A arbitragem brasileira passará, na temporada 2026, por um divisor de águas, com data definida e estrutura inédita. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) confirmou, nesta semana, a implementação do Programa de Profissionalização da Arbitragem (PRO), iniciativa com início oficial em 1º de março e objetivo claro de transformar a atividade em profissão estruturada, com critérios técnicos, avaliação permanente e investimento robusto. A medida surge após décadas de debate e pressões por maior qualidade e padronização nas decisões.
O primeiro grupo do PRO reunirá 72 profissionais selecionados com base em desempenho recente e histórico de atuação. O Distrito Federal marca presença com Sávio Sampaio, como árbitro central, e Leila Cruz, como árbitra assistente do quadro Fifa, ambos integrados à elite nacional escolhida para inaugurar o novo modelo. Os nomes convidados ainda possuem prerrogativa de recusar a participação no programa. O investimento projetado pela CBF alcança cerca de R$ 195 milhões ao longo do biênio 2026/2027, valor destinado à remuneração, capacitação, saúde, tecnologia e estrutura de acompanhamento.
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A ambição envolve cobertura total das 380 partidas da Série A do Campeonato Brasileiro apenas com integrantes do PRO, sem impedir atuação em outros torneios. As duas primeiras rodadas da elite nacional, por exemplo, serão arbitradas apenas por nomes da primeira tropa profissional da arbitragem. "O trabalho resulta de reuniões, debates e visitas técnicas, além do mapeamento e da análise de modelos de profissionalização adotados pelas principais ligas europeias. A iniciativa reflete o compromisso em avançar e apresentar soluções concretas para desafios que se acumulam há anos, sem respostas eficazes, exigências de um futebol mais moderno, profissional e alinhado às melhores práticas internacionais", comentou Helder Melillo, diretor-executivo da CBF e relator do GT de Arbitragem.
Avaliação constante
Estruturada, a seleção dos profissionais seguiu três critérios objetivos: vínculo com os quadros da CBF ou da Fifa, número de escalas na Série A nas temporadas 2024 e 2025 e nota média nas avaliações oficiais de desempenho do mesmo período. O grupo final contempla 20 árbitros centrais, sendo 11 FIFA, 40 assistentes, com 20 Fifa, além de 12 árbitros de vídeo, todos do quadro internacional.
Os contratos adotam formato de pessoa jurídica, com duração inicial de um ano junto à CBF. O modelo prevê salários mensais, taxas variáveis por jogo e bônus por performance. Pela natureza jurídica do vínculo, não existe exigência formal de exclusividade, embora a dedicação prioritária à arbitragem componha o espírito do programa. A permanência no PRO não será automática. Ao final de cada temporada, os profissionais passam por avaliação de rendimento e podem sofrer rebaixamento, com pelo menos dois nomes de cada função substituídos por árbitros em ascensão.
O acompanhamento técnico ocorrerá de forma sistemática. Observadores e comissão técnica contratada pela CBF atribuem notas por múltiplos indicadores, entre eles controle disciplinar, aplicação das regras, desempenho físico e clareza na comunicação. Os resultados alimentam ranking atualizado rodada a rodada, referência direta para escalas e progressão. A rotina semanal dos árbitros incluirá planos individualizados de treino, monitoramento tecnológico e suporte completo de saúde. O pacote prevê acompanhamento com nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas, além de quatro avaliações anuais com testes físicos e simulações de jogo.
A capacitação técnica ganha peso central no PRO. A CBF promoverá imersões mensais com aulas teóricas, avaliações, debates de lances e sessões práticas em campo. O foco recai sobre tomada de decisão, padronização de critérios e leitura de jogo, sempre com retorno individualizado após cada rodada. O objetivo envolve adaptação das melhores práticas à realidade do futebol brasileiro.
"Trata-se de uma mudança estrutural profunda e necessária, pedida há décadas por todos aqueles que amam nosso esporte. É um movimento que segue as melhores práticas de outras grandes federações do mundo. Uma pauta que precisava ser estudada com todos os setores do futebol e implementada com firmeza, mas que estava adormecida aqui na CBF. Como em outros casos, essa nova gestão resolveu encarar o desafio", disse o presidente da CBF, Samir Xaud.
Investimentos
Na aposta da profissionalização da arbitragem brasileira, está um alto investimento financeiro. No campo da inovação, a CBF confirmou R$ 25 milhões para implementação do impedimento semiautomático, ainda sem data definida de estreia. Outra novidade prevista envolve a refcam, câmera acoplada ao corpo do árbitro, ferramenta voltada à análise comportamental e à inibição de reações exageradas em campo. As cifras ainda envolvem recursos para o VAR, remuneração dos profissionais, logística e tecnologia e inovação, até totalizar o cálculo de R$ 195 milhões.
O PRO se sustenta em quatro pilares. O primeiro envolve remuneração estruturada, com salário fixo, cotas variáveis, bônus por desempenho e serviços de apoio, como auxílio-academia. O segundo pilar foca excelência física e saúde, com treinos regulares, monitoramento por smart watches e avaliações periódicas. O terceiro eixo trata da capacitação técnica contínua, com imersões, padronização e análise detalhada de decisões. O quarto pilar aposta em tecnologia e inovação, com VAR semiautomático e novos recursos de monitoramento.
Com representantes do Distrito Federal entre os pioneiros, a arbitragem brasileira inicia etapa decisiva rumo à profissionalização plena. O sucesso do PRO passa pela execução rigorosa do modelo, pela transparência das avaliações e pela capacidade de traduzir investimento em qualidade dentro de campo. O apito, agora, entra oficialmente em regime de carreira.
