ESPORTES OLÍMPICOS

Boxe brasileiro entrega resultados enquanto carece de patrocínios

Presente nos pódios dos últimos quatro Jogos Olímpicos e modalidade do programa brasileiro com mais medalhas em campeonatos mundiais em 2025, nobre arte tem sobrevivido apenas com repasses do COB

Aos 25 anos, a carioca Rebeca Lima (de azul) é campeã mundial em Liverpool da categoria 60kg e um dos principais nomes da nova geração dos ringues do Brasil -  (crédito: World Boxing/Divulgação)
Aos 25 anos, a carioca Rebeca Lima (de azul) é campeã mundial em Liverpool da categoria 60kg e um dos principais nomes da nova geração dos ringues do Brasil - (crédito: World Boxing/Divulgação)

Se a distribuição de recursos do Comitê Olímpico do Brasil (COB) em 2026 considerasse somente os resultados obtidos em campeonatos mundiais do ano passado, o boxe seria o mais abastado entre os 38 beneficiários, com os R$ 16,5 milhões da ginástica. Entretanto, a nobre arte tem de se "contentar" com R$ 10,1 milhões, o 9º maior repasse. Mas o valor não é problema e, sim, o fato de ser praticamente a única fonte de renda da modalidade que acostumou a entregar muito com pouco. 

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Das 20 medalhas conquistadas pelo Brasil em campeonatos mundiais do ano passado, quatro tiveram as mãos dos boxe, as pratas de Yuri Falcão, Luiz Oliveira e Isaias Ribeiro e o ouro de Rebeca Lima. Considerando Jogos Olímpicos, a modalidade se orgulha de ter "medalhado" em quatro edições consecutivas do megaevento — Londres-2012, Rio-2016, Tóquio-2020 e Paris-2024. Apesar dos ciclos de pódios, a nobre arte carece de patrocinadores. 

Eleita a maior revelação do esporte nacional no Prêmio Brasil Olímpico 2025, Rebeca Lima tornou pública a necessidade da modalidade. "Não aponto que é patrocínio de luvas que não chegam, é muito mais profundo que isso. É estrutural, de o governo investir no desenvolvimento da modalidade e, obviamente, isso começa desde a base", queixa-se em entrevista ao Correio. Ela se recorda que a base costuma ser feita no país por projetos sociais, como o da ONG Luta Pela Paz, que a lapidou no Complexo da Maré, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro onde cresceu. 

Segundo Rebeca, há um sentimento de injustiça devido ao apoio dado por empresas e até pelo governo a outras modalidades, que não entregam tanto quanto o broxe. "Ganhamos e ainda temos que implorar por atenção. Outros esportes têm mais visibilidade com menos resultado e continuam sempre na mídia, sempre sendo bem vendidos. Não estou dizendo que eles não precisam ser tão vendidos porque não têm tantos resultados. Pelo contrário, são os que não estão que precisam entrar nessa também", defende. 

Portanto, o retorno, tanto midiático quanto monetário não é equiparável aos resultados. "Patrocinadores adoram chegar na porta das Olimpíadas, porque se estampam a cara deles com o seu sucesso, dá a entender que fizeram parte de tudo aquilo. Mas, na real, não. Chegam no momento do ápice. Por isso, valorizamos muito as marcas que chegam com o propósito real de acompanhar o processo de desenvolvimento da modalidade", expõe a atleta, que complementa: "O Brasil deveria devolver para o boxe aquilo que o boxe sempre dá: a transformação de vida. É só dar mais poder para o boxe continuar fazendo o que já faz."

Presidente da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), Marcos Brito endossa o discurso. "Dependemos exclusivamente do COB e, eventualmente, de algum recurso que a gente consegue fazer em convênio com o Ministério do Esporte, prefeitura ou governo de estado para projetos específicos. Falta o apoio de um patrocinador que entenda o objeto social do boxe. Particularmente, não entendo isso", indaga. 

O dirigente reclama do desinteresse de estatais, por exemplo. Considera estranho o atual governo, segundo ele, voltado ao social, não enxergar o potencial do boxe. Normalmente, as conversas com potenciais patrocinadores avançam, mas travam antes dos ajustes finais. Brito e Rebeca têm uma tese: de que há o pré-conceito por ser uma modalidade "violenta". "Falta conhecimento do que é o boxe. É uma prática de contato, não tenho dúvida, mas o futebol e o basquete também são. Se fosse esse o motivo, estaríamos tal qual os outros. Temos a segurança do atleta", ressalta.

As delegações do boxe brasileiro costumam fazer 10 viagens internacionais por ano. O custo de levar atletas, técnicos e todo o suporte necessário varia entre R$ 200 mil e R$ 350 mil. "Se é para apoiar um esporte, não precisa apoiar os que já têm patrocinadores e que são fortes e têm um orçamento grande. Na minha opinião, é quase uma questão obrigatória ter um investimento no boxe", manifesta Brito. 

O investimento do COB no boxe cresceu 53% entre 2021 e 2026, mas a modalidade caiu do 4º para o 9º lugar no ranking de repasses nesse período. Mesmo assim, segue recebendo mais, como os R$ 10,1 milhões desta temporada, porém perde espaço e prioridade em relação a outros esportes.

 

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postado em 23/01/2026 06:00
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