Mercado financeiro

Embalado pelas urnas, Ibovespa dispara 7,7% e dólar cai para R$ 5

A reação do mercado vem após o presidenciável Flávio Bolsonaro superar o presidente Lula no resultado das urnas no primeiro turno, decidido no domingo. O pregão da Bolsa encerrou acima dos 200 mil pontos

Para analistas, as apostas são de redução da Selic pelo BC em uma eventual vitória bolsonarista, já que a tendência é de contenção de gastos -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Para analistas, as apostas são de redução da Selic pelo BC em uma eventual vitória bolsonarista, já que a tendência é de contenção de gastos - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

O mercado financeiro registrou, na sessão de ontem, reação eufórica ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. O Ibovespa ultrapassou, pela primeira vez, a marca dos 200 mil pontos, encerrando o dia com  crescimento de 7,7%, aos 206.911 pontos, após ter alcançando a máxima de 209,6 mil pontos. O dólar comercial também registrou forte queda. A moeda recuou 4,71% na abertura e passou a ser negociada entre R$ 4,95 e R$ 4,98, encerrando em R$ 5.

A euforia do que foi conhecido como "Flávio day" foi atribuída ao resultado das urnas na corrida presidencial, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou a primeira etapa da disputa na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 45,16%. Os dois candidatos disputarão o segundo turno. Entre as ações negociadas na B3, os papéis da própria B3 e da XP registraram altas superiores a 20%. Entre os grandes bancos, Bradesco, Banco do Brasil e Itaú avançaram entre 10% e 13%.

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No mesmo dia, o câmbio também foi favorável ao real. A cotação do dólar comercial cedeu 4,12% nesta segunda-feira, e a moeda norte-americana encerrou o pregão sendo vendida a R$ 5. O movimento fica ainda mais impressionante tendo em vista que, no exterior, a divisa dos EUA se valorizou ante outras cotações, com o Índice DXY fechando o dia em alta de 0,21%. O resultado da bolsa e do dólar no primeiro dia da semana torna impossível dissociar esses movimentos com o primeiro turno das eleições, domingo.

Apesar de ter sido uma surpresa para a campanha de Lula, o mercado já trabalhava com a eleição de Flávio como um cenário mais provável, de acordo com os principais bancos de aposta (benchmarks) no exterior, que desde meados de setembro já apontavam favoritismo do candidato do PL. Na Polymarket — uma dessas plataformas —, Flávio aparece com 83% de chance de vitória contra 17% do petista, após o resultado do 1º turno. É bom ressaltar que esses indicadores não representam pesquisas eleitorais e refletem apenas a percepção de agentes do mercado em relação ao cenário atual.

A valorização acima do normal do Ibovespa nesta segunda-feira está longe de ser um movimento isolado, quando se observa os dias que se seguiram ao primeiro turno das eleições presidenciais em anos anteriores. Em 2022, inclusive, após o resultado que confirmou Lula à frente de Jair Bolsonaro, o principal índice da B3 registrou um crescimento de 5,54%. Em 2018, na eleição que consagrou Bolsonaro como presidente, a valorização havia sido de 4,57%, enquanto em 2014, com Dilma Rousseff (PT) à frente da corrida naquela ocasião, o Ibovespa cresceu 4,72%. O dia seguinte à eleição de 2026, portanto, também indica um recorde de alta da bolsa de valores se comparado às edições anteriores.

Um levantamento realizado pela Elos Ayta Consultoria indica, ainda, que o Ibovespa superou o pico histórico de 2008, mesmo descontada a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Ao considerar esses efeitos, o maior patamar do principal índice da B3 havia sido de 201 mil pontos em 20 de maio de 2008, enquanto que, nesta segunda-feira, ultrapassou os 206 mil pontos. No caso do dólar, foi a maior queda diária desde 25 de setembro de 2015, quando recuou 5,89%, e a segunda maior desde 2010.

Expectativas

Na visão do analista de investimentos Felipe Sant'Anna, o mercado já trabalhava com a possibilidade de que Flávio chegasse à frente do Lula em um eventual segundo turno. Segundo ele, o cenário estava 'dentro dos cálculos', mesmo com a maioria das pesquisas de intenção de voto indicarem Lula numericamente acima de Flávio até a véspera do primeiro turno. "Alguns bancos também já tinham esse cálculo. Só que para a imprensa eles ficaram: 'não, estamos vendo, estamos aguardando' e tudo mais", comenta.

Apesar da elevação abrupta dos gastos, principalmente em razão da pandemia de covid-19, Sant'Anna acredita que o mercado vê Flávio como uma continuação do governo do pai no sentido de adotar uma política mais austera em relação ao controle das despesas e receitas. "Foi um governo economicamente melhor do que o do governo Lula. Até porque nós temos vários indicadores hoje no governo Lula que a gente sabe que são artificiais, estão mascarados. Por exemplo, a inflação e a taxa de desemprego", avalia.

Apesar de ser mais cético por uma solução imediata, o mercado acredita que 'pior não fica', na visão do economista-chefe da Bluemetrix Asset, Renan Silva. "O discurso do candidato Flávio Bolsonaro, conjuntamente com a sua pretensa ministra, a Daniella Marques, vem justamente almejando os cortes dos gastos públicos, redução dos ministérios, reequilíbrio fiscal, mais disciplina na questão do teto do gasto. É muito provável que volte o teto do gasto, como ele era originalmente", destaca o economista.

Apesar do movimento abrupto da Bolsa e do câmbio, o economista e diretor da VLGI Asset, Matheus Portela, pondera que, por enquanto, isso seria apenas uma reprecificação de expectativa, e não de fundamento. "Entre sexta e hoje (ontem), nada na economia mudou: dívida em 82,9% do PIB, resultado primário negativo, PIB projetado em 1,85% para 2026. O que mudou foi o prêmio de risco político, e a expectativa é volátil nos dois sentidos", considera o especialista.

Segundo Portela, a sustentabilidade desses indicadores depende de três situações: o resultado do segundo turno em 25 de outubro, a definição da equipe econômica e da agenda fiscal, e a confirmação pelos dados. "Se o real mais forte se sustentar, ele alivia a inflação e abre espaço para o Banco Central cortar a Selic mais rápido. O Morgan Stanley projeta o Ibovespa em 250 mil pontos no cenário mais otimista. Mas são premissas que ainda precisam se confirmar", pondera.

 


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postado em 05/10/2026 23:04
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