Conflito no Oriente

Ocidente tenta frear crise no petróleo

A cotação do barril tipo Brent com vencimento em abril fechou a sessão de ontem com aumento de 4,76%, a US$ 91,98. Porta-voz do Irã ameaça fazer o preço da commodity chegar a US$ 200

A Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou, ontem, que os seus 32 países-membros aprovaram, em decisão unânime, disponibilizar 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas de emergência ao mercado. A decisão foi tomada após uma reunião extraordinária do grupo, na qual o diretor-executivo da organização, Fatih Birol, afirmou que a crise vivenciada no setor de petróleo é "sem precedentes".

A cotação do barril tipo Brent com vencimento em abril fechou a sessão de ontem com aumento de 4,76%, a US$ 91,98, enquanto que o West Texas Intermediate (WTI) encerrou o dia com alta de 4,55%, a US$ 87,25. Ambas as cotações são as principais referências globais para o preço da commodity.

"Os mercados de petróleo são globais, portanto a resposta a grandes interrupções também precisa ser global. A segurança energética é o mandato fundador da AIE, e fico satisfeito em ver que os membros da agência estão demonstrando forte solidariedade ao tomar medidas decisivas em conjunto", destacou o diretor. 

Ainda de acordo com a AIE, os estoques de emergência não serão disponibilizados de uma só vez, mas de acordo com as circunstâncias de cada país-membro. Ao todo, os membros da AIE mantêm estoques de emergência superiores a 1,2 bilhão de barris, além de outros 600 milhões de barris de estoques da indústria mantidos sob obrigação governamental. 

Ontem pela manhã, o Irã atacou três navios que cruzavam clandestinamente o Estreito de Ormuz. Uma das embarcações teria sido atingida por um "projétil desconhecido", como relatou a autoridade marítima do Reino Unido, enquanto navegava em uma região próxima a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Outro navio de carga pegou fogo e precisou ser evacuado ao norte da Península de Musandam, em Omã, após também ser atingido. Desde o início dos conflitos, 13 embarcações foram atacadas na região, de acordo com o órgão britânico.

O porta-voz do quartel-general do comando militar iraniano de Khatam al-Anbiya, em Teerã, Ebrahim Zolfaqari, emitiu uma mensagem de alerta para os Estados Unidos: "Preparem-se para o barril de petróleo chegar a US$ 200, porque o preço do petróleo depende da segurança regional, que vocês desestabilizaram", disse, em referência aos norte-americanos.

Petrobras

O Brasil, que não integra a AIE, segue sem anunciar medidas concretas para conter os efeitos inflacionários da crise. Na última segunda-feira, em entrevista à agência de notícias Bloomberg, em Nova Iorque, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reforçou que a estatal analisa os cenários. "Estamos acompanhando de perto todos esses acontecimentos e vamos reagir no momento certo. Precisamos ter certeza de que não se trata de uma tendência passageira e de que o cenário é razoavelmente estável para nos permitir seguir na direção correta", afirmou.

Para o economista e consultor de Riscos Rodrigo Provazzi, o anuncio da AIE trará, curto prazo, efeito "psicológico e financeiro". Segundo ele, a medida sinaliza ao mercado que há oferta disponível para mitigar o choque. A médio prazo, no entanto, o impacto seria limitado. "Trata-se de um instrumento temporário: se a interrupção logística no Oriente Médio persistir, especialmente no Estreito de Ormuz, os estoques apenas 'compram tempo'", avalia.

 Na visão do gerente do núcleo de Energia e Sustentabilidade da BMJ Consultores, Leon Rangel, qualquer pressão sobre o preço dos combustíveis deve ser olhada com atenção pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo em ano eleitoral. Nesse cenário, ele acredita que a Petrobras pode buscar ampliar a produção de petróleo nacional, com vistas a aumentar a exportação. "A gente vai ter que ver se tudo que ela (Petrobras) vai ganhar com a exportação de petróleo bruto ela vai conseguir segurar nesses repasses nacionais. Qual a vantagem para o Brasil? A gente poderia exportar muito, arrecadar bastante e você absorve parte dos custos e aposta em biocombustíveis. Mas o problema ainda é o diesel, que o país ainda importa muito", comenta o especialista.

Leilão 

Em resposta às pressões do setor privado, a Petrobras realizou, ontem, um leilão no qual vendeu 20 milhões de litros de diesel para entrega a partir de 16 de março. Na segunda-feira, o Sindicato Nacional Transportador, Revendedor e Retalhista de combustível (SindTRR) reclamou junto à Agência Nacional de Petroleo, Gás natural e Biocombustíveis (ANP) dificuldade no fornecimento do diesel por parte das distribuidoras. 

 No leilão de ontem, a Petrobras vendeu o combustível a um preço R$ 1,80 acima do que comercializa nas suas refinarias. "A venda de produtos por meio de leilão é uma prática comercial prevista nos contratos firmados com as distribuidoras, com o objetivo de complementar a oferta regular ou a captura de oportunidades através da venda de volumes adicionais, de forma competitiva, transparente e isonômica", informou a estatal.

A Petrobras vem sofrendo críticas por parte das refinarias privadas e de importadoras por manter os preços da gasolina e do diesel inalterados, mesmo diante dos ataques. 

A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), divulgou nota apontando defasagem média de R$ 2,74 por litro de óleo diesel e de R$ 1,22 por litro de gasolina. 

A Federação Única dos Petroleiros (FUP), por sua vez, divulgou nota na qual acusa o setor de tentar reduzir  artificialmente a oferta, para desabastecer o país. "É um absurdo ameaçar o país com desabastecimento para forçar aumento de preços. O Brasil produz petróleo a custos muito baixos, especialmente no pré-sal, que está entre os mais baratos do mundo. Usar o risco de falta de combustível para pressionar reajustes é uma prática abusiva, que penaliza diretamente a população brasileira", afirmou Deyvid Bacelar, coordenador-geral da FUP.

 

 


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