Entrevista

Paulo Roberto Falcão: "O Carlo Ancelotti gostaria de treinar o Brasil"

Condecorado com a Ordem da Estrela da Itália na Embaixada do país em Brasília, o Rei de Roma recorda a passagem pelo time giallorosso em entrevista ao Correio e revela que Ancelotti desejava a Seleção

Paulo Roberto Falcão durante a homenagem na Embaixada da Itália: pausa para assistir vídeo dos feitos na Roma antes de receber a Ordem da Estrela da Itália em Brasília -  (crédito: Leonardo Prado/Embaixada da Itália)
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Paulo Roberto Falcão durante a homenagem na Embaixada da Itália: pausa para assistir vídeo dos feitos na Roma antes de receber a Ordem da Estrela da Itália em Brasília - (crédito: Leonardo Prado/Embaixada da Itália)

Em 2024, a Itália comemora 150 anos da imigração no Brasil. Para brindar a data, o presidente do país europeu, Sergio Mattarella, e o embaixador na capital, Alessandro Cortese, condecoraram na última quarta-feira um craque de futebol protagonista da conexão entre as duas nações.

Aos 71 anos, o catarinense de Aberlardo Luz, Paulo Roberto Falcão, recebeu a Ordine della Stella d'Itália — a Ordem da Estrela de Itália. Falcão debutou com a camisa da Roma em 14 de setembro de 1980 ao lado de Tancredi, Spinosi, Maggiora, Turone, Romano, Conti, Di Bartolomei, Pruzzo, o amigo Carlo Ancelotti, técnico do Real Madrid, e Amenta. Era o primeiro de 152 jogos e 27 gols com a camisa do clube pelo qual conquistou o Campeonato Italiano na temporada de 1982/1983, a Copa Itália em 1980/1981 e 1983/1984 e foi vice da Liga dos Campeões da Europa em 1983/1984 na decisão contra o Liverpool no Estádio Olímpico, na capital italiana. Falcão ganhou dos torcedores do clube a alcunha de Il Divino (O Divino).

Para os brasileiros, é o Rei de Roma. Assim o embaixador Alessandro Cortese, torcedor da rival Lazio, referiu-se ao meia no emocionado — e irônico — discurso. "Estes sucessos que os torcedores da Lazio, como eu, apontam divertidamente como raros (risos) — lhe lograram o afeto de toda a torcida gallorroso e a admiração de todo o mundo do futebol italiano, que perduram até hoje. Sua figura foi tão icônica que chegou a ser chamado de Oitavo Rei de Roma". Emocionado, Falcão conversou com o Correio Braziliense sobre a homenagem, citou o técnico sueco Nils Liedholm como responsálvel pelo sucesso dele na Itália e revelou: "Ancelotti gostaria de treinar o Brasil".

Qual é o significado para o senhor de receber das mãos do embaixador Alessandro Cortese a Ordem da Estrela da Itália autorizada pelo presidente Sergio Mattarella?

É muita emoção. Primeiro, porque eu não esperava. Veio em um momento no qual não jogo mais futebol. Estava brincando que há quase 40 anos não faço gol. A vibração do gol da torcida da Roma sempre foi fantástica. Essa condecoração mostra não somente o campo de jogo, mas o que a gente fez fora do campo: posicionamento, postura, coisas que fizeram com que eu estivesse ganhando hoje essa condecoração.

E o senhor está emocionado...

A gente fica, assim, numa situação de medir as palavras, porque quando a gente fala além se emociona demais. É maravilhoso se emocionar. Estou tentando me segurar um pouco. Isso é muito meu. Tenho muitos momentos para me emocionar.

 

 

O que vem à lembrança da Roma nesses momentos?

Eu lembro sempre do Nils Liedholm, meu técnico na Roma. Quando ele foi embora da Roma para treinar o Milan, eu ia dar para ele a minha camisa número 5. Quando eu cheguei, ele perguntou: 'Qual é a camisa que você quer jogar? '. Respondi: 'Pô, mister, se não for criar nenhum constrangimento, eu gostaria de jogar com o número 5, mas o senhor quem decide.

Pedir a camisa cinco na Itália é quebrar protocolo...

A cinco era uma camisa que na Itália era usada pelo líbero, que jogava atrás da zaga. Eu jogava na frente. Lembrei dele agora, uma figura muito importante na minha vida italiana.

Nils Liedholm aceitou o risco?

Ele me deu a cinco. Eu fiz um texto à época, mandei entregar para ele, não entreguei pessoalmente, e disse: 'mister, estou mandando a mesma camisa que o senhor me deu quando cheguei aqui. Mandei entregar para o senhor porque se entregasse da minha mão para a sua, eu tenho certeza de que ficaríamos cheios de emoção e não valorizaríamos tanto o momento. Esconderíamos emoções, uma coisa típica nossa. Ele nos deixou faz muito tempo (8/10/1922 a 5/11/2007), mas aprendi muito com ele.

Qual é seu sentimento ao ouvir: "Rei de Roma"?

Quando as pessoas dizem isso como você está falando agora, eu sempre afirmo o seguinte: 'a vaidade adora, mas a inteligência bloqueia essa vaidade'. Eu sempre acho que a vaidade não pode ser maior do que a inteligência.

Incomoda?

É um exagero evidentemente, mas é um exagero que eu fico feliz, mas nesses momentos eu coloco a inteligência um pouquinho à frente da vaidade, mas fico feliz.

O senhor jogou com Carlo Ancelotti na Roma e quase trabalhou com ele na Seleção?

O Ancelotti tinha o Real Madrid como prioridade. Até dezembro (de 2023), não houve a manifestação (da CBF) e ele acabou aceitando a renovação com o Real Madrid.

Mas ele desejava esse desafio?

Ele gostaria de treinar o Brasil, sim. Ele é um cara com muita capacidade.

O Brasil teve três técnicos depois da saída de Tite: Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior.

Nós estamos vivendo uma dificuldade dentro da Seleção. Nós torcemos, queremos que vá bem, mas temos que dar um pouquinho de tempo. Estamos torcendo, os adversários são difíceis, não se tem tempo para treinar...

Concorda com as críticas de que temos uma geração ruim?

Nós temos um time, na minha avaliação, principalmente do meio para a frente, de muita qualidade. Do meio para trás tem que organizar um pouquinho taticamente, mas também tem jogadores que podem ajudar o Dorival Júnior.

A Seleção não tem muitos pontas e pouco talento ali naquele setor que você jogava, o meio de campo? Não falta um pensador, um Falcão?

Aí eu vou entrar numa seara que não gosto, porque eu também sou treinador e não quero criar constrangimento para ele. Eu acho que nós temos jogadores que podem formar uma Seleção que pode ir muito bem na Copa do Mundo e vamos classificar evidentemente.

Como vê esse renascimento do Botafogo?

O Botafogo fez um campeonato passado muito bom, teve algumas dificuldades, não conseguiu seguir. Isso fez com que ele crescesse. Ganhou a Libertadores neste ano e vai continuar crescendo. O Botafogo tem muita história no futebol, certamente vai se aproveitar desse momento para manter, não deixar cair isso.

Destaca algum jogador?

Luiz Henrique, Marlon Freitas. É um time de respeito, um time forte fisicamente, muito bem treinado, com opções, e está caminhando muito bem.

A Fifa acaba de criar o Super Mundial de Clubes. Aprova?

Eu não gostei muito dessa fórmula, não. Acho que nem os jogadores e os treinadores gostaram. É muito jogo! Não acho que seja proveitoso, a não ser o fato comercial, que também é importante, mas existem alguns exageros. Eu não gostei, é muita gente, e você vê as opiniões dos principais treinadores e eles também estão preocupados.

Quais são as recordações de Brasília?

Joguei aqui há muito tempo, acho que em 1974. Vim a Brasília algumas vezes como jogador, comentarista em jogos do Brasileirão e da Seleção Brasileira. Eu gosto de Brasília. Sou fã de Brasília. Eu nunca peguei trânsito aqui. Tem bons restaurantes. Sinto-me bem aqui.

Alguma lembrança de jogo marcante em Brasília?

Uma vez, chutaram uma bola no meu goleiro, o Rafael, ele soltou, eu vim correndo para proteger e o jogador adversário veio com o joelho na minha costela. Eu passei 57 dias sem jogar. Uma lembrança ruim, mas é a que vem à minha memória.

postado em 06/12/2024 00:01 / atualizado em 06/12/2024 10:48