
No dia de seu aniversário, a haitiana Guerlande recebeu o diploma de conclusão do curso de panificação do projeto Mulheres Fortes. No auditório do Senai, em Boa Vista, ela e outras 49 mulheres comemoravam a conquista após quatro meses de aulas sobre empreendedorismo gastronômico.
Um dia antes da formatura, Guerlande e suas colegas prepararam os quitutes para o evento. O cardápio incluía bolos, salgados e doces. A convivência com mulheres venezuelanas ensinou a haitiana a fazer as famosas “empanadas”, prato típico da Venezuela.
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“Eu já vendo pastel e empanadas, tenho um carrinho. Meu plano é ter uma padaria para fazer salgados e doces”, planeja. No curso, ela também aprendeu sobre técnicas de vendas, marketing e gestão de negócios.
Do Haiti ao Brasil: uma história sendo escrita
Guerlande trabalhava em bares e restaurantes em seu país natal, onde morava com os pais e duas filhas. Ela relata que a vida no Haiti estava muito complicada e decidiu partir. “Para não perder minha vida no Haiti eu resolvi sair. As coisas estavam muito difíceis. Tenho marcas no meu corpo. É difícil falar”, compartilha.
Ela chegou ao Brasil em 2018, por Foz do Iguaçu. Conseguiu um emprego no setor de alimentos no Mato Grosso do Sul e, depois, mudou-se para Chapecó (SC). Parte de sua trajetória foi marcada por episódios de violência.
Um estudo do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) com o ACNUR indica que haitianos permanecem em situação de vulnerabilidade. Enfrentam barreiras como idioma, discriminação, xenofobia e racismo.
“As condições de trabalho dessa população continuam marcadas por vulnerabilidades estruturais, incluindo rendimentos inferiores”, destaca Paulo Sérgio de Almeida, do ACNUR. Ele aponta que o empreendedorismo é um caminho para a autonomia econômica.
Em Santa Catarina, uma amiga venezuelana falou sobre Boa Vista. Em 2025, Guerlande decidiu se mudar com os filhos para o norte do país. “Uma mulher me disse que se eu fosse para Boa Vista eu ia poder reconstruir a minha vida sozinha com meus filhos”, conta.
Ao chegar, conheceu o Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados, que a ajudou a matricular o filho na escola, obter o Bolsa Família e a se inscrever em um curso de português. Em seguida, encontrou o projeto Mulheres Fortes, uma iniciativa do ACNUR, Instituto Hermanitos e Ministério Público do Trabalho (MPT-AM/RR), com apoio do TRT-11.
“Eu cheguei aqui em Boa Vista e muita coisa maravilhosa começou a acontecer para mim. Consegui um incentivo financeiro para meu negócio”, comemora. O projeto oferece formação e ferramentas para que as mulheres transformem suas experiências em autonomia.
“O Mulheres Fortes cria redes de confiança entre mulheres de diferentes nacionalidades, fortalecendo a integração”, explica Tulio Silva, diretor do Instituto Hermanitos. Para Guerlande, a experiência abriu sua mente e lhe deu sabedoria.
Além dos planos para a padaria, a haitiana quer se naturalizar brasileira com seus dois filhos. “Meu plano é ser exitosa. Tenho fé que vou ficar aqui para ter minha casa própria, criar meus filhos, comprar meu carro. Quero fazer minha vida aqui em Boa Vista. Aqui é meu lugar.”
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
