
Em meio à preocupação do Planalto com o tamanho da fila de acesso a benefícios da Previdência, como aposentadorias e pensões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demitiu, ontem, o presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Gilberto Waller. A diminuição da fila do INSS foi uma promessa de campanha feita por Lula em 2022, que o governo não deu conta de cumprir até o momento.
Ao longo dos três anos de governo, a promessa foi renovada algumas vezes, sem sucesso. Faltanto seis meses para o novo pleito, Lula tenta a missão impossível de reverter a situação, em que o número dos que aguardam por atendimento, na verdade, dobrou.
Durante a gestão de Waller, a lista de espera chegou ao recorde de 3,1 milhões de requerimentos, marca atingida em fevereiro deste ano.
O presidente Lula nomeou a servidora de carreira Ana Cristina Viana Silveira, que está há 23 anos no órgão para comandar o órgão. Com a mudança, o governo espera minimizar o impacto da demora na aprovação de Lula.
A troca no INSS foi divulgada pelo Ministério da Previdência, em nota, na manhã de ontem. "Agradeço a Gilberto Waller pela importante contribuição nesse período e dou as boas-vindas à Dra. Ana Cristina. Ela tem o perfil ideal para iniciar esse novo momento e cumprir a determinação do presidente Lula, que é solucionar a fila e não deixar nenhum brasileiro para trás. Sua nomeação também entrega o comando do instituto nas mãos de seus próprios servidores. Tenho a alegria ainda de anunciar mais uma mulher para a alta cúpula do órgão, que já tem quatro diretoras", disse o titular da pasta, Wolney Queiroz, no comunicado.
O ministério colocou a redução da fila como prioridade para a nova titular que, segundo a nota, "compreende o fluxo previdenciário desde o atendimento nas agências até a fase recursal", e trará um "novo momento" para o INSS focando na redução da espera e na qualidade de atendimento aos segurados.
A troca atende à preocupação do Planalto com o impacto negativo do crescimento da fila de acesso aos benefícios entre os eleitores às vésperas das eleições. Waller assumiu em maio, quando a espera estava em 2,5 milhões de requerimentos. Em fevereiro deste ano, atingiu o maior patamar da história, com 3,1 milhões. Na avaliação do Planalto, a demora para obter benefícios do INSS pode prejudicar a aprovação de Lula em ano eleitoral e servir de munição para opositores, já que zerar a fila foi uma de suas promessas de campanha em 2022.
A expectativa é de que a nova presidente do INSS possa avançar com a redução da fila. A servidora ingressou no órgão em 2003. Ao presidir o Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS), por quase três anos, dobrou a capacidade de análise de recursos, segundo a Previdência.
Minutos após a publicação da troca no comando do INSS, Gilberto Waller divulgou um levantamento, no portal do órgão, apontando redução da fila em março e um volume recorde de processos concluídos no mês. Segundo o Instituto, a fila saiu de 3,1 milhões para 2,7 milhões, após a conclusão de 1,625 milhão de processos no mês. Porém, a espera continua com números altos e não foi suficiente para manter Waller no cargo.
"Estamos mudando o ritmo do INSS. Esse resultado histórico é fruto de uma atuação firme, com foco na produtividade e no atendimento ao cidadão. A fila está caindo porque estamos trabalhando mais e melhor", destacou Waller.
Lavajatista
O agora ex-presidente do INSS manteve relação complicada com Queiroz nos 11 meses em que ocupou o cargo, com troca de farpas e disputa pela nomeação de cargos. Waller foi nomeado por Lula no final de abril do ano passado, em meio ao escândalo com descontos bilionários de aposentadorias e pensões. Ele substituiu Alessandro Stefanutto, que foi investigado e preso pela Polícia Federal (PF) na Operação Sem Desconto.
A sua missão, ao ser nomeado, foi a de conter a crise, afastar envolvidos no escândalo e recuperar a imagem do órgão. Poucos dias depois, Wolney Queiroz foi nomeado ministro da Previdência no lugar de Carlos Lupi, demitido também por conta da repercussão das fraudes.
Inicialmente, o ministro assinou uma portaria permitindo que Waller tivesse autonomia para nomear cargos dentro do INSS, mas a revogou meses depois, após o então presidente do órgão mudar nomes indicados politicamente sem o aval de Queiroz. Em junho do ano passado, durante evento em comemoração ao aniversário do INSS, o ministro, dirigindo-se a Waller, disse que falou mal dele ao presidente Lula e o chamou de "frio" e "lavajatista".
O episódio mais recente de tensão foi quando Waller, em ofício, pediu ao ministro a exoneração da vice-presidente do INSS e diretora de Tecnologia e Informação, Léa Bressy Amorim, em novembro passado. O argumento era o de que ela teria relações pessoais com Stefanutto, e a demissão serviria para "proteger o interesse público". Wolney Queiroz, por sua vez, criticou "acusações subjetivas" e disse não haver provas de irregularidades na atuação da servidora.
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Victor Correia
RepórterJornalista formado pela UnB, com especialização em Jornalismo Digital pela FAAP. Repórter de Política no Correio desde 2022, atualmente como setorista no Planalto. Também estagiou em Ciência, Saúde e Tecnologia no Correio entre 2016 e 2018.

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