Caso Master

"BC não tem que reagir a pressão", diz Galípolo no Senado

Presidente da autoridade monetária sobe o tom ao ser questionado sobre o processo de liquidação do banco de Daniel Vorcaro

Gabriel Galípolo, do BC e Renan Calheiros, presidente da CAE, discutiram em audiência pública sobre a crise provocada pelo Master -  (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
Gabriel Galípolo, do BC e Renan Calheiros, presidente da CAE, discutiram em audiência pública sobre a crise provocada pelo Master - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

Conhecido pelo perfil tranquilo e sóbrio, mesmo sob pressão, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, subiu o tom, ontem, em discussão com o aliado do governo, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL). O senador afirmou que o chefe da autoridade monetária teria defendido a operação de venda do Banco Master ao BRB e teria intercedido para que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) socorresse o banco de Daniel Vorcaro.

Renan perguntou a Galípolo por que o BC enviou, em 18 de abril de 2025, uma correspondência ao FGC reconhecendo "a presença de situação especial que autorizava a adoção de medidas que visassem a assegurar a normalidade da economia pública e a resguardar os interesses dos depositantes, investidores e demais credores" do Master, "com menor custo para a sociedade e para o próprio FGC, em comparação com os efeitos da liquidação extrajudicial".

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Segundo relatório do BC ao Tribunal de Contas da União, ao qual o Correio teve acesso, a "situação especial" foi confirmada por ofícios de duas diretorias da autoridade monetária — de Fiscalização (Difis) e de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução (Diorf). Três dias antes, em 15 de abril, o Master havia entrado com pedido de "assistência financeira de liquidez" ao FGC no montante de R$ 11 bilhões para "honrar passivos de curto prazo". Em 19 de abril, em outro ofício, o BC "ponderou a relevância de estratégia coordenada" com o FGC para "mitigar o risco de contágio sistêmico a instituições de perfil semelhante" ao Master.

Ao interpelar o presidente do BC, Calheiros cobrou uma explicação sobre essa posição da autarquia em relação à proposta do Master de buscar socorro de R$ 11 bilhões no caixa do FGC. Galípolo negou categoricamente que a autoridade monetária tenha intercedido junto ao fundo para ajudar o Master a sair da crise, ignorando as correspondências citadas no relatório do próprio BC.

"A informação está errada. Não há nenhuma carta com valor de R$ 11 bilhões, o Banco Central jamais tentou viabilizar a venda (do Master). O BC está respondendo, agora, ao TCU, a uma acusação por não ter autorizado (a operação de venda). O que houve, por parte do Banco Central, foi uma resistência técnica para olhar e analisar o projeto e entender que não era viável aquela compra", disse Galípolo, na CAE.

O clima de tensão aumentou quando Renan criticou a ausência de uma reação pública mais incisiva do Banco Central diante de propostas apresentadas por integrantes do Centrão que dariam poder ao Legislativo para destituir o presidente e diretores do Banco Central. Galípolo respondeu afirmando que a autoridade monetária não deve atuar como agente político. "O Banco Central não tem que pegar a televisão, gravar um Instagram, um TikTok fazendo isso. O Banco Central não é palanque. O Banco Central toma a decisão correta, independente de quem está jogando pedra e fazendo barulho", declarou durante a sessão.

Cobrado, mais uma vez, por Renan por não ter reagido à pressão do Centrão, Galípolo rebateu de forma categórica que este não é o papel da autoridade monetária. "O Banco Central não tem que reagir a pressão. A minha posição é não reagir a pressão", frisou Galípolo, queixando-se de que os senadores não permitiam que ele formulasse seu pensamento para responder.

Sobre apoio à venda do Master ao BRB, Galípolo negou, alegando que a autarquia não comenta operações envolvendo instituições específicas. "O Banco Central jamais diria que a operação é correta, porque o Banco Central não comenta sobre instituição particular", afirmou. Em seguida, sustentou que a decisão de barrar a venda ao BRB foi do BC e que foi adequada.

Pix

Durante mais de três horas da audiência pública, Galípolo respondeu sobre outros temas, como investigações sobre o Pix pelos Estados Unidos. Ele afirmou que o Pix fortaleceu a inclusão financeira no país, negou que a ferramenta concorra com cartões de crédito e avaliou que a economia brasileira segue aquecida, mesmo com a taxa básica de juros em nível restritivo.

Ao defender a autonomia da instituição, Galípolo afirmou temer que o Banco Central seja "asfixiado" justamente por evitar participar do "jogo político". Segundo ele, o risco é que futuras gestões cedam a pressões externas. "O meu receio é que o fato de o Banco Central não negociar o seu mandato o faça ser asfixiado, porque não entra em jogo político", disse. O presidente do BC também voltou a apoiar a Proposta de Emenda à Constituição que amplia a autonomia administrativa, financeira e orçamentária da instituição, atualmente em discussão no Senado.

Na audiência, Galípolo ainda comentou o cenário econômico brasileiro e afirmou que a combinação de desemprego baixo, aumento da renda e atividade aquecida continua pressionando a inflação. Segundo ele, mesmo com a taxa Selic em patamar elevado, a economia segue demonstrando resiliência. "As taxas de juros estão num nível bastante restritivo comparando com outros países, mas a gente assiste a uma economia que vem demonstrando resiliência, desemprego baixo, renda crescendo e indicadores bastante pressionados, apesar dos juros elevados", afirmou.

O presidente do Banco Central explicou que o principal instrumento da autoridade monetária para controlar a inflação é justamente a política de juros. De acordo com ele, quando a demanda cresce acima da capacidade de oferta da economia, o BC é levado a endurecer a política monetária para tentar trazer a inflação de volta à meta. Ele também lembrou as medidas adotadas durante a pandemia de covid-19, quando bancos centrais ao redor do mundo foram obrigados a reduzir fortemente as taxas de juros.

 


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postado em 20/05/2026 03:43 / atualizado em 20/05/2026 09:13
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