W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

Moradores e empresários reforçam vocação cultural da W3

Espaço Cultural Renato Russo e Fundação Athos Bulcão mostram que a avenida pode ir além do comércio e entregar cultura e arte de qualidade

Passarela dos carnavais e avenida mais presente na memória e no dia a dia de milhares de brasilienses, a W3 não é um ponto importante apenas no comércio: é um verdadeiro corredor cultural em Brasília. O esvaziamento da via e a necessidade de revitalização, no entanto, tiraram a atratividade, a nas noites predomina o vazio. 

Entre os 21 espaços culturais mapeados pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), apenas um fica na W3, o Espaço Cultural Renato Russo. Mas outras iniciativas resistem e levam cores à avenida. Um desses locais que atrai visitantes e eleva o potencial turístico é a Fundação Athos Bulcão, galeria criada pelo famoso azulejista, que conta com exposições de diversos artistas, oficinas e atividades com escolas.

“Aqui eles são recebidos por uma arte-educadora que mostra a galeria. Depois, vão fazer uma oficina, escutam sobre o Athos, veem vídeos”, elenca a presidente da fundação, Valéria Cabral. “No fim, eles recebem um azulejo branco e, com esse azulejo e papel contact, recortam e fazem a releitura de uma obra do Athos”, destaca. Na avaliação dela, essa é uma forma não só de divulgar o trabalho do artista, mas de contribuir para o processo de aprendizagem dos alunos. 

Memória afetiva

A galeria não iniciou na W3, mas acabou encontrando na via um lugar ideal, pelo tamanho dos imóveis, valores e, claro, a memória afetiva. Criada na 308 Sul, Valéria conta sobre a vida na avenida e lamenta a perda do potencial cultural dos anos iniciais, com o fechamento de vários cinemas de rua, entre eles o cineclube do Cinecultura, na 507 Sul. “Era muito importante, formou muita gente.”

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -

A Fundação se mudou para a W3 no mesmo período em que as discussões sobre a revitalização começaram. Para a curadora, no entanto, as obras foram insuficientes. “Falta vontade política, que é uma coisa que eu sempre digo, em colaborar para que as pessoas venham para cá. Os artistas podem fazer seus ateliês, mas cadê uma dispensa de imposto ou do IPTU?”, questiona.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - Valéria Cabral

Meu palco é a rua

Para a professora Rosângela Barros, a revitalização da W3 passa por incluir a via novamente no roteiro cultural de Brasília. A avenida já foi palco de desfiles, de festas de fim de ano e, claro, dos famosos carnavais de Brasília. Os blocos do DF, no entanto, não passam mais por ali, e a W3 permanece silenciosa e inalterada durante o período carnavalesco. 

Em 2020, a W3 do Lazer, projeto que bloqueava a passagem de veículos aos domingos e feriados para atividades ao ar livre, foi uma tentativa de reinserir a avenida nas atividades culturais. As atividades, no entanto, acabaram suspensas em 2021 após reclamações de comerciantes, sobretudo das entrequadras e das redes de mercado.  

Milvo Rossarola, 54 anos, mora próximo à W3 e é um frequentador assíduo dos eventos na capital. Para o aviador, a vida cultural na via é tímida em relação às décadas anteriores. “Qualquer evento cultural que tiver na W3, eu participo, até como forma de incentivar”, comenta. “A W3 tem um potencial fantástico de resgatar uma cidade que parou no tempo”, avalia. Além das queixas dos comerciantes, ele afirma que a Lei do Silêncio é um empecilho para a revitalização da cena noturna.

Ele chegou a frequentar a W3 do Lazer, e lamenta o fim dos eventos. Para ele, a via é um ambiente mais propício do que o Eixão pela facilidade no acesso e presença das árvores nos canteiros centrais. Apesar de reconhecer iniciativas, como os eventos públicos promovidos pelo Sesc, Milvo acredita que as atividades ficam restritas a apenas um trecho da avenida e que é preciso vontade pública e privada. “Brasília precisa voltar a ter vida”, declara.

Arquivo público do Distrito Federal -
Arquivo Público do Distrito Federal -
Arquivo Público do Distrito Federal -
Arquivo Público do Distrito Federal -
Arquivo Público do Distrito Federal -
Arquivo Público do Distrito Federal -

Música brasileira e internacional

Para reacender os eventos culturais, o Sesc criou o Sesc+W3. As atividades ocorrem a cada dois meses, com atrações nacionais e um palco na rua, em frente ao Sesc 504 Sul, primeira unidade construída em Brasília.

“Já saímos também para outros lugares, mas, sem dúvida nenhuma, não podemos esquecer a revitalização e a modernização da W3”, comenta José Aparecido da Freire, presidente do Sistema Fecomércio no DF. Ele cita ainda outros eventos promovidos pela organização em regiões administrativas, como o Sesc+Rock, no Gama, o Sesc+Sertanejo, que teve a última edição em Taguatinga, e o Sesc Estação Blues, na unidade da 504 Sul. 

A última edição do Sesc+W3 ocorreu em 11 e 12 de abril. Com atrações como a cantora baiana Rachel Reis, o DJ VHOOR e a banda Maneva, o evento atraiu cerca de 16 mil pessoas para a avenida. 

Crislayne Almeida - Sesc-DF -
Crislayne Almeida - Sesc-DF -
Vagner Carvalho - Sesc/DF -

História e cultura

É impossível falar de cultura e W3 na mesma frase sem citar o Espaço Cultural Renato Russo. O local pulsa criação artística desde a gênese. "Ele era um galpão de depósito da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), ainda na época da construção da cidade", conta Leandro Matias, gerente-geral do espaço, em entrevista ao Correio. "Os agentes culturais da época começaram a frequentar o local e a realizar apresentações. Depois, lutaram para que o espaço virasse o que é hoje", completa.

O centro cultural é uma evolução do Teatro Galpãozinho, registrado oficialmente em junho de 1975. "Só em meados de 1990 o local passou por uma grande reforma e, então, surgiu o Espaço Renato Russo. É uma homenagem", explica Matias. Ele ressalta que diversas salas do complexo celebram grandes nomes da capital, como Tullio Guimarães e Hugo Rodas. "Hoje é um espaço completo. Vai desde o polo de poesia, com a biblioteca de arte, até apresentações de circo, musicais, balé e oficinas", detalha.

Diálogo entre a W3 e a arte

Para Matias, a W3 Sul conseguiu um feito raro: unir comércio e arte em uma simbiose onde um potencializa o outro. Com o passar do tempo, contudo, tornou-se inegável o esvaziamento comercial da via, o que afeta o ritmo cultural. "O comércio sofreu pelas dificuldades logísticas da W3, desde o estacionamento até o acesso. Com isso, moradores deixaram de frequentar (as lojas)", observa.

O gerente reforça a percepção de que, no dia a dia, o espaço recebe muitos visitantes de outras regiões administrativas do DF. Para ele, a via tem capacidade de se reinventar para além das vendas. "O espaço cultural fica em uma quadra modelo, próximo ao Sesc e à Biblioteca (Demonstrativa). Entre a (quadra) quatro e a 12, temos um eixo muito rico de atividades culturais, gastronomia e lazer em espaços públicos", afirma.

Os desafios existem, mas a perspectiva para o futuro da W3 é otimista. "A expectativa é continuar desenvolvendo cultura. Quanto mais fortalecidos formos, mais pessoas terão acesso à arte. O comércio atraía muito público e a sua diminuição atrapalha, mas os espaços seguem firmes. Vamos nos adaptando, cuidando da acústica para não incomodar a vizinhança e abrigando diferentes manifestações para atender a todas as tribos", conclui.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
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Memória: Teatro Galpãozinho

É impossível falar de Espaço Cultural Renato Russo sem falar no inesquecível Teatro Galpãozinho. O local faz parte do Espaço desde de junho de 1975. O Galpãozinho surgiu como parte de um complexo de adaptações de galpões de armazenamento, tornando-se um marco da cultura brasiliense e ponto de encontro de artistas. O jornalista e cronista do Correio Severino Francisco relembre esses tempos com afeto. Veja o depoimento abaixo.

“Capital não pode ser passiva; capital tem de irradiar”

Por Severino Francisco

Aquele pedaço da 508 Sul já foi chamado de Broadway candanga, nas décadas de 1980 e 1990. A cultura fervilhava nas noites brasilianas. Lá, estava instalado um respeitável conjunto de casas de espetáculo e de espaço de educação pela arte: o Centro de Criatividade da 508 Sul (atual Espaço Cultural Renato Russo), o Teatro Galpão, o Galpãozinho, a sala Marcantonio Guimarães e, ao lado, o Teatro Escola Parque. Os atores não se formam nas salas suntuosas; eles se forjam nos teatrinhos precários.

Em 1982, assisti a Renato Russo, magricela e de óculos, pular de uma abertura do Teatro Galpão rumo a um palco suspenso, segurando uma corda como se fosse um Tarzan do Terceiro Mundo, na peça O último rango, dirigido por Jota Pingo. Renato empunhava uma guitarra, metralhava sons distorcidos e berrava os versos da canção Geração Coca-Cola.

E, ao fim do espetáculo, o público e os mendigos dos arredores eram convidados a compartilhar um sopão preparado pelos atores em enormes caldeirões, enquanto a peça era encenada. A peça misturava antropofagia com o desejo de comunhão social.

Lembro-me de, muitas vezes, estar na arquibancada do Teatro Galpão, flagrar alguém entrando sorrateiramente na sala e sentar-se no chão para ver o espetáculo. Era o embaixador Vladimir Murtinho, então secretário de Cultura do DF. Ele considera que a inovação viria do teatro amador; não do teatrão consagrado. Amava o teatro como poucos, assistia a quase todas montagens dos grupos brasilienses. “Capital não pode ser passiva; capital tem de irradiar”, repetia Murtinho.

Joaquim Firmino/CB/D.A Press - Clube do Samba no Teatro Galpãozinho, em 1979. Apresentação de Valério, do conjunto Primas Bordões

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