VELA

Martine Grael exalta momento no SailGP: "Sinto-me à vontade onde há desafio"

Em entrevista ao Correio, bicampeã olímpica destaca o poder da liga de barcos velozes, que "voam" sobre o mar, e se orgulha de ser a primeira mulher capitã na competição, à frente do Mubadala Brazil SailGP Team

Carreira de Martine Grael foi moldada na vela olímpica, mas, aos 34 anos, curte a adrenalina do SailGP -  (crédito: AT Films)
Carreira de Martine Grael foi moldada na vela olímpica, mas, aos 34 anos, curte a adrenalina do SailGP - (crédito: AT Films)

Martine Soffiatti Grael está acostumada a velejar contra o vento e abrir caminhos. Na Olimpíada do Rio-2016, tornou-se a primeira mulher a conquistar a medalha de ouro, ao lado de Kahena Kunze na 49er FX. Também se orgulha de ser a primeira filha de um campeão olímpico a repetir o feito do pai. Nos Jogos de Tóquio-2020, faturou o bi. Em Paris-2024, lamentou o oitavo lugar. Hoje, deixa esse mundo um pouco de lado e curte o momento como pioneira na “Fórmula 1 da vela”. 

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Daqui a menos um mês, Martine completará 35 anos. Um dos presentes em 12 de fevereiro será ser primeira mulher a capitanear um time no SailGP, competição criada em 2019 e disputada entre países com barcos em alta velocidade, capazes de “voar” sobre a água, graças à tecnologia dos hidrofólios durante 13 etapas ao redor do mundo. Haverá, inclusive, uma escala no Rio de Janeiro para disputa na Baía de Guanabara em 11 e 12 de abril. Será a primeira vez da América do Sul no mapa do evento. 

A temporada 2026 do SailGP começou nesta sexta-feira (16/1), em Perth, na Austrália, e se estende até o domingo (18/1). Será a mais longa temporada, com 13 etapas. Os catamarãs F50, considerados os barcos mais velozes do planeta, passarão por lugares badalados, como Nova York, Saint-Tropez, Emirados Árabes Unidos, Bermuda. A final será em Abu Dhabi, em 28 e 29 de novembro. O Mubadala Brazil SailGP projeta uma temporada vitoriosa após duas vitórias em regatas e o vice-campeonato na Impact League 2025. 

Neste SailGP, Martine encontra um Brasil com renovações em diferentes cargos. O italiano Pietro Sibello é o responsável por controle da asa rígida. O dinamarquês Rasmus Kostner é o controlador de voo, função que mantém o barco “voando” de forma estável e rápida. O treinador é o britânico Paul Brotherton. A espinha dorsal brasileira permanece com Marco Grael, Mateus Isaac e Breno Kneipp, responsáveis pela potência dos pedais como grinders. O britânico Paul Goodison segue como estrategista, enquanto Richard Mason atua como reserva. Ao Correio, a bicampeã olímpica destaca os upgrades na equipe, a importância do desafio do SailGP e diz se pensa Los Angeles-2028. 

O que você projeta para esse início de circuito e o quão simbólica é essa escala no Brasil?

"Está sendo um início de muita intensidade, com três etapas consecutivas na Oceania, então o ritmo já começa lá no alto. E ter o Brasil num horizonte tão próximo no calendário é muito motivador e alvo de uma expectativa acumulada por dois anos seguidos. Estamos muito animados para velejar em casa e sentir de perto a energia da torcida. Tem essa alegria pessoal, claro, mas também o fato de ser uma etapa histórica, a primeira na América do Sul, que é símbolo de que o Brasil está no circuito de elite da vela profissional. Essa vai ser uma grande oportunidade para o público assistir a esse espetáculo e sentir orgulho por isso também."

Você entrou para a história como a primeira mulher capitã de uma equipe no SailGP. Como você processa esse marco hoje — como responsabilidade, como símbolo, como cobrança, como motivação?

Sem dúvida, é uma posição de muita responsabilidade, mas sei que ocupo este lugar pela minha trajetória. Não deixo que o simbolismo se sobreponha ao meu foco na performance. Certamente, o mais gratificante é mostrar para outras meninas e mulheres velejadoras que esse espaço também é nosso. Acredito que o sonho de toda mulher que é a primeira em alguma coisa é de que ela não seja a única por muito tempo, então torço para surgirem sempre muitas outras mulheres em posições de destaque e liderança.

Sua equipe passou por mudanças recentes e se tornou um espaço bem internacional. O que muda na dinâmica de trabalho quando se mistura culturas, formações e estilos de velejar?

Chegar ao nível mais alto da vela requer ter ao seu lado gente muito experiente e sedenta de aprender mais. Aqui, é um jogo de quem se adapta mais rápido as condições e às trocas de configuração. Ter pessoas de outras nacionalidades é normal num projeto assim, que requer tantos especialistas. Também traz mais riqueza de ideias e organização.

O que diferencia o SailGP da corrida olímpica em termos de formato, tecnologia, velocidade e tomada de decisão?

Os Jogos Olímpicos, mais recentemente, tentaram levar as finais mais perto do público, mas o SailGP partiu daí desde o princípio e com corridas em um percurso bem estabelecido, que oferecem um show para o público. Na parte da velejada, o nosso instrumento, o barco se distancia muito da vela tradicional, apresentando uma quantidade impressionante de controles, sensores e botões que controlam os hidrofólios e a asa, que move o barco como a asa de um avião.

"Fórmula 1 do mar", SailGP atrai milhares de espectadores nas etapas ao redor do mundo
"Fórmula 1 do mar", SailGP atrai milhares de espectadores nas etapas ao redor do mundo (foto: Iain McGregor/SailGP)

Você hoje transita entre o circuito olímpico e uma liga profissional de altíssima performance. Em qual dos dois ambientes você se sente mais à vontade?

Eu me sinto à vontade onde há desafio. Independentemente da modalidade, acredito ser isso o que move todo atleta. Estive por mais tempo no ambiente olímpico, que de certa forma me moldou como atleta. O SailGP me desafia a evoluir como líder e como piloto de uma embarcação extremamente complexa. Hoje, meu foco está em dominar essa tecnologia do F50 em busca pelos melhores resultados.

O tipo de embarcação do SailGP — com foils, altíssima velocidade e tecnologia embarcada — é o formato que mais te cativa hoje na vela?

Sem dúvida. Uma vez que você experimenta a sensação de “voar” sobre a água a essa velocidade, é difícil não achar incrível. A tecnologia embarcada nos dá dados em tempo real sobre tudo, e transformar esses dados em velocidade é um exercício intelectual e físico muito emocionante.

Deu tempo de digerir Paris-2024? O que ficou de mais forte daquela campanha?

Campanhas olímpicas são intensas por natureza. O que fica de mais forte é o orgulho da trajetória e o aprendizado adquirido em todo o processo. O esporte de alto nível é feito de ciclos, e sou muito grata por ter a oportunidade de representar o meu país, seja no ciclo olímpico ou, como agora, no SailGP.

Você falou sobre a possibilidade de uma pausa, ter um ano sabático. Isso continua no seu horizonte?

Neste momento, o meu “sabático” é estar a bordo de um barco que voa a quase 100km/h, então podemos dizer que estou em uma fase de acelerar, não de parar (risos). A verdade é que o SailGP exige bastante dos atletas, e mesmo quando não estamos na água, não sobra muito espaço para pausas. O projeto do Mubadala Brazil SailGP Team é um compromisso que assumi e no qual estou bastante focada.

LA-2028 está fora de vez ou essa porta nunca se fecha completamente?

Posso dizer que meu compromisso hoje é com o Mubadala Brazil SailGP Team. Meu foco agora é a temporada 2026 da liga, especialmente a etapa que vai acontecer no Rio de Janeiro, que já é logo ali, em abril.

Como está sua relação com a Kahena hoje — pessoalmente e no olhar para o futuro dentro da vela?

A Kahena é uma grande parceira, ao lado de quem vivi alguns dos melhores momentos da minha trajetória. Torcemos muito uma pela outra em nossos projetos individuais, independentemente do esporte ou de estarmos no mesmo barco.

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postado em 16/01/2026 14:55 / atualizado em 16/01/2026 16:34
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