
A atuação de organizações criminosas tem alcançado diferentes setores da economia, impulsionada pelo volume de recursos gerado pelo tráfico de drogas e pela exploração de atividades ilícitas, segundo o professor do Instituto de Relações Internacionais e coordenador da Escola de Segurança da Universidade de São Paulo (USP), Leandro Piquet Carneiro. O especialista foi um dos convidados do CB Talks Segurança para o desenvolvimento do Brasil: uma agenda contra o crime organizado, evento promovido pelo Correio nesta terça-feira (15/9).
Segundo o professor, a redução das taxas de homicídio observada no Brasil e em outros países da América do Sul ocorre paralelamente a uma mudança no perfil dos problemas relacionados à criminalidade. Nesse cenário, ganham importância os chamados crimes baseados em mercado, que envolvem a produção, distribuição e comercialização de bens e serviços ilícitos.
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A cocaína, de acordo com o especialista, ocupa papel central nesse processo. O dinheiro proveniente do tráfico permite que organizações criminosas ampliem sua presença em outras atividades, como o garimpo ilegal, a grilagem de terras, o comércio de madeira e o setor de defensivos agrícolas.
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O fenômeno foi definido pelo professor como uma forma de “convergência criminal”, caracterizada pelo encontro entre diferentes agentes, incluindo criminosos e empresários interessados em utilizar métodos ilícitos para ampliar negócios.
“Das bets aos terminais portuários, da distribuição de GLP ao combustível líquido. Todos esses setores sofrem com a pressão exercida por esse tipo de organização, que opera principalmente a partir do tráfico ilícito de drogas. E isso, por óbvio, coloca uma grande questão aqui: o regime de proibição”, analisou.
Para Carneiro, a questão impõe um desafio à formulação de políticas públicas. De acordo com ele, a elaboração de regras para determinados setores deveria considerar não apenas seus efeitos econômicos e sociais, mas também a possibilidade de captura dessas atividades pelo crime organizado.
“O problema do crime se converteu em um problema ligado à regulação e à capacidade de controle de vários aspectos específicos de mercados. Se há uma regulação inadequada, se há uma capacidade de fiscalização e controle inadequada, o crime organizado tem a capacidade de capturar e infiltrar esse mercado”, avaliou.
“O legislador e o regulador brasileiro agora têm que fazer um exercício básico: a minha decisão vai impactar de que forma ou vai criar que tipo de oportunidade para que o crime organizado possa capturar essa atividade?”, pontuou.
*Estagiária sob a supervisão de Rafaela Gonçalves




