Caso Vorcaro

Com Campos Neto, BC enviou 31 notificações de irregularidades ao Master

Notificações foram enviadas entre 2022 e 2024, segundo relatório da Diretoria de Fiscalização. Banco só foi liquidado em 2025

As irregularidades praticadas pelo Conglomerado Prudencial Master, que tinha o Banco Master como empresa líder, e o agravamento da crise de liquidez da instituição financeira estavam no radar do Banco Central desde 2022, quando a Diretoria de Fiscalização da autoridade monetária identificou o descumprimento sistemático das normas que regem o Sistema Financeiro Nacional. Entre 2022 e 2024, último ano da gestão de Roberto Campos Neto como presidente do BC, a autoridade monetária encaminhou 31 ofícios ao Master com "determinações de ajustes de provisões, reforço de capital e melhoria das práticas de gestão", segundo relatório da Diretoria de Fiscalização ao qual o Correio teve acesso. Desses ofícios, 18 foram expedidos entre 2022 e 2023. Em 2024, último ano de Campos Neto no cargo, o Master foi notificado 13 vezes.

Boa parte dessas notificações tratava da "reiterada incapacidade do Conglomerado de atender às exigibilidades de recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo" — regra que obriga os bancos a depositar no BC, de forma obrigatória, uma fatia dos depósitos dos clientes. Para o BC, o descumprimento da norma foi um "indicativo eloquente" da incapacidade do Master de honrar seus compromissos.

Embora o atual presidente da autarquia, Gabriel Galípolo tenha defendido, ontem, em depoimento no Senado, a atuação de Campos Neto no processo (Leia ao lado), a liquidação extrajudicial do conglomerado, só começou a ser decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, com Galípolo no comando. Mesmo assim, o grupo foi liquidado em fatias, começando pelo Master, que tinha 5,3 milhões de clientes apenas na carteira de crédito consignado. O BC avaliava que, pelo menos, duas empresas ligadas ao Prudencial Master poderiam ser vendidas, preservando os interesses dos clientes, em uma solução de mercado: a Will Financeira e o Banco Master Múltiplo, que entraram em Regime de Administração Especial Temporária (Raet). Como não houve avanço na tentativa de repassar essas empresas a outras instituições financeiras, ambas também foram liquidadas extrajudicialmente, em janeiro e em março deste ano, respectivamente.

BRB

O anúncio de um acordo com o Banco de Brasília (BRB) para aquisição de participação no capital do Master, que poderia ajudar a melhorar o desequilíbrio financeiro da instituição, em vez de tranquilizar o mercado, piorou a situação. Segundo o relatório da Diretoria de Fiscalização, que fundamentou o voto pela liquidação extrajudicial do Master, após o anúncio do fato relevante, em 28 de março do ano passado, em que o banco público do DF formalizou o interesse em se associar ao banco de Daniel Vorcaro, a situação do Master só se agravou.

O BC identificou "aumento significativo de negociações dos CDBs do Conglomerado no mercado secundário", quando muitos investidores passaram a vender seus títulos com deságio, "restringindo ainda mais a capacidade de colocação de novos CDBs no mercado primário e, consequentemente, dificultando a rolagem do passivo do grupo". Nessa época, o Master já estava proibido de vender CDBs com rendimento acima de 100% do CDI (taxa interbancária que segue a variação da Selic). Nos bons tempos de captação, o banco chegou a oferecer 140% do CDI como remuneração de seus CDBs, sem conseguir alavancar recursos para honrar os compromissos.

A operação BRB-Master foi vetada pelo BC em setembro de 2025, após a fiscalização do BC constatar "indícios de fatos que configuram crime contra o Sistema Financeiro Nacional", como a cessão ao BRB de créditos inexistentes. Esses "fatos" foram informados ao Ministério Público Federal em julho de 2025.

O Banco Central reconhece que, ao longo dos últimos quatro anos, "sempre vislumbrou" a possibilidade de uma "solução de mercado" para a crise do Master, que gerasse "menor custo para a sociedade, quando comparada a medidas de saída forçada impostas pelo regulador" — intervenção ou liquidação extrajudicial.

No caso da Will Financeira, o BC esperava que a empresa fosse vendida para preservar o interesse dos clientes — em sua maioria, das classes C, D e E, com saldo médio de apenas R$ 300,00. O principal mercado da financeira estava em cidades do interior do Nordeste, com menos de 100 mil habitantes. Em resposta a questionamentos feitos pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o BC informou, em dezembro do ano passado, que a liquidação extrajudicial da Will "traria efeitos sociais extremamente adversos e dificilmente reversíveis".

 

 


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