Donald Trump prossiga com a ameaça de atacar instalações de energia do Irã, colocando mais distantes os sinais de trégua.

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Além disso, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ameaçou instituições que financiem o orçamento militar dos Estados Unidos. "Os títulos dos Treasuries americanos estão banhados com o sangue iraniano. Ao comprá-los, você está, na prática, comprando um ataque contra seus próprios ativos e infraestrutura", escreveu ele no X. "Estamos monitorando seus portfólios, esse é o seu aviso final."

Refino

O principal fator para a dependência brasileira é a limitação estrutural no refino. Dados do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis mostram que, apesar de estar entre os maiores produtores globais, o Brasil ainda apresenta desequilíbrios na cadeia de petróleo, especialmente no refino. Em 2024, o país registrou capacidade de refino de 2,3 milhões de barris por dia, com processamento de 2 milhões e consumo de 2,6 milhões. O volume consumido acima da capacidade interna reforça a necessidade de importação de derivados.

O petróleo produzido no país é, em grande parte, do tipo pesado, enquanto a produção de gasolina e diesel exige óleo leve, disponível em menor escala. Com isso, entre 20% e 30% do diesel consumido no país ainda precisa ser importado. Parte significativa desse volume é adquirida por empresas privadas, que atuam na complementação da oferta interna.

A dependência externa tem ampliado a vulnerabilidade do país a crises internacionais. De acordo com um levantamento da Edenred Ticket Log (IPTL), desde o dia 28 de fevereiro, o valor médio do diesel S-10 comercializado nos postos de combustível do país acumula um aumento de mais de 20%, sendo vendido a R$ 7,48, o litro.

Segundo o advogado tributarista Carlos Edgar Andrade Leite, presidente da Comissão de Direito da Energia da Ordem dos Advogados do Brasil de Sergipe (OAB/SE) e sócio e coordenador do núcleo de Energia do Monteiro Nascimento Advogados, a exportação predominante de óleo cru representa um problema estrutural. "O Brasil produz petróleo em escala relevante, mas ainda possui capacidade limitada de refino, o que faz com que exporte um produto de menor valor agregado e, ao mesmo tempo, importe combustíveis mais caros, como diesel e gasolina", destaca.

Sobre o impacto de crises internacionais, o advogado destaca a transmissão direta para a economia, com efeitos quase imediatos ao consumidor. "A elevação do petróleo encarece os combustíveis, aumenta o custo do transporte e se espalha por toda a cadeia produtiva, pressionando a inflação e o custo de vida do brasileiro", avalia Leite.

Produção desigual

Na comparação internacional, países como Estados Unidos e China operam com estruturas mais equilibradas ou superiores ao consumo interno, enquanto o Brasil mantém um deficit relativo. Economias como Índia e Rússia também apresentam maior capacidade de refino proporcional.

Os dados de balança comercial reforçam esse contraste. No segmento de petróleo bruto, o país mantém superávit: as exportações atingiram 2,14 milhões de barris de óleo equivalente por dia, contra importações de 0,20 milhão, resultando em saldo positivo de 1,94 milhão e receita de US$ 3,45 bilhões. Já no mercado de derivados, o cenário é inverso. As exportações somaram 0,47 milhão de barris por dia, enquanto as importações chegaram a 0,74 milhão, gerando deficit de 0,27 milhão e impacto de US$ 0,49 bilhão.

Para o professor de economia internacional Masimo Della Justina, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a expansão do parque de refino exige planejamento de longo prazo e avaliação das condições do mercado global. "Expandir refinarias exige recursos imediatos e garantia de retornos futuros. É preciso ter um plano bem detalhado e realístico para o longo prazo de 10, 20, 30 anos baseado na tendência média mundial do setor", afirma.

Segundo ele, a decisão não deve ser guiada apenas por crises conjunturais. "Deve levar em conta a real necessidade do país, independente dos conflitos internacionais. A pressa pode levar ao endividamento e à ociosidade no futuro quando o cenário mundial sossega", pontua. Ele também defende maior participação do capital nacional e até do agronegócio nesses investimentos ao longo prazo, ao invés de aplicar tanto em títulos públicos americanos.

Sobre os efeitos de crises internacionais, Justina destaca a transmissão direta para a economia doméstica. "Começa com o aumento dos preços dos combustíveis, levando a repasses para todo o tipo de transporte e as entregas no atacado e varejo; preços de alimentos, passagens e vestuários vão de reboco", afirmou o professor, que também aponta reflexos na produção. "O setor de produção que utiliza combustíveis para a geração de energia, produção e transporte também sofre as consequências. As importações de insumos para a produção industrial e agrícola também ficam mais onerosas", conclui.

Já a advogada especialista em óleo e gás e sócia do Murayama Affonso Ferreira e Mota Advogados Julia Borges Mota, acredita que o primeiro caminho para a autossuficiência é expandir e modernizar as refinarias, com foco em aumentar a produção de diesel de baixo enxofre e melhorar a conversão de petróleo mais pesado. Além disso, ela destaca que é importante pensar na sustentabilidade, com investimentos na integração com biocombustíveis e diesel renovável, com vistas a reduzir a dependência de importações fósseis.

"Também é fundamental garantir previsibilidade regulatória para atrair investimento em refino, logística e armazenagem", pontua a especialista, que ressalta a importância de diversificar a cadeia de produção no país. "Em síntese, a autossuficiência não virá apenas do aumento da produção de petróleo, mas de um conjunto de medidas que envolvem refino, infraestrutura e diversificação energética. No caso do diesel, isso é particularmente crítico, porque impacta diretamente na inflação, logística e competitividade da economia", completa.

Apesar de ter recursos financeiros e infraestrutura para modernizar e ampliar a capacidade de refino, o Brasil carece de outras características naturais, como lembra Vito Villar, coordenador de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados. A maior parte do petróleo extraído pelo país vem do chamado 'pré-sal' e é um produto considerado mais 'leve' em sua composição, o que ajuda a produzir gasolina, mas já é um dificultador no caso de combustíveis mais pesados, como o diesel e o querosene de aviação (QAV). 

Por conta desse limitador, Villar acredita que o país nunca poderá ser totalmente livre de importar combustíveis e cita os Estados Unidos como exemplo. Apesar de ser o maior produtor, os norte-americanos também são os maiores importadores de petróleo do mundo. "Atualmente o Brasil tem uma capacidade de produção bastante alta, é um exportador, tem capacidade suficiente nesse sentido, mas ao mesmo tempo vai ter sempre que importar para abastecer esses outros mercados que não dependem exclusivamente da capacidade de investimento no país", ressalta.

Entre problemas mais simples e outros mais complexos de se resolver, o Brasil ainda caminha a 'passos de galinha' para ter autossuficiência no refino de petróleo. Com uma rica biodiversidade e recursos naturais disponíveis, o país tem oportunidades para expandir ainda mais a produção e o refino sem comprometer o equilíbrio ambiental, com foco na transição energética a longo prazo, onde também há desafios que podem ser resolvidos com boa estratégia e investimentos. 

*Estagiário sob a supervisão de Edla Lula

 

 


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postado em 23/03/2026 03:29
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